Carro elétrico vira nova dor de cabeça em condomínio de Campo Grande
Sem estrutura para recarga, prédios e residenciais já enfrentam disputa por tomadas, vagas e divisão da conta
Morar em condomínio já tinha seu pacote conhecido de conflitos: barulho, vaga ocupada, pet solto, grupo de WhatsApp inflamado e festa fora de hora. Agora, uma novidade entrou na lista e promete render mais dor de cabeça nas assembleias: a recarga de carros elétricos.
RESUMO
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Morar em condomínio oferece segurança, mas cobra um preço na convivência diária. Em Campo Grande, moradores relatam conflitos com barulho, animais soltos, vagas ocupadas e regras descumpridas. No Village Parati, um dos maiores condomínios da América Latina, com 2.256 residências, queixas vão de poeira a festas. Especialista aponta que WhatsApp agrava conflitos e carros elétricos surgem como novo problema condominial.
Em Campo Grande, a chegada desses veículos aos residenciais começa a expor um problema simples, mas nada pequeno. Muitos condomínios não foram projetados para receber pontos de carregamento nas garagens, nem têm estrutura elétrica preparada para suportar a nova demanda. Resultado: o que parecia assunto de mobilidade virou discussão entre condômino e administração.
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Para o advogado Alex Garcez, especialista em direito condominial, esse é um dos conflitos mais recentes na rotina dos residenciais. “Novidade tem sido a onda de carros elétricos. Os condomínios não têm um espaço físico para instalação de tomadas ou a capacidade energética, trazendo, de certa forma, uma briga entre condômino e condomínio, pois acreditam que o condomínio deve permitir de qualquer forma”, afirma ao Campo Grande News.
O impasse, segundo ele, não está apenas na vontade do morador de instalar o carregador. A questão envolve segurança, divisão de custos, capacidade da rede interna e definição de quem paga pela energia consumida. Sem regra clara, a tomada na garagem deixa de ser conveniência e vira problema coletivo.
Em um condomínio na Rua das Garças, em Campo Grande, onde há quatro veículos elétricos, a solução encontrada foi individualizar o consumo. O funcionário Daniel Mandu, de 32 anos, diz que a instalação funciona porque cada morador tem medição própria.
“Cada um tem seu relógio, na própria garagem, mas eu aconselho puxar uma rede exclusiva para não ter sobrecarga. Cada relógio tem a marcação, eles fazem a leitura pelo aplicativo e mandam para a empresa. Aqui deu certo, pois basta saber administrar”, relata.
A fala resume o ponto central da discussão. Não basta colocar uma tomada. É preciso saber se a estrutura aguenta, como será feita a medição e quem ficará responsável pela conta. Sem isso, a recarga pode virar mais uma disputa no já congestionado território das garagens.
E garagem, aliás, já era um dos campeões de reclamação antes mesmo dos carros elétricos. Alex lembra que, em Mato Grosso do Sul, é comum o uso de caminhonetes, enquanto muitas vagas foram pensadas para veículos menores. Quando o carro passa do limite, atrapalha a circulação ou invade a área de outro morador, o conflito aparece.
“Vaga de garagem gera bastante conflito. Moradores que não estacionam de forma correta ou fora do limite. Em nosso Estado é muito comum camionetes, e as vagas de garagem, em sua maioria, são para veículos de passeio”, explica.
Outro problema é o morador que tem mais veículos do que vagas privativas. Em vez de deixar o carro do lado de fora, alguns passam a ocupar espaços de visitantes ou áreas comuns sem autorização. É aí que a convivência começa a sair do controle, geralmente com discussão no grupo de mensagens antes de chegar ao síndico.
No Village Parati, na Rua da Divisão, considerado um dos maiores condomínios de casas térreas da América Latina, com 2.256 residências e população estimada entre 6 mil e 8 mil moradores, os conflitos ainda passam pelas queixas mais tradicionais. Há reclamações sobre poeira, barulho, animais, crianças, motos e regras que nem sempre são cumpridas. O tamanho do lugar ajuda a explicar a variedade de problemas. É praticamente uma cidade murada, só que com síndico.
O aposentado Isaías José de Medeiros, de 48 anos, mora no condomínio e diz que, apesar dos problemas, ainda vê vantagem na escolha. Para ele, a segurança é o principal motivo para continuar vivendo no local. “Com questão de segurança, de você fazer uma viagem, deixar a casa. Para você chegar tarde da noite, se você precisar. Então condomínio é uma opção”, afirma.
Ele reconhece que há reclamações entre os moradores, principalmente sobre vizinhos barulhentos e festas, mas diz que, pessoalmente, não enfrentou os piores conflitos. “Eu sei que tem vizinho que é barulhento, que é problemático. Até agora, graças a Deus, eu não me deparei com essa qualidade de vizinho”, conta. Mesmo assim, avalia que “tem coisa que pode melhorar, e melhorar muito”.
