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Comportamento

Após luta para engravidar, mãe descobre câncer amamentando

No Outubro Rosa, mãe descreve o misto de sentimentos de ter descoberto o câncer de mama durante a amamentação

Por Paula Maciulevicius Brasil | 10/10/2020 13:02
Foi na amamentação que Salime descobriu que o que ela pensava ser uma mastite, era um nódulo. (Foto: Arquivo Pessoal)
Foi na amamentação que Salime descobriu que o que ela pensava ser uma mastite, era um nódulo. (Foto: Arquivo Pessoal)

Foram seis anos tentando engravidar, praticamente os nove meses de gestação em repouso absoluto até Júlia e Helena fazerem da biomédica Salime Fameli, mãe, e em seguida uma vencedora. No mês que se dedica à conscientização do câncer de mama, o Outubro Rosa, Salime descreve o misto de sentimentos de ter descoberto a doença em meio à amamentação.

"Descobri o câncer de mama aos 33 anos, no momento mais sublime que eu estava vivendo na minha vida: realizando o sonho de ser mãe e de gêmeas", conta Salime, hoje com 34 anos.

Júlia e Helena nasceram em novembro de 2018 e foram elas que acenderam o alerta para a mãe procurar um médico depois de achar que estava com mastite. O mês era julho, as meninas estavam com oito meses e uma delas rejeitou a mama. Helena tinha preferência por mamar do lado direito e Júlia, do esquerdo. "Achei que era uma mastite e comecei a esvaziar a mama, a esgotar, mas o caroço não sumia nunca e a forma dele estava bem diferente", resume.

Foram seis anos de tentativas para engravidar. (Foto: Arquivo Pessoal)
Foram seis anos de tentativas para engravidar. (Foto: Arquivo Pessoal)

Percebendo que não era mastite, Salime procurou a ginecologista que pediu um exame de ultrassom. "Ali eu já notei que o rostinho dela ficou estranho", lembra. Ao fazer o exame, Salime também percebeu diferença na imagem. "Não estava passando a luz e estava bem grande, perguntei se teria de operar e a médica respondeu: 'acredito que sim'".

O laudo seria encaminhado direto para a ginecologista, mas Salime resolveu esperar para ver com os próprios olhos o que temia. Como a clínica de ultrassom era a mesma que a tinha recebido durante toda a gestação das gêmeas, a biomédica era conhecida por todo mundo. "A auxiliar veio até mim entregar o laudo com uma cara de pesar. Eu não sei te dizer se ela realmente estava com o rosto de pesar ou se era eu que já estava sentindo que estava com câncer. Quando abri o laudo e vi a classificação só pensei: 'eu vou morrer'".

A lembrança vem à memória com a mesma angústia daquele dia de julho de 2019. Era um sábado, e ao falar com a ginecologista por telefone, Salime ouviu: 'vida normal, venha segunda-feira ao consultório".

No dia da consulta, com o laudo em mãos, Salime foi rapidamente atendida e encaixada com uma mastologista e também uma oncologista. Todas mulheres que não mediram esforços nem carinhos para com a mãe das gêmeas. "'Menina, você é jovem, tem duas filhas para criar e a gente vai vencer', era isso que eu ouvia da oncologista, mas eu só pensava: 'meu Deus, como que eu vou vencer?'".

Salime durante quimioterapia. (Foto: Arquivo Pessoal)
Salime durante quimioterapia. (Foto: Arquivo Pessoal)

Por sorte e agilidade dos médicos, a biópsia foi feita no dia seguinte à primeira consulta e o resultado já saiu na mesma semana. "Deus tocou o coração das médicas, aquele é o trabalho delas, elas veem isso diariamente e foram fantásticas", reconhece a paciente.

O laudo trouxe um resultado que tirou o chão da mãe: tumor maligno de grandes proporções.

"Seis centímetros e ele não tinha receptor hormonal, era um triplo negativo, eu sabia que quando vinha esse diagnóstico, era porque já tinha metástase. Eu olhava o resultado e olhava minhas filhas, não sabia por onde começar e caí em desespero".

As noites seguintes foram de insônia e muito choro. Salime recorda que tentava disfarçar diante das filhas bebês até que os exames mostraram que o triplo negativo, tão temido por ela, havia ficado só numa das mamas.

"A todo momento eu me pergunta para quê o câncer na minha vida ao mesmo tempo em que questionava o por quê e de onde eu iria tirar forças. Eu quero viver, quero viver com as minhas filhas. Um diagnóstico de câncer de mama é muito ruim, como se tivesse levado um soco na boca do estômago. Você se sente impotente, incapaz. Não consegue entender".

Tratamento - Dia 9 de agosto Salime se sentou para fazer a primeira quimioterapia. Começou confiante, sabendo que perder cabelo e ver a pele manchar seria o de menos. "Eu preciso ficar viva, me manter viva, pelas minhas filhas, meu esposo, minha mãe, minha avó, meu irmão, minha tia. Eu entreguei a Deus meu tratamento e fui na cara e na coragem, mas eu não sabia o que me esperava".

Salime se fechou, no quarto chorava e para os outros, não queria contar da doença. Sentia vergonha de ser julgada ou pior, de sentir a dó das pessoas. "Não queria a piedade de ninguém, só o amor, mas infelizmente não são todos que sabem dar amor. A primeira coisa que as pessoas pensam é: 'vixe, tá com câncer, vai morrer'. Infelizmente o paciente oncológico é visto como já morto".

Nas mãos, os cabelos caindo logo após início do tratamento (Foto: Arquivo Pessoal)
Nas mãos, os cabelos caindo logo após início do tratamento (Foto: Arquivo Pessoal)

Não que o diagnóstico não seja, de início, uma sentença de morte. "Quando você pega o resultado e você está com câncer, você pensa que vai morrer, e quando a gente começa o tratamento, vê que não vai, que vai vencer e isso que eu queria que as pessoas soubessem, que às vezes aquela pessoa tem chance de cura, mas o que acontece é que a tristeza abaixa demais a nossa imunidade e no período que estamos na quimio, a gente fica muito vulnerável a tudo e principalmente às palavras e se estamos fragilizados emocionalmente, de repente nosso corpo fica mais frágil", descreve.

A primeira quimio passou e 15 dias depois, veio a segunda sessão e com ela a queda de cabelos "em placas". Com os fios nas mãos cada vez que passava pelo cabelo ou que brincava com as filhas, Salime resolveu que deixaria registrada em fotos aquela passagem, não como uma lembrança para o futuro, mas para que as filhas tivessem uma foto dela com cabelos caso a doença fosse mais forte.

"Tinha medo das minhas filhas só terem fotos minhas careca, eu tinha tanto medo de morrer, que dizia que precisava tirar uma foto linda com elas, para elas terem uma foto com a mãe com vida, porque eu achava que ia morrer". A voz embargada deixa um silêncio no ar, o relato para dando vez às lágrimas.

Salime chegou a fazer ensaio sem os cabelos, quando voltou a se sentir feminina. (Foto: Ricardo Valencio)
Salime chegou a fazer ensaio sem os cabelos, quando voltou a se sentir feminina. (Foto: Ricardo Valencio)

"Eu tinha vontade de viver, mas eu tinha certeza que o triplo negativo ia me vencer, porque ele é muito cruel, cresce muito rápido e se desenvolve da noite para o dia numa velocidade imbatível", completa.

A quimioterapia "judiava" a mãe. Se não bastasse todo o mal estar, Salime ainda tinha reações alérgicas. Era vômito, ânsia, corpo cansaço, sem fome, nem paladar e olfato, além de esquecimento em torno de tarefas do dia a dia.

"Foram 16 sessões de quimio intravenosa e elas foram cruéis. Eu perdi o período mais lindo das minhas filhas, onde elas estavam aprendendo a engatinhar, a comer, e eu não vi isso, porque a quimio, o câncer, não me permitiram".

No mundo oncológico, como Salime se refere aos pacientes, médicos, tratamentos e exames que ela descobriu com o tumor, a biomédica viu muitas vitórias.

"O tratamento do câncer é mais cruel do que o câncer em si, isso aprendi depois que entrei para este mundo oncológico, onde também vi muita vitória. Aliás, existem mais vitórias do que derrotas e a gente precisa para de falar que quem tem câncer vai morrer. Às vezes pode morrer sim, mas por metástase ou porque o diagnóstico não foi feito corretamente, ou demorou demais para fazer os exames, mas no caso das mamas, o autoexame é como escovar os dentes. É rápido, é fácil e é prático e salva a vida e te dá a possibilidade de voltar a viver bem".

Retirada das mamas - A cirurgia em janeiro deste ano retirou as duas mamas de Salime, ela fez a reconstrução, mas por conta da radioterapia que fazia em uma das mamas, tem diferença no tamanho entre elas, além de dores.

"É uma cirurgia delicada, soltei o músculo, a prótese comprimi, dói a região axilar, não posso carregar minhas bebês do lado direito. É bem complicado, o câncer deixou a marca registrada dele e eu estou aqui, tentando terminar de vencer ele".

Salime se considera curada, embora ainda faça quimioterapia, agora via oral e já está na reta final do tratamento. "Estou muito agradecida a Deus por uma equipe médica fantástica que me atenderam, me transmitindo ternura e sensação de paz. Eles se desdobraram para que hoje eu pudesse estar aqui escutando choro, reclamação e as duas brigando por uma chupeta", comemora.

Júlia e Helena estão com 1 ano e 10 meses, são lindas, queridas e se mostraram muito pacientes durante a fase mais crítica da quimioterapia. "Elas são muito boazinhas e parecia que elas entendiam o tempo todo pelo que eu estava passando. Elas não ficavam doentes, não davam trabalho pra vó, nunca foram choronas. Acho que entendiam que não podiam ter o colo da mãe", acredita.

Salime e o marido Ricardo, ela de peruca, no 1º aninho das gêmeas.
Salime e o marido Ricardo, ela de peruca, no 1º aninho das gêmeas.

O tempo e as lições -  Agradecida por poder falar hoje sobre o câncer de mama e mais ainda por estar aqui, a biomédica quer fazer com que suas palavras cheguem como alento a tantas mulheres que hoje se veem como pacientes. "A gente tem que passar para o próximo, para essas mulheres, que elas podem vencer, se vence bem mais do que se perde, porque o câncer de mama tem cura".

"Eu consegui vencer, passar pelas quimioterapias, pela cirurgia com alegria por ter a minha família perto de mim, amigas maravilhosas e nós conseguimos vencer, nós mulheres conseguimos superar, e é preciso que a gente tenha mais empatia, que sejamos mais solidárias, que olhemos umas para as outras com olhar de amor, porque é difícil passar por isso, é difícil para quem está no começo, é doloroso, o tratamento é cruel, mas ele acaba e eu estou aqui, falta um pouquinho para terminar de acabar".

Salime agradece, sobretudo, por ter tido duas filhas em uma única gestação, porque depois de um câncer e do tratamento, ela sabia que poderia ser ainda mais difícil engravidar. "E Deus me mandou uma dupla, porque sabia o que eu ia passar Hoje eu vejo a vida com outros olhos, o que importa é o amor, a fé e a gente nunca perder a esperança".

Uns dias atrás, a mãe protagonizou uma cena tão comum, mas que teve um valor imenso. O de poder levar as filhas para passear no parque e tomar uma água de coco.

"As minhas filhas não conhecem shopping, piscina de bolinhas, agora que consegui levá-las ao parque, porque naquela idade que toda mãe passeia com os filhos, eu não podia levar. Hoje a gente tem o coronavírus, eu continuo em tratamento, e mesmo assim consegui sair com elas e foi tão lindo. Vê-las fazendo arte é tão lindo e é nisso que eu me apego, a esse amor incondicional de mãe e filha, filhas né?"

As geminhas Júlia e Helena estão hoje com 1 ano e 10 meses e aproveitaram uma ida ao parque com a mãe pela primeira vez dias atrás. (Foto: Arquivo Pessoal)
As geminhas Júlia e Helena estão hoje com 1 ano e 10 meses e aproveitaram uma ida ao parque com a mãe pela primeira vez dias atrás. (Foto: Arquivo Pessoal)


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