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Comportamento

Pela 1ª vez, sobrevivente da Bruxa da Sapolândia conta que sofreu tortura

Aos 9 anos, Luzibete morou na casa de Célia de Souza e carrega até hoje marcas do trauma

Por Clayton Neves | 30/07/2026 06:30
Pela 1ª vez, sobrevivente da Bruxa da Sapolândia conta que sofreu tortura
Luzibete Larson dos Santos tem de 63 anos e morou em Célia quando tinha 9 anos. (Foto: Clayton Neves)

Mais de cinco décadas após um dos casos policiais mais emblemáticos de Campo Grande, uma das crianças que viveu na casa da mulher conhecida como "Bruxa da Sapolândia" decidiu contar, pela primeira vez, o que diz ter vivido naquele período. Filha de Bertolino Larson e Luzia Fernandes, casal citado no processo de 1969, Luzibete Larson dos Santos, hoje com 63 anos, afirma que a mãe foi torturada por Célia de Souza e que ela e os irmãos sofreram fome e maus-tratos.

A história ficou conhecida pelas lendas sobre a casa da Rua Dracena, onde, em 1969, denúncias de maus-tratos e a descoberta de crianças enterradas transformaram Célia de Souza na figura que atravessou gerações como a "Bruxa da Sapolândia". Para Luzibete, no entanto, o que costuma ser contado como lenda é uma lembrança que, segundo ela, nunca deixou de existir.

Ela diz que viveu na casa de Célia quando tinha 9 anos. “Eu falo, mas parece que ainda estou lá, sabe? Passando por aquilo”, descreve.

O caso ganhou repercussão em 1969 e foi registrado em processo criminal. Os documentos relatam acusações de fome, espancamentos, maus-tratos e práticas religiosas contra Célia e outras pessoas que viviam na residência. Entre as crianças encontradas enterradas estava Jesus Aparecido Larson, de 3 anos, irmão de Luzibete.

Pela 1ª vez, sobrevivente da Bruxa da Sapolândia conta que sofreu tortura
Apelidada de bruxa, Célia aparece ao lado de cova rasa no quintal de casa.

No entanto, para ela a história não pode ser reduzida à lenda que se formou ao redor da antiga casa. Ela ainda comenta versões que tratam Célia como vítima. “Ela nunca foi uma vítima. A vítima fomos nós que moramos com ela. As crianças que ela matou, os pais que ela maltratou, as mães que ela torturava, cortava, machucava e não dava comida”, afirma.

Promessa de trabalho - Segundo Luzibete, a família chegou à casa depois de Célia ter prometido contratar seus pais e pagar pelo trabalho deles. A proposta parecia uma oportunidade para a família, mas, conforme o relato, a realidade foi diferente.

“Ela falou para meu pai e minha mãe que ia arrumar um trabalho, que ia pagar bem para eles. Aí fomos morar na casa dela. Só que foi tudo ao contrário. Ela nunca deu um centavo para ninguém”, conta.

A fome é uma das lembranças fortes da infância. Luzibete diz que, em alguns dias, a família fazia apenas uma refeição e comia arroz puro. “Quando matava uma galinha, a gente achava que ia comer. Mas ela fazia a gente comer as tripas da galinha. E tinha que comer, senão ela maltratava muito”, relata.

Pela 1ª vez, sobrevivente da Bruxa da Sapolândia conta que sofreu tortura
Na rua Dracena, casa da bruxa é atração para curiosos. (Foto: Marcelo Victor)

A alimentação precária também aparece nos documentos do processo. Um dos depoimentos reunidos à época menciona que as pessoas recebiam folhas de cenoura e feijão carunchado e eram obrigadas a comer penas e tripas quando uma galinha era abatida.

Luzibete lembra que o pai tentava esconder pequenas quantidades de comida para alimentar os filhos. “Às vezes meu pai saía para dar uma voltinha e chegava com algumas bolachinhas no bolso. Chamava eu e meu irmão atrás da casa e dava para a gente comer escondido. A gente comia rapidão e voltava”, pontua.

“O chão e a parede estavam cheios de sangue”

A fome também não era o único sofrimento. Luzibete conta que a mãe, Luzia Fernandes, era levada para um cômodo que Célia chamava de “quarto da disciplina”. Segundo ela, as mulheres eram agredidas com violência e saíam feridas do local.

