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Campo Grande, Quarta-feira, 22 de Maio de 2019

02/04/2019 09:00

Desolinda fugiu para não ser freira e hoje aprende violão para continuar feliz

Com a arte na veia desde a infância, a gaúcha conta que só a música foi capaz de trazer cura à enfermidade

Danielle Valentim
Nem tinha vontade de casar, meu sonho era viver da música, diz. (Foto: Kísie Ainoã)"Nem tinha vontade de casar, meu sonho era viver da música", diz. (Foto: Kísie Ainoã)

Parece rebeldia, mas algo além da vocação religiosa pulsava nas veias de Desolinda desde a infância: a música. Fugir do ginásio de freiras, ainda adolescente, para seguir um sonho de viver dos palcos não foi possível. Mas foi exatamente, a harmonia das notas em aulas de violão que salvaram a gaúcha da depressão na terceira idade.

Em meados de 1950, a cidade de Gramado-RS disponibilizava educação gratuita somente até a 4ª série. Depois disso, famílias que tinham condições pagavam professores particulares ou mandavam seus filhos para estudar fora.

“Naquela época tínhamos que subir oito quilômetros na serra para poder estudar. Estudei até as quarta série, porque a quinta, os pais tinham que pagar. Quem tinha condições mandava o filho para escola, quem não tinha usava os filhos na roça. Eu trabalhei muito na roça, desde os 6 anos”, conta Desolinda.

Sem dinheiro, o único destino para Desolinda Borges de Oliveira seria o trabalho na roça, mas seu pai conseguiu uma vaga em um ginásio de freiras. Segundo ela, a época mais sofrida que passou.

“Ali eu sofri. Eu tinha que trabalhar mais ainda e eu era uma criança de 11 anos. Tinha que levantar de madrugada para recolher as frutas que caíam do pé, mas era muito frio. Lá também aprendi a bordar”, conta.

Despedida da unidade aconteceu na véspera de natal de 1953. (Foto: Kísie Ainoã)Despedida da unidade aconteceu na véspera de natal de 1953. (Foto: Kísie Ainoã)

Fuga da escola de freiras – O ginásio das freiras ficava longe da casa de Desolinda, mas ao fim do primeiro ano de internação decidiu deixar o lugar. A despedida da unidade aconteceu na véspera de natal de 1953, quando na oportunidade, o pai entregava frutas em uma quitanda próximo ao ginásio.

“Pensei: É hoje que vou fugir daqui. Enquanto meu pai descarregava caixas joguei minha mala na carroça e fiquei esperando. Quando meu pai me viu perguntou o que eu fazia ali e eu respondi que tinha ido comprar frutas. Ele perguntou da mala e para convencer falei da saudade que estava de casa, da minha mãe e dos meus 10 irmãos”, conta.

O primeiro juramento para ser freira já havia sido feito no ginásio. O segundo aconteceria em São Paulo, mas a vontade de ir embora se reforçou depois de boatos de alunas mais velhas no ginásio.

“As alunas mais velhas falavam para a gente que era bobinha, da roça, não ir à São Paulo. Elas diziam: Você vai à São Paulo? Eu respondia que não sabia. Elas diziam que só estavam ali pelo estudo, porque no ginásio em São Paulo, as irmãs viraram mulher de padre. E eu não queria ser mulher de padre, fiquei com aquele trauma”, disse.

Com exatidão, Desolinda conta que chegou em casa numa sexta-feira véspera de natal e que no domingo teve o primeiro contado com a música, aos 12 anos, duramente um aniversário. Ela revela que apesar da pouca idade, já era alta e até recebeu convite para dançar do dono da festa.

“Era uma matine, a festa era à tarde e o aniversariante – recém chegado do Exército - pediu a meu pai para dançar comigo propondo me ensinar a dançar. Eu fiquei envergonhada, mas dancei todas as músicas. Enquanto dançava e ouvia aquela música, vi que era uma coisa boa e decidi não mais voltar ao ginásio”, disse.

