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Campo Grande, Terça-feira, 25 de Setembro de 2018

30/01/2017 06:05

Diferente, Nicole só foi aceita pelo pai depois de quase ser assassinada

Thailla Torres
Hoje, Nicole é uma mulher realizada em ter o apoio e todo amor da família. (Foto: Arquivo Pessoal)Hoje, Nicole é uma mulher realizada em ter o apoio e todo amor da família. (