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Campo Grande, Sábado, 25 de Maio de 2019

27/04/2019 07:21

Após 6 anos de cadeia, Adriana deu volta por cima e formou o filho em Engenharia

Hoje os dois trabalham na mesma empresa e ela gosta de falar o que aprendeu com o passado.

Thailla Torres
Sorriso de Adriana é um misto de orgulho e alívio, pela liberdade e a educação do filho. (Foto: Arquivo Pessoal)Sorriso de Adriana é um misto de orgulho e alívio, pela liberdade e a educação do filho. (Foto: Arquivo Pessoal)

Em 2017, Adriana Alves Coelho estava mais emocionada do que o filho, no alto do palco, com ele prestes a receber o diploma de Engenharia Civil. Nos olhos, um misto de orgulho e alívio por ter chegado a tempo da formatura, porque nos últimos anos o que ela viu foi o tempo passar atrás das grades.

Presa por tráfico de drogas em 2012, Adriana recebeu sentença de 11 anos por um crime que jura não ter cometido. Durante dois anos encarou o regime fechado, vendo dias iguais, sem muita esperança.

Hoje, quem olha o sorriso da acadêmica de estética e copeira, não imagina a história que há por trás da mulher que chega todos os dias cedo para o trabalho, encara jornada e estudo sempre sorrindo, embora o passado sombrio ainda não tenha saído do peito.

No trabalho, Adriana nos recebe na sala de reunião da empresa. Um sorriso tímido aparece ao cruzar com a câmera, mas ela encara a conversa. Ela diz que nunca negou a prisão e por isso topou dar entrevista, mesmo com a exposição. “Nunca foi uma coisa que eu escondi, até porque não tem como. Mas acho que está na hora de encarar e falar sobre isso de uma vez para quem quiser saber”, resume.

Guilherme e Adriana, na formatura de Engenharia Civil da UCDB. (Foto: Arquivo Pessoal)Guilherme e Adriana, na formatura de Engenharia Civil da UCDB. (Foto: Arquivo Pessoal)

A coragem em contar vem com o apoio incondicional do filho, sentado ao seu lado. Hoje, Adriana e Guilherme Freire De Mariz, de 22 anos, dividem o mesmo ambiente de trabalho. Ela coperia, ele engenheiro civil da Engepar, construtora de Campo Grande.

Colegas de trabalho, mãe e filho também compartilham um recomeço desde que Adriana saiu da prisão, conseguiu um emprego e viu Guilherme se tornar engenheiro. “Era um sonho ver ele formado. Tinha medo de não conseguir ir estar na sua formatura”, admite. Guilherme completa: “Era meu maior sonho ter ela e meu pai na plateia”.

Adriana foi presa dentro de casa junto com o ex-marido no mesmo ano que o filho terminava o Ensino Médio. A angústia em ver os pais na prisão fez Guilherme pensar em desistir dos estudos. “Deu vontade de largar tudo, era muita tristeza”, conta. Isso só não aconteceu graças ao pedido da mãe e dos avós. “Principalmente, meus avós. Foram eles que cuidaram de mim e deram todo apoio para que eu continuasse a faculdade”.

Entre se sentir perdida para o resto da vida ou erguer de vez a cabeça, não demorou muito tempo para Adriana dar um novo passo, ainda dentro da cadeia. “Lá dentro é um tristeza, uma solidão e um medo imenso. Eu ficava pensando que não tinha saída até entender que minha única saída era cumprir minha pena e voltar a viver. Lá dentro descobri que a gente se adapta a tudo”.

Adriana então passou a trabalhar. Na rotina dentro da prisão, levantava, tomava banho e ia ao trabalho. No fim do dia, o único desejo era fechar os olhos para que a noite passasse mais rápido. “Lá dentro parece que as horas não passam, foi então que eu só quis trabalhar”.

Guilherme é puro orgulho da mãe. (Foto: Kísie Ainoã)Guilherme é puro orgulho da mãe. (Foto: Kísie Ainoã)

No dia da visita ela continuava recebendo os pais e os filhos, combustível extra para o cumprimento da pena. “Eles nunca me abandonaram e sempre me deram força para lutar e sair da prisão”.

Foram dois anos de regime fechado, outros dois de semiaberto, até conquistar a condicional. Os 11 anos de pena se tornaram seis para alegria de Adriana. “Eu fiz tudo certo, estava disposta a recomeçar. Foi a primeira e última vez na vida que eu entrei em uma prisão”.

Além da saudade dos filhos, a cadeia e toda estruturação física do que significa não ter liberdade parecem destruir sentimentos, mas Adriana carregava um sonho. “Lá dentro muita gente surta, é muito difícil ficar em uma prisão. Mas eu não queria isso pra mim, só a minha família de volta”.

Sair a tempo de sentar nas primeiras fileiras da colação de grau e assistir ao filho vivendo um dos momentos mais importantes da vida foi reafirmação da liberdade após a sentença. “Eu fiquei muito emocionada, foi um dos momentos mais felizes da minha vida. Trabalhar ao lado dele então é um orgulho”.

Os sonhos agora são outros, tão importantes quanto a vitória de Guilherme. “Quero completar minha graduação de Estética e formar a minha filha, além de continuar trabalhando e deixar o passado para trás”.

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Felicidade de mãe e filho é dividir vitórias e recomeços. (Foto: Kísie Ainoã)Felicidade de mãe e filho é dividir vitórias e recomeços. (Foto: Kísie Ainoã)


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