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Campo Grande, Sábado, 23 de Setembro de 2017

09/09/2017 07:05

Com diploma e sem planos, engenheira recém-formada curou depressão na roça

Mariana Lopes
Na fazenda dos pais, onde passou 365 dias afastada de tudo e de todos (Foto: arquivo pessoal)Na fazenda dos pais, onde passou 365 dias afastada de tudo e de todos (Foto: arquivo pessoal)

Concluir os estudos com o diploma de um curso superior em mãos e, em seguida, se posicionar no mercado de trabalho é um ciclo que pode ser, para muitos, um dos períodos mais conflitantes da vida. No Voz da Experiência de hoje, o Lado B conta a história da engenheira ambiental Marta Brito, que enfrentou uma profunda depressão quando se deparou com o fim da faculdade e sem planos concretos para o futuro que estava tão presente e diante dela. A vida adulta lhe exigia uma resposta, e ela, sem saber o que fazer, buscou refúgio na roça, onde ficou por um ano e de onde tirou forças para recomeçar.

"Eu me chamo Marta, tenho 34 anos, nascida e criada em Campo Grande, hoje moro em Jandaia, no interior de Goiás, e trabalho com muito orgulho e amor na área do saneamento e meio ambiente.

Entrei para a faculdade no curso de Engenharia Sanitária e Ambiental. Para muitos, entrar numa faculdade é a realização de um sonho, pra mim era uma novidade boa, porém, confusa. Eu não conhecia a atuação profissional que eu estava escolhendo – não havia encanto, apenas novidades, muita dificuldade com os cálculos e uma coleção de DP até alcançar o diploma.

E foi a partir daí, com o diploma em mãos, quando a vida me exigia o posicionamento firme e maduro para seguir meu caminho com o sucesso planejado, que me deu pane. No início deste caminho, algo deu errado. Eu simplesmente não sabia como caminhar, era uma sensação de pés e mãos atados.

Não havia tempo e nem condições financeiras para não saber o que fazer. A regra era clara: seguir o caminho, de um jeito ou de outro. Mas eu infringi a regra!

Havia uma pedra no meio do caminho, mais especificamente na vesícula – ela estourou e, às pressas, fiz a cirurgia. Era dezembro de 2009, o médico me pediu um repouso de 40 dias. Aproveitei o meu surto e estendi o repouso para 365 dias.

Surgiu, então, o marco que dividiu a minha linha do tempo: o que eu fui, até dezembro de 2009, e o que me tornei, após dezembro de 2010.

Minha família é toda do interior, meus pais são de Sidrolândia, nossa cultura e sustento, sempre foi rural, lá da roça.

E foi lá na roça dos meus pais, em Aquidauana – uma região toda abraçada por serras de um verde preservado e isolado, na época, nem sinal de celular havia . Foi neste lugar, cuja companhia única era a dos meus pais, que eu me retirei e fiz o meu repouso. Meu silêncio necessário.

Amigos e familiares não entendiam o que uma jovem recém formada estava fazendo parada e sem planos para o futuro, apenas estava lá. Até meus pais ficaram numa situação desconfortável.

Em Jandaia, logo que Marta assumiu o concurso (Foto: arquivo pessoal)Em Jandaia, logo que Marta assumiu o concurso (Foto: arquivo pessoal)

Nos primeiros seis meses, o desconforto deles foi ainda maior, pois eu apenas dormia e chorava, quase não saia do quarto. E eu não sabia o porquê daquele sofrimento, eu não conseguia identificar. Meu pai cogitava a possibilidade de me levar para a cidade, ver se era caso de ir ao médico pra tentar me ajudar. E eu pedi para que ele e minha mãe me deixassem ficar ali, eu precisava ficar ali.

Mesmo sem entender o que estava acontecendo comigo, eu sabia que não ia ser pra sempre, em algum momento as coisas iam ficar claras dentro de mim. Eu não queria morrer, pelo contrário, minha angústia estava em querer viver, mas naquele momento eu não conseguia administrar a minha inquietude.

Por várias vezes, eu saia do quarto e me deparava com a minha mãe com o terço nas mãos, rezando por mim. Ela teve muita paciência comigo, até mesmo nos momentos em que eu a tratava com grosseria. Foram muitas, as madrugadas em que ela se levantava e ia até mim, confortar o meu choro e angústia.

Depois de algum tempo, fui saindo do quarto e me permitindo conversar com meus pais, principalmente com o meu pai. Mesmo sendo difícil pra ele aquela situação, ele conseguia, na maioria das vezes, colocar humor e me dizer palavras positivas.

Eu passei a fazer caminhadas com o nosso cachorro, depois adquiri a função de apartar as vacas e me interessei por horta. Aos poucos, chorar não era mais a minha rotina e tentar entender o porquê de eu estar ali também deixou de ser importante.

Eu não estava preocupada com as opiniões das pessoas, que supostamente não entendiam a minha situação. Eu não tinha nenhum plano para o futuro, e isto deixou de ser problema pra mim.
Eu estava respirando a minha dor com leveza, deixando o silêncio conversar comigo. Fui adquirindo humor e serenidade.

Em dezembro de 2010, livre dos pensamentos e sentimentos turbulentos, resolvi iniciar o ano de 2011 com um objetivo novo.

Eu sabia que aquele meu tempo parada havia me deixado sem competitividade no mercado de trabalho, além do mais, eu não tinha experiência alguma. E eu não tinha condições financeiras de fazer uma especialização ou algum outro curso de qualificação profissional. Logo, concurso público,foi a minha decisão.

Com uma rotina disciplinada de estudos, comecei do zero. Foram três anos intensos, percorrendo vários lugares fazendo provas. Alguns concursos aprovados, porém, só em 2014, fui convocada para assumir a vaga, cujo cargo estou até hoje.

Em julho de 2015, na minha viagem de férias, retorno à roça, com o coração agradecido, e na companhia dos meus pais, que estavam alegres pela minha retomada.

Aprendi que, se preciso for, eu irei parar – não há nada de errado em não corresponder aos padrões injustamente imposto. Aprendi que silenciar não é sinônimo de fraqueza, mas de humildade e generosidade consigo mesmo. E que a vida é muito mais bonita quando se é olhada de perto, de dentro, com verdade e amor".




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