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Comportamento

Cachorrinha vira livro para mostrar relação com humanos

"Hanny, Amor Eterno" traz contos de uma cadela que vive entre os humanos, mas que também sonha que nem eles

Por Thailla Torres | 17/01/2021 08:49
Ilustração feita por Guto Naveira para obra literária (Foto: Arquivo Pessoal)
Ilustração feita por Guto Naveira para obra literária (Foto: Arquivo Pessoal)

Três autoras, Marília Adrien de Castro, Dulce Martins e Lúcia Carolina escreveram juntas a obra literária "Hanny, Amor Eterno". São contos de uma cachorrinha que vive entre humanos e sonha com os humanos. A proposta, segundo elas, é que os homens se conscientizem mais sobre as questões animais e principalmente como os cães ocupam um espaço muito especial de amor e muitas vezes como um membro da família. As histórias de Hanny são embasadas na vida real ela existiu e até hoje vive no coração da Dulce e dos amigos.

A partir de hoje, as autoras compartilham no Lado B, aos domingos, contos que compõem a obra que em breve será lançada. Dulce é professora apaixonada por estudos de comportamento de pessoas, animais e natureza. Lúcia Carolina e Marília Adrien são jornalistas. Confira o primeiro conto:


Adeus costumes velhos, felizes os novos!

Dulce apareceu deslumbrante na sala de visitas, parecia chegar em companhia do Sol, trazendo seu brilho dourado e calor. Já se tinha encerrado o expediente da estrela do dia e quem brilhava eram as pessoas em celebração pela última noite do ano, em desejos luminescentes para o período que começaria dali a poucas horas.

Fui envolvida pelo vestido branco de muitos pontos dourados de Dulce e levada até seu quarto para que escolhesse o que usaria em nossa festa de Ano Novo.

Da sala de nossa casa iam até o quarto reverberações de música, de risos, tilintar de copos, a borbulha do espumante e vozes que costuravam uma trama de esperança e bons votos entre si.Da cozinha chegavam cheiros que avivavam o prazer de comer e a fome; do quintal, quem se agitava eram as folhas bailando com o vento passando suave, unindo tudo em movimentos livres em uma noite com o frescor da brisa. Da rua, vinham os sons de anfitriões recebendo amigos no portão e de carros partindo para outras festas. Envolta por todos esses sentidos, eu me sentia convidada pelos humanos para participar da atmosfera amável que eles criavam naquela noite,afinal, eu também estivera no ano que se encerrava e tinha sonhos para o momento que se iniciava.

Escolhi um grande laço amarelo para prender minha franja. Dizem que usar amarelo na virada do ano traz fortuna, fartura é mais do que ter coisas materiais. É sorte, sofisticação. Escolhi um laço amarelo porque desejava riqueza e prosperidade, no sentido de viver muito e muito bem, no sentido de inaugurar um futuro favorável e feliz.

Ainda estávamos no quarto quando algo estourou minha alegria, senti uma explosão que colou minhas pálpebras com o peso do medo. No escuro dos olhos tensos e fechados, perdi qualquer condição de enfrentar o que produzia tremenda explosão, fiquei encerrada num lugar dentro de mim onde só havia pânico, insegurança e tremor. Aquele foi o maior barulho que já ouvi, maior do que os latidos de um cão feroz e mais terrível que a maldade de quem, por exemplo, prende um cãozinho em uma reduzida peça de luz, aos gritos ensurdecedores, a fim de acuar os pobres bichinhos.

Eu não sabia o que estava acontecendo e o único sentido que conseguia compreender de tudo o que me aterrorizava era o de que meu acesso à minha própria coragem estava interditado pelos sons consecutivos de algo incompreensível, maior que nossa casa, maior.

Eu tremia e Dulce tentava me acalmar, mas as explosões me afetavam tal modo que, eu não conseguia sequer perceber sua presença ou entender em que direção Dulce estava. Eu chorava, mas não escutava minha própria voz. Tentava resgatar onde me encontrava e o que acontecera um segundo antes da explosão, mas tudo se desfazia nos meus sentidos estraçalhados por aquelas bombas de som.

Desesperada, Dulce me pôs em seu colo, meu lugar preferido neste mundo, porém, eu continuava desconectada da realidade que havia para além de meus olhos fechados, calados pelo desespero para me protegerem de algo que parecia capaz de rasgar minha pele e me ferir por dentro.

Demorei muito tempo naquela condição, às vezes, eu achava que meu coração não aguentaria. Meu corpo estava fragmentado, as pontas de meus pelos atiçavam minha sensibilidade e eu me lembrava das folhas das árvores arrancadas dos galhos durante as tempestades de trovões: Será que eram trovões? Caía algo sobre nós? Por que eu não conseguia acomodar meu coração com o toque macio da presença de Dulce? Nem um segundo Dulce se afastou de mim, ainda que eu estivesse longe, em companhia do pavor, num lugar arrepiante, onde eu mesma não desejava que ela estivesse, para protegê-la.

Ouvi latidos de outros cães tão assustados quanto eu, aos poucos permitiu que eu me localizasse na realidade novamente. Ouvindo outros animais, pude entender que, fosse lá o que estivesse acontecendo, não era loucura minha, não era contra mim especificamente, meus amigos cachorros também reclamavam a paz que todos, humanos e bichos, merecem nas noites, nas festas, na vida, todos os dias.

Percebi que os convidados de nossa festa entravam no quarto de Dulce e experimentei um cobertor de abraços proporcionando o calor de que eu precisava para me recuperar.

Ao me acalmar, me dei conta de que formávamos uma rede de abraços e mãos cuidadosos, enlaçando meu pequeno corpo à calma, ao conforto, ao amparo. Assim ficamos por algum tempo, assim nos despedimos de um ano passado e saudamos o novo.

HannyNum dia de extremo calor eu me refrescava confortável sob o ar condicionado e decidia o próximo: vou ao banheiro e salto tocando a torneira até a água correr do chuveiro ou jogo o meu charme irresistível para a Dulce me servir água com bastante gelo? Não conseguia me decidir por qual delícia refrescante começar, quando Dulce me chamou em seu quarto.

Minha querida humana esperava-me com seu computador no chão, fiquei sentada ao seu lado. Ela pediu que eu me posicionasse entre ela e o computador, achei que queria mostrar a mim, no YouTube, uma nova moda para os cães mais exóticos e de bom trato, mas ela pôs uma música para tocar.

A canção tinha delicados sinos que badalavam agudos, fininhos, corporificando uma musiquinha que inicialmente parecia boba, como muitas canções podem ser, contudo, demasiado repetida, os sininhos ficavam chatos, levemente irritantes. Dulce sorria para mim e eu não fazia a mínima ideia de razão por que estávamos ela e eu curtindo uma música enjoada, que parecia não terminar antes que o ano virasse, dali a três meses.

Não quis reclamar do som à Dulce, vai que aqueles sinos fossem a arte de um amigo, de alguém querido dela. Como boa companhia, eu era, fiz de conta que era interessantíssimo o blém-blém-blém-plim-plim-plim daqueles instrumentos de fina parede de metal. Achei foi muito bom quando a sessão de conhecer novas canções terminou e voltei à escolha: chuveiro ou água com gelo para refrescar?

No dia seguinte, à mesma hora, quando anoitecia Dulce me chamou novamente e a encontrei na mesma posição, em seu quarto. Desta vez, havia uma espuma para eu me acomodar e Dulce parecia ter entrado para uma nova tribo urbana, a dos fãs de bandas de sinos pois ela deu o play numa orquestração de sinos tocados com menos cerimônia que os do dia anterior, mais altos e claros. Lá pelas tantas, não aguentei, saí do quarto e me fiz de distraída. No entanto, Dulce insistiu a fim de que eu ficasse. Ela sabia que eu não estava achando graça nenhuma naqueles concertos de sinos, mas queria muito que eu os escutasse.

Assim passamos o mês, com sessões diárias de sinfonia de sinos ao anoitecer. Eu sem entender nada, mas presente por conta do sorriso enternecedor de Dulce.

No segundo mês, por alguma razão, ela trocou as bandas de sinetas pelos sons de tempestades. Durante a execução desses vídeos havia barulho de trovão, do qual tenho verdadeiro pavor, contudo, o fato de eu entender de onde vinham e como ocorriam me impedia de me perder no medo. A verdade é que aquelas sessões de musicalidade esquisita estavam ficando tão previsíveis, que eu já nem me assustava pela reverberação do até então temível som do trovão. Ao fim daquele novembro, eu já estava achando um tédio ouvi-los.

Tudo ficou ainda mais curioso quando, no terceiro mês de músicas esquisitas de minha sempre surpreendente e criativa Dulce, ouvi um som cuja origem eu não identificava, algo breve e forte, um estrondo ruidoso sobre o qual eu não adivinhava a serventia, nem se eu já tinha ouvido um dia.

No começo das audições deste terceiro tipo de esquisita canção, fosse lá quem tocasse aquele movimento que crescia muito rápido esta pessoa cuidava para acioná-lo baixo, suave, até que sua intensidade ia crescendo, o que era acompanhado pela ternura de Dulce, que brincava comigo e me dava biscoitos pedindo para eu não latir contra os extravagantes músicos, que eram péssimos na execução daquele som de muito pouca musicalidade, isto sim.

Um dia, eu o reconheci: as explosões que quase tinham me enlouquecido naquela mesma época do ano anterior, quando a mim  pareceu que os humanos me excluíram de uma festa da qual eu tinha direito de participar, como todo ser vivo cujo corpo reconhece os ciclos do tempo.

Então, Dulce falou calmamente:

"Hanny, estas são explosões de fogos de artifício, perceba que, por mais enérgicas que elas soem, não a machucarão, nem a mim, pois ocorrem muito longe de todos nós, em lugares seguros. Não quero mais que você sofra sem necessidade toda vez que as pessoas decidirem usar os fogos, até porque estes são momentos festivos e quero que deles você participe com a mesma alegria que os humanos".

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