Pela 1ª vez, sobrevivente da Bruxa da Sapolândia conta que sofreu tortura
Luzibete ao lado da família, na casa onde moram, no Jardim Carioca. (Foto: Clayton Neves)

“Minha mãe saía de lá toda ensanguentada. Uma vez, eu entrei no quarto e o chão e a parede estavam tudo puro sangue. Eu não tenho mais ela comigo. Minha mãe muito maltratada, muito judiada”, detalha enquanto chora por conta das lembranças de violência. Na época, Luzibete era apenas uma criança e diz que não tinha como ajudar. “A gente era indefeso ali. Criança não podia fazer nada”, resume.

A morte do irmão - Entre as vítimas citadas no processo está Jesus Aparecido Larson, de 3 anos, filho de Bertolino Larson e Luzia Fernandes, pais de Luzibete. Ela afirma que o menino sofria com a fome e que a mãe era impedida de alimentá-lo.

“Meu irmãozinho morreu de fome. Ela não deixava a minha mãe dar comida. Quando a criança chorava de fome, ela colocava de cabeça para baixo em um tambor de água”, relata.

Luzibete também conta que outras crianças que viviam na casa teriam sofrido maus-tratos. Segundo ela, uma menina de 7 anos morreu depois de passar fome e receber arroz com ovo cru como última refeição.

Pela 1ª vez, sobrevivente da Bruxa da Sapolândia conta que sofreu tortura
Anexado ao processo, jornal estampa caso em 12 de janeiro de 1969.

Os documentos do processo registram acusações de espancamento, fome e maus-tratos, mas a sentença publicada em 1971 absolveu Célia e os outros acusados. O juiz entendeu que não havia nexo comprovado entre as lesões e as mortes das crianças.

Depois de cerca de dois anos vivendo na casa, a família decidiu fugir. “A gente dormia igual cachorro, não tinha colchão, não tinha nada. Todo mundo dormia de fileirinha”, conta a dona de casa.

Segundo ela, em um certo dia, quando chegou a madrugada, a mãe avisou que era hora de sair. “A gente levantou pé por pé. Todo mundo descalço. Minha mãe me pegou no colo, meu pai pegou meu irmão e a gente saiu de fininho, devagarzinho”, relata.

Mas a fuga não encerrou imediatamente o medo. Segundo Luzibete, Célia foi atrás da família e tomou um dos meninos dos braços do pai, levando o menino novamente para a casa. “Ela falou: ‘Se quiser seu filho, você vai lá buscar’. Meu pai tinha medo dela e não foi”, conta.

Pela 1ª vez, sobrevivente da Bruxa da Sapolândia conta que sofreu tortura
Dona de casa é filha do casal citado em inquérito do casa Bruza da Sapolândia. (Foto: Clayton Neves)

Pouco tempo depois, a polícia chegou ao local. A denúncia foi feita por Genoveva, irmã mais velha de Luzibete. Ela trabalhava na cidade e, segundo a dona de casa, não tinha liberdade para visitar a família nem enviar dinheiro.

Foi uma irmã de Luzibete quem procurou a polícia e contou o que acontecia dentro da casa. Luzibete afirma que acompanhou parte da prisão e viu Célia e o homem que vivia com ela serem levados pelas ruas em um veículo de boi. A multidão, segundo a memória da entrevistada, queria linchar Célia e o marido.

Ela também diz ter presenciado a retirada dos restos das crianças. “Fizeram ela desenterrar os ossos, osso por osso, e colocar em um saco. Eu vi tudo”, conta.

O processo registra que a polícia encontrou duas crianças enterradas em covas rasas no quintal da residência. A retirada dos corpos foi acompanhada pela imprensa e ajudou a transformar o caso em uma das histórias mais conhecidas de Campo Grande.

Pela 1ª vez, sobrevivente da Bruxa da Sapolândia conta que sofreu tortura

Depois da prisão, Luzibete diz que nunca mais soube o que aconteceu com Célia. Há histórias de que ela e o companheiro teriam sido mortos, mas a entrevistada afirma não saber se isso realmente ocorreu. “Ninguém mais teve notícia. Não sei se é verdade, se morreram ou se ficaram vivos”, resume.

Luzibete também nunca voltou à casa, mas mantém a memória da fome, da violência contra a mãe e da perda do irmão. “Só quem viveu na pele é que sabe. Eu lembro de tudo como se fosse hoje”, finaliza.

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