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Comportamento

Cães com deficiência formam "gangue de rodinhas" na casa da veterinária

Aline Hrada transformou o lar em abrigo para 3 pets especiais e ainda pensa em adotar mais

Por Amanda Santos | 30/07/2026 06:20
Cães com deficiência formam "gangue de rodinhas" na casa da veterinária
Shake pronto para correr no quintal com sua cadeira de rodinhas. (Foto: Amanda Santos)

Na casa da médica veterinária Aline Hrada, de 45 anos, a rotina é movimentada. Entre latidos, cadeiras de rodas adaptadas e brinquedos espalhados pela sala, dez cães dividem o espaço e a atenção da tutora. Três deles têm deficiência física e encontraram ali cuidados especializados e também um lar.

RESUMO

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A veterinária Aline Hrada, de 45 anos, vive com dez cães, três deles com deficiência física, e organiza toda a sua rotina em função dos animais. Shake e Pipoca usam cadeiras de rodas após atropelamentos, enquanto Bolt, tetraplégico por sequelas de cinomose, realiza fisioterapia semanal. Juntos, os três consomem cerca de 12 fraldas por dia e exigem cuidados constantes, que Aline divide com o marido.

A dinâmica da família aparece logo nos primeiros minutos de conversa. Enquanto Aline fala, Pipoca disputa seu colo, Shake acompanha cada passo da dona, Bolt faz fisioterapia sob seu olhar atento e Jade, uma bulldogue francesa que passa boa parte dos dias na residência, circula entre os outros cães como se também fosse moradora. Entre um latido e outro, pequenas disputas por carinho revelam a convivência de uma verdadeira "gangue de rodinhas".

Cães com deficiência formam "gangue de rodinhas" na casa da veterinária
Jade, Shake e Pipoca fazem parte da família de cães especiais na casa de Aline. (Foto: Amanda Santos)

Foi esse ambiente que Aline escolheu construir. A rotina é organizada em função dos animais. Antes de sair para atender pacientes, ela alimenta os cães, administra medicamentos e faz a primeira troca de fraldas dos que precisam. No horário do almoço, volta para repetir tudo. No fim da tarde, outra rodada de cuidados. Antes de dormir, mais uma vez.

À noite, todos dormem em seus cantinhos dentro do quarto da veterinária. "Eu organizo toda a minha vida em função deles", resume.

Apesar da profissão, ela admite que perde completamente a postura técnica quando o assunto são os próprios cães. "Eu brinco com todo mundo que eu não sou veterinária, eu sou a mãe deles. Quando são os meus, eu levo para outro veterinário e falo: 'Pelo amor de Deus, me diz o que eu faço'", conta.

Cães com deficiência formam "gangue de rodinhas" na casa da veterinária
Alguns deles utilizam a cadeirinha de rodas para poder correr. (Foto: Victória Costacurta)

A ligação com os animais começou ainda na infância. Cresceu em uma família que sempre teve cachorros, mas, curiosamente, nunca sonhou em ser veterinária. Na juventude, queria cursar Medicina. Chegou a atuar como voluntária em uma ambulância, mas desistiu da ideia depois de presenciar um grave acidente de moto.

Sem rumo, iniciou a faculdade de Biologia, mas também percebeu que aquele não era o caminho. Foi somente aos 34 anos que decidiu começar Medicina Veterinária.

"Quando a gente entra mais velho, entra com outro propósito. Eu já não podia perder tempo. No primeiro semestre já fazia estágio, procurava cursos e queria aprender tudo", relembra.

A paixão pelos animais com deficiência surgiu durante esse período. Ainda na faculdade, ela adotou Neymar, um cão que havia ficado paraplégico depois de sofrer uma agressão. Como a antiga tutora não tinha condições de cuidar dele, Aline assumiu a responsabilidade e aproveitou a estrutura da universidade para aprender tudo o que pudesse sobre reabilitação.

Na época, criou um perfil nas redes sociais para mostrar que um animal com deficiência podia viver normalmente. "Eu queria mostrar que não precisava fazer eutanásia porque ele tinha perdido os movimentos. É igual ao ser humano. Não precisa descartar", afirma.

Neymar viveu pouco mais de 3 anos ao lado dela, mas foi suficiente para mudar sua forma de enxergar esses animais. Anos depois, já formada, Aline trabalhava em uma clínica veterinária quando conheceu Shake, Pipoca, Bolt e outros cães especiais resgatados por uma ONG (organização não governamental). Eles viviam na clínica, recebiam alimentação, medicamentos e todos os cuidados necessários, mas ainda não era a mesma coisa que ter um lar.