Castigo - No início de ano, o padre e duas freiras foram até a casa de Desolinda com um Jipe, mas ela se escondeu na roça, até eles irem embora. Ela revela que por ter feito isso foi surrada pelo pai e como castigo por não querer ser freira, sua função, a partir daquele momento, foi o de cortar cana, já que a família também produzia pinga em alambiques.

“Eu me tornei um peão do meu pai. Minha irmã mais velha se casou aos 16 anos e minha irmã mais nova se tornou costureira”, conta.

Como sempre gostou de cantar, a gaúcha conta que vivia assoviando na roça e teve o segundo contato com a música, com a chegada de um primo.

“Certa vez um primo de segundo grau da minha mãe veio de Chapecó e trouxe uma sanfona. Meu pai acabou comprando o instrumento e ele acabou casando-se com minha irmã mais velha. Um tio, irmão da minha mãe, ensinou a mim e ao meu irmão mais velho tocar. Ele era o melhor sanfoneiro da região”, disse.

Desolinda aprendeu a tocar, quase que de forma auditada, e aos 17 anos, se juntou com os irmãos para tocar em bailes no Paraná. Como nem tudo são flores, os planos, novamente, não seguiram e o sonho precisou ser paralisado.

“Éramos os ‘Irmãos Borges’. Tocávamos todo sábado. Mas assim que chegamos minha mais nova que era a cantora do conjunto começou a namorar e casou. Perdi minha cantora”, conta.

“Se não fosse a música não sei o que seria de mim, diz Desolinda. (Foto: Kísie Ainoã)“Se não fosse a música não sei o que seria de mim", diz Desolinda. (Foto: Kísie Ainoã)

Eu nem tinha vontade casar – A gaúcha e os outros irmãos fizeram mais alguns shows e se fixaram em Itapejara d'Oeste, perto de Pato Branco. O primeiro casamento de Desolinda aconteceu aos 32 anos, mas segundo ela, essa não era sua vontade. A união não deu certo e pela segurança, a artista teve de ir ao limite.

“Nesta época eu ainda era sanfoneira e nem tinha essa vontade. Mas não tive sorte. Namoramos cinco anos, casei no Civil, mas não ficamos nem seis meses casados. Ele saía para beber e chegava em casa querendo me bater”, disse.

A perseguição continuou mesmo após ir morar com meu irmão mais velho. “Depois de muitos escândalos e ameaças, um dia chegou pedindo alimento e minha cunhada tentou servi-lo. Ele reclamou e pediu para que eu o servisse. Assim que fui entregar o prato ele bateu a mão na louça e voou comida por toda a casa do meu irmão. Nesse dia eu dei um basta e o expulsei com um facão”, conta.

Amor à primeira vista – Mais cinco anos se passaram e, aos 37 anos, Desolinda trabalhava como garçonete em Guarapuava-PR, quando conheceu seu atual marido Agostinho. Nesta época, segundo ela, foi amor à primeira vista por parte dele.

“Eu estava triste, fazia um ano que meu pai tinha morrido e eu nem tinha tempo para pedir para rezarem uma missa. Uma colega me viu chorando e avisou a minha chefe, que assumiu a cozinha e ainda liberou mais duas colegas para me acompanharem em uma matinê. Naquele dia encontrei Agostinho e estamos dançando até hoje, já são 43 anos”, disse.

Depois do Paraná, Desolinda morou com Agostinho - que era eletricista - em Rezende-RJ. O primeiro e único filho do casal nasceu em Barra Mansa-RJ. Em 1983 se mudaram para São Paulo e em 1987 venderam todos os móveis para vir para Campo Grande, onde já moram há 33 anos.

Desolina completa 78 anos e conseguiu terminar o 9º ano por meio de EJA, oferecido em uma das salas da Igreja Nossa Senhora de Aparecida, há cerca de dez anos. Nos últimos anos, a gaúcha enfrentou depressão e encontrou cura à enfermidade durante aulas de violão.

“Se não fosse a música não sei o que seria de mim. Teve um tempo que enfrentei a depressão. As aulas me distraíram. Foi muito bom estudar também. A professora tinha o mesmo ritmo de quando eu comecei a estudar no Rio Grande do Sul”, finalizou.



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