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Campo Grande, Domingo, 19 de Maio de 2019

24/04/2019 08:15

Da quebrada a Barcelona, Cícero passou poucas e boas até aprender a viver

O artista plástico e tatuador garante que a arte salvou sua vida e o poder da amizade o tornou o profissional de hoje

Danielle Valentim
Chegada da paternidade aos 20 anos foi um choque de realidade para que Cícero despertasse para a vida. (Foto: Marina Pacheco)Chegada da paternidade aos 20 anos foi um choque de realidade para que Cícero despertasse para a vida. (Foto: Marina Pacheco)

“Não precisa planejar. Eu sempre berrei, mas um dia aprendi a me ouvir”. Foi ainda no Ensino Médio, que o artista plástico e tatuador Cícero Rodrigues, hoje aos 33 anos, se viu predestinado ao mundo das drogas e até mesmo à morte, por uma série de fatores. Negro, morador da periferia de Campo Grande e rodeado do que chamam por aí de más influências, Cisco seguia sem perspectiva de futuro até a chegada da paternidade: notícia que o levou à arte e, em seguida, à Barcelona.

Mas nada foi tão fácil como parece e a história começa lá na infância. Os pais de Cícero trabalhavam o dia todo e, por essa razão, o campinho do bairro era um dos seus points no contra turno da escola. O problema surgiu no ensino médio, quando “vida fácil” e “novas sensações” eram oferecidas de bandeja.

Cultura da tatuagem na segunda maior cidade da Espanha é totalmente diferente do Brasil. (Foto: Arquivo Pessoal)Cultura da tatuagem na segunda maior cidade da Espanha é totalmente diferente do Brasil. (Foto: Arquivo Pessoal)

“A criança que só estuda meio período faz o que no resto do dia? Fica na rua. Às vezes os pais nem sabem. Talvez minha mãe não saiba. Sendo um neguinho de quebrada foi muito difícil sair do ensino médio. Nesta fase a gente acaba se envolvendo com muitas coisas estranhas, nos apresentam coisas sinistras. Eu estacionei por um bom tempo e depois do terceiro ano fiquei uns cinco anos fora da sala de aula. Mas acredito que faltava diálogo naquela época. Hoje converso sobre tudo com meu filho e de forma aberta, mostro a realidade que passa no jornal”, conta.

A chegada da paternidade aos 20 anos foi um choque de realidade. A notícia de certa forma impediu descida ladeira a baixo e mudou o fim da história de Cisco. “Minha ex-mulher engravidou do meu filho e eu quis voltar a estudar. Pensei logo em Artes Visuais, pois sempre gostei de desenhar e queria aprender mais e ver o direcionamento que teria minha vida”, relata.

Cícero garante que a arte salvou sua vida e que se tornou o profissional de hoje pelo poder da amizade, força de vontade e por ouvir a si mesmo. Apesar de ter iniciado a faculdade em 2008, um grupo de amigas em 2009 fez Cícero concluir o curso. Emocionado, ele lembra que graças às pessoas que conheceu conseguiu se formar, pois sem elas talvez jubilasse. Foi durante a graduação que o tatuador conheceu a atual esposa, que é espanhola.

“Nos primeiros três anos de vida do meu primeiro filho as coisas foram bem difíceis. Mas encontrei as artes visuais, as linguagens, formas de se expressar. Poderia nem estar aqui. Perdi amigos durante esses anos, amigos próximos que davam o mesmo rolê sinistro do ensino médio e que morreram. A arte me salvou”, conta.

Da infância à vida adulta, Cisco nunca se viu morando em outro país. Pelo contrário. Assim que voltou a estudar a única pretensão era se formar em Campo Grande e se mudar para cidades cada vez menores até viver completamente no mato. “Nunca quis ir embora. Mas depois que conheci minha esposa e assim que tivemos a Frida, ela deu a ideia de irmos embora para oferecermos uma experiência diferente para nossos filhos, já que tudo lá funciona muito bem, da saúde à educação”, disse.