A principal queixa de Isaías é externa, mas atinge diretamente a rotina dentro do residencial. Ele reclama da poeira provocada por ruas de terra próximas ao condomínio. Segundo o morador, casas e carros amanhecem cobertos de pó. “O que eu acho que falta nesse condomínio, pelo fato de a gente pagar a IPTU, é essa estrada aqui. É muita poeira”, diz.

Já o motorista Jair Santana, de 50 anos, mora há cerca de dez anos no mesmo condomínio e resume o problema de forma direta: regra existe, mas nem sempre é respeitada. “O condomínio tem regras, mas ninguém cumpre a regra do condomínio, para falar a verdade”, afirma.
Entre as reclamações dele estão animais soltos, donos que não respeitam áreas comuns, entregadores em motos barulhentas, crianças brincando em frente às casas e vizinhos que fazem barulho de madrugada. Jair diz que não é contra pets nem crianças, mas cobra limites. “Eu vim para cá para ter tranquilidade. Só que tem muitas coisas que eles colocam regra e a regra não é cumprida”, relata.
O motorista também cita situações de barulho fora de hora. Segundo ele, uma moradora vizinha discutia dentro de casa por volta das 4h, atrapalhando o descanso de quem estava próximo. Para Jair, o problema não está na existência das normas, mas na falta de aplicação igual para todos. “Se for, tem que ser para todos, não só para um”, diz.
Em outro residencial, no Bairro Rita Vieira, um morador de 35 anos, que pediu para não ser identificado, vive desde 2017 em um condomínio com 192 apartamentos, dividido em blocos. A população estimada é de 500 a 600 pessoas. Segundo ele, a principal reclamação é o barulho dentro dos apartamentos, especialmente fora do horário permitido para reformas.
No local, as obras podem ocorrer durante a semana até 17h30 e, aos sábados, até 11h30. Domingos e feriados são proibidos. Mesmo assim, ele relata problemas com “bateção” fora de hora, festas, conversas altas, crianças no parquinho em horários de descanso e até ar-condicionado barulhento. “Aparentemente, você olha de fora e vê tudo normal. Não é”, afirma.
A lista de incômodos inclui ainda pets circulando fora dos espaços adequados, tutores que não recolhem sujeira dos animais, gatos soltos subindo em carros ou entrando em apartamentos, moradores estacionando em vagas de vizinhos e conflitos domésticos que acabam mobilizando a polícia. Segundo o morador, o condomínio instalou câmeras em várias áreas e as multas ficaram mais frequentes. “A multa anda correndo solta”, resume.
Apesar das reclamações, ele demonstra certo entendimento sobre a dificuldade da gestão. “Tenho dó do síndico. Não deve ser fácil”, diz. Ainda assim, afirma que está perto de desistir da vida em condomínio. “Hoje, estou quase mudando e indo para uma casa. Só descobre esses problemas quando pegamos as chaves”, afirma.
Para Alex Garcez, os conflitos mais comuns seguem concentrados no barulho, mas ganharam novas camadas com a vida digital, o aumento do trabalho em casa, a presença de pets e a disputa por vagas de garagem. “Os barulhos são a maior parte da reclamação, seja festa ou latido dos pets. Com o avanço do digital, muitas pessoas trabalham de casa e acabam sendo atrapalhadas”, explica.
Segundo ele, festas fora do horário permitido e som alto continuam entre os clássicos da convivência difícil. Mas os animais também passaram a ocupar lugar de destaque nas reclamações. As queixas envolvem quantidade de pets, circulação em áreas comuns, animais sem guia e falta de higiene por parte de tutores que não recolhem os dejetos.
Já os grupos de WhatsApp viraram uma espécie de assembleia paralela, geralmente mais barulhenta e menos produtiva. “O digital, como grupo de WhatsApp, tirou o filtro de algumas pessoas. Por estarem seguras atrás da tela, acreditam que podem falar o que querem, pensam ainda que a internet é terra sem lei”, afirma. Ele diz que acusações e ofensas nesses espaços já têm virado ocorrência policial.
A orientação do especialista é que grupos de moradores não sejam tratados como canais oficiais do condomínio, principalmente quando não são administrados pela gestão. Para ele, o síndico deve manter um canal formal de comunicação, como e-mail, número exclusivo ou aplicativo escolhido pela administração. O grupo de vizinhos pode existir, mas não deve substituir os meios oficiais.
No fim, o condomínio continua sendo visto como alternativa para quem busca segurança, mas a rotina mostra que portaria e câmera não resolvem tudo. Do cachorro solto ao carregador de carro elétrico, o desafio é o mesmo: criar regra clara, fazer valer para todos e evitar que a vida compartilhada vire uma reunião de condomínio sem fim.
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