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Campo Grande, Sábado, 18 de Agosto de 2018

02/01/2017 06:05

Após 8 meses internada, passeio emociona mãe tetraplégica e filha que a salvou

Depois de acidente, mãe ficou tetraplégica e filha se dedica aos cuidados todos os dias

Paula Maciulevicius
Com a Liga do Bem, Andreia e a filha Mayka curtindo primeiro passeio em shopping. (Foto: Paula Maciulevicius)Com a Liga do Bem, Andreia e a filha Mayka curtindo primeiro passeio em shopping. (Foto: Paula Maciulevicius)

Uma volta à infância. Ainda que as palavras saiam como sussurros, Andreia não desiste de falar. Foi assim que ela definiu o primeiro passeio ao shopping depois de oito meses internada. O acidente que a deixou tetraplégica levou parte da infância da filha Mayka, que assumiu a postura de cuidadora aos 9 anos. As lágrimas da emoção estão mais ligadas a ver a menina ser só uma criança do que com as próprias vontades de Andreia.

Mulher, mãe e contadora, Andreia Aparecida da Matta Gaúna tem 39 anos, é traqueostomizada e por isso que a gente quase não ouve a voz dela. O marido e a filha quem por costume, convivência e sintonia, entendem o que ela diz sem necessariamente precisarem ouvir. 

O acidente foi no dia 15 de novembro de 2015, na estrada indo para Rochedo. A família não sabe dizer o que aconteceu, mas o carro onde estavam capotou com Andreia, o marido Sérgio, a filha Mayka e ainda mais duas tias. 

Para contar em detalhes, Andreia pede à menina que narre exatamente o que aconteceu. Até porque foi ela quem acordou primeiro depois da batida. 

O encantamento de Mayka, naquele momento ela podia ser só uma criança. (Foto: Paula Maciulevicius)O encantamento de Mayka, naquele momento ela podia ser só uma criança. (Foto: Paula Maciulevicius)

"Na hora, o carro foi para um lado e minhas tias vieram para cima de mim, quando ele foi para o outro, eu apaguei. Quando acordei, já estava de cabeça para baixo e olhei para o lado, minha tia estava sangrando", descreve Mayka Alicia Gaúna da Costa, de 9 anos.

Mais perto da janela, o que a menina lembra é de se ver já saindo do carro. "Tinha alguém me puxando, eu falo que é meu pai. Ele diz que não é ele. Então é um anjo. A minha mae falou que foi Deus. Eu saí gritando no meio da rua, a sorte que a gente parou perto de um bar que ajudou a apagar o fogo", detalha.

Depois de capotar, o carro começou a incendiar. A família despertou e Sérgio tirou Andreia do banco do carona. "Ela estava presa e ia pegar fogo nela", explica Mayka. Do acidente, todos sobreviveram, exceto, segundo a menininha, os presentes dela: uma bolsinha e um CDzinho. Detalhes que não escapam da memória de Mayka tamanha ingenuidade dela.

Antes que a mãe peça ela já sabe quando e como deixar Andreia mais confortável. (Foto: Paula Maciulevicius)Antes que a mãe peça ela já sabe quando e como deixar Andreia mais confortável. (Foto: Paula Maciulevicius)

Andreia ficou tetraplégica e passou oito meses internada. Em parte a demora foi também porque a casa onde a família mora no bairro Caiobá II não tinha qualquer estrutura para receber uma cadeira de rodas. Andreia não tem movimentos dos braços e pernas e relata que não consegue nem tomar água sozinha.

E foi no contexto da internação que ela conheceu quem hoje leva o título de "anjos" na vida da família. A Liga do Bem, na figura do Super-homem, que encontrou os olhos carregados de tristeza de Andreia lá e fez o primeiro contato. O grupo também arrecadou fundos e deu toda mão de obra para a adaptação da residência e desde então, apadrinhou Andreia, Mayka e Sérgio.

A visita ao shopping foi intermediada por eles. O casal com a filha já tinha ido ao Burger King dias atrás na volta da dentista de Andreia. "Ela tinha muita vontade de vir passear no shopping e não tinha saído desde que voltou para casa", conta Dona Clotilde, personagem do Chaves que a Liga incorporou. A ideia então foi de levá-la até a exposição do personagem mexicano, no Bosque dos Ipês.

E brincando de ser Chaves E brincando de ser Chaves
Mayka vai saindo devagar Mayka vai saindo devagar
Até abrir um sorrisão de dentro do barril. (Foto: Paula Maciulevicius)Até abrir um sorrisão de dentro do barril. (Foto: Paula Maciulevicius)

Na entrada, era visível a carinha de realização da pequena. Mayka consegue se divertir, dar entrevista e ainda mudar a mãe de posição na cadeira de rodas. Andreia nem precisa pedir, a filha já sabe quando é a hora do pés ficarem para cima. A menina, junto do pai, reveza os cuidados para com Andreia.

O marido Sérgio deixou o emprego de porteiro para cuidar da esposa e Mayka as brincadeiras de infância para se dedicar também. "Quem cuida dela sou eu e meu pai. Ele tem que passar sonda, aspirar e quando ele sai para comprar algum remédio, tem que ver alguém para ficar com a minha mãe. Se não tem, tem que ser eu mesma", explica a menininha. 

Ao entrar na Vila do Chaves, antes mesmo de chegar ao barril, Mayka era só sorrisos. "Eu fiquei feliz", conta. Mas a razão não é por estar exatamente no que remete ao programa de TV e sim pela saída na companhia da mãe que não envolveu ida em médicos ou coisa assim. "Depois do acidente, esta foi a primeira vez", conta a filha. 

Andreia fala pausadamente e a gente, para entender, precisa fazer leitura labial e repetir em voz alta o que compreendemos para confirmar as palavras. "Só mexo este braço até aqui", gesticula a mãe. "Meu marido deixou de trabalhar para cuidar e antes, eu que não dependia de ninguém para nada, agora preciso até para ir de um lugar para o outro", explica.

Nova de tudo, Andreia fala que agradece por ter sobrevivido e por ser ela a ficar na cadeira de rodas. "Com certeza agradeço, porque foi comigo e não com a minha filha", sustenta. Mayka não desgruda um segundo e narra toda a rotina da família. Ela estuda à tarde e quando não está na escola, está em casa. 

"Sabe que toda vez que meu pai vai buscar alguma coisa, nunca tem o que ela precisa? Falta fralda, remédio, gaze, pomadas, óleo de girassol. Essa cadeira também não é dela, é emprestada", enumera a filha. 

Na despedida, Mayka sai primeiro para aproveitar os últimos minutos de brincadeira pela exposição. Ela sabe que o tempo fora de casa para a mãe precisa ser cronometrado. E quando Andreia a vê longe, é que desabafa. "Ela amadureceu muito rápido..."

Por telefone, conversamos com Sérgio, o esposo, que no dia não estava na visita e perguntamos se, alguém quisesse ajudar, poderíamos deixar o telefone dele na reportagem. E por mais que a família precise de medicamentos, fraldas e tudo mais, sabe o que ele pediu? "Coloca o endereço para quem quiser fazer uma visita para conversar com a Andreia, é que somos só nós três aqui", convida.

O contato da família é: 9-9266-6865 e 99951-0215.

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Dia foi especial porque fez mãe voltar à infância e filha curtir um pouquinho da que se perdeu. (Foto: Paula Maciulevicius)Dia foi especial porque fez mãe voltar à infância e filha curtir um pouquinho da que se perdeu. (Foto: Paula Maciulevicius)


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