A mudança - Cícero lembra que a adaptação começou assim que pisou em Barcelona. Além da língua diferente, a cultura da tatuagem na segunda maior cidade da Espanha é totalmente diferente do Brasil.

“Tive sorte dos meus sogros prepararem nossa ida, cheguei lá com entrevista de emprego encaminhada em um estúdio de tatuagem. Mas o preconceito contra sul-americanos ainda é grande. Mesmo assim, me desenvolvi e encontrei meu estilo, que é o Aquarela, as tatuagens coloridas, com combinações de cores. A cultura da tatuagem é outra, o país tem leis, normativas, escolas de tatuagem e, a partir de 2011, para começar a trabalhar passaram a cobrar o curso técnico de tatuagem. Então, quando cheguei em 2014 tive de provar que trabalhava desde 2008, para conseguir um certificado”, conta Cisco.

Família reunida. (Foto: Arquivo Pessoal)Família reunida. (Foto: Arquivo Pessoal)

Apesar da cobrança de curso técnico de tatuagem, de higiene sanitária e de primeiros socorros, os clientes dão liberdade de criação ao artista. “Lá os clientes também são muito mais artísticos. Ele chega e te fala a ideia e depois volta para ver o desenho, diferente do Brasil que o cliente chega pedindo desenho específico”, pontua.

Em princípio, Cícero trabalhou em Barcelona, mas logo depois passou a trabalhar na cidade onde morava, Vilanova i la Geltrú, pois perdia três horas dentro de um trem. Depois de dois anos na cidade espanhola, Cícero e família vieram passar férias no Brasil e apesar de matar a saudade dos amigos e familiares, o tatuador passou por um período de depressão com a segunda despedida.

“A gente chega aqui e tem uma falsa ilusão de que as coisas mudaram e, por isso, quando voltei para a Espanha chorava o dia todo. Minha esposa também estava decidida de que não voltaríamos mais ao Brasil e isso me deixava pior. Ela, então, passou a me incentivar a fazer minha vida na Espanha e fui levantando novamente. Mas aí teve uma reviravolta, assim que consegui alguns trabalhos na Alemanha com um estúdio de tatuagem ela sugeriu que voltássemos. Eu não queria naquele momento, mas após votação em casa todos toparam e retornamos em 2018”, conta.

Festival na Alemanha. (Foto: Marina Pacheco)Festival na Alemanha. (Foto: Marina Pacheco)
Troféu conquistado na Alemanha. (Foto: Marina Pacheco)Troféu conquistado na Alemanha. (Foto: Marina Pacheco)

Novamente em Campo Grande após temporada de quatro anos fora, Cícero trouxe na mala não só troféus de festivais na Alemanha, mas tudo que desenvolveu e foi moldado na Espanha.

“Aqui em Campo Grande a gente vai se aperfeiçoando até conseguir ter ou trabalhar em um lugar conhecido. E era onde eu estava. Era o estúdio que eu trabalhava, com tatuadores antigos. Eu tinha chegado ao conhecimento dos caras daqui. Mas chegando lá, conheci muitas outras técnicas, muitos materiais, me aperfeiçoei, encontrei meu estilo e ganhei vários troféus. Os brasileiros são muito bons lá, fazem muito barulho”, frisa.

O artista plástico aprendeu que para se viver a vida é preciso saber ouvir a si mesmo. “Tem que estar relaxado, tem que seguir dentro de sua capacidade. Não planeje. Eu achava que ia virar agricultor da floresta encantada e fui parar em Barcelona. Aprendi a me escutar. Eu berrava, mas não me escutava. Virava as costas para mim mesmo e me perdia. Agora paro e penso: o que isso acarreta? Vamos seguindo o ciclo. Vamos ver o que vai virar”, finaliza Cícero.

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