Cães com deficiência formam "gangue de rodinhas" na casa da veterinária
Rozana, dona de Jade; Priscila, fisioterapeuta do Bolt e Aline, dona dos cães. (Foto: Victória Costacurta))

Nos fins de semana, ela começou a levá-los para casa, e o que era para ser temporário acabou se tornando definitivo. "Eu não conseguia escolher um só. Meu coração não ia ficar em paz se eu levasse um e deixasse os outros. Eles eram muito bem cuidados, mas aquilo não era uma casa. Não era uma família", diz.

Quando deixou a clínica, levou todos com ela. Hoje, Shake e Pipoca utilizam cadeiras de rodas depois de perderem os movimentos das patas traseiras em atropelamentos. Bolt, por sua vez, é tetraplégico em decorrência das sequelas da cinomose. Eles usam fraldas diariamente, precisam de acompanhamento constante e fazem parte de uma rotina que exige dedicação praticamente integral. Só os três consomem cerca de 12 fraldas por dia.

Quem acompanha a evolução de Bolt é a médica veterinária fisioterapeuta Priscila Medina, de 30 anos. Há três anos, ela realiza sessões semanais com o cão.

Quando começou o tratamento, ele praticamente só conseguia levantar a cabeça. Hoje, já consegue se erguer, sair da cama, voltar sozinho e conquistar pequenas independências que antes pareciam impossíveis.

"Cada passinho que ele dá é uma vitória. A cinomose é uma doença muito difícil. Só o fato de ele ter sobrevivido já é uma grande conquista. Agora a gente tenta melhorar cada vez mais a qualidade de vida dele", explica.

Cães com deficiência formam "gangue de rodinhas" na casa da veterinária
Bolt tem sessão de fisioterapia uma vez por semana. (Foto: Victória Costacurta)

Segundo Priscila, o objetivo da fisioterapia não é apenas recuperar movimentos, mas oferecer autonomia e conforto. Os exercícios fortalecem a musculatura, melhoram o equilíbrio e ajudam Bolt a enfrentar situações simples do cotidiano, como caminhar por pisos lisos ou subir novamente na cama.

A casa de Aline também costuma receber outros hóspedes. Jade, uma bulldogue francesa, passa boa parte dos dias ali porque sua tutora confia na veterinária para cuidar dela. Para Aline, é mais um membro da família.

Cães com deficiência formam "gangue de rodinhas" na casa da veterinária
Jade é "filha" da Rozana, mas prefere ficar na casa de Aline com os outros animais. (Foto: Amanda Santos)

Ao longo dos anos, ela chegou a dividir a casa com 18 cães ao mesmo tempo. Hoje, tenta controlar o impulso de aumentar ainda mais a família.

"Eu me esforço muito para não sair catando mais bichos. Principalmente os velhinhos. Tenho vontade de trazer todos para casa, mas preciso pensar nos que já estão aqui", diz.

Ao lado do marido, com quem é casada há seis anos, Aline construiu uma rotina completamente voltada aos animais. Ela conta que nunca escondeu de quem estivesse ao seu lado o tamanho dessa paixão. No início, eram os quatro cães com deficiência que passaram a viver definitivamente na casa, e a reação dele foi exatamente a que ela esperava.

"Ele já imaginava que alguma coisa assim ia acontecer. Eu já levava eles para passar fim de semana em casa, então sabia que eu não conseguiria deixá-los para trás", relembra.

O 4º animal, Toddynho, acabou falecendo após complicações causadas pela ingestão acidental de uma gaze. Hoje, Shake, Pipoca e Bolt seguem ocupando um espaço especial no coração, e na casa da veterinária.

Embora faça questão de dizer que ama todos os dez cães da mesma forma, admite que os animais com deficiência despertam um sentimento diferente.

"Mesmo nos perrengues, eles preenchem a minha vida. Se eu precisasse ficar sem eles, acho que minha vida já não teria o mesmo sentido. Eu não abriria mão deles por nada", finaliza.

Cães com deficiência formam "gangue de rodinhas" na casa da veterinária
Ela conta que nunca escondeu de quem estivesse ao seu lado o tamanho dessa paixão. (Foto: Victória Costacurta)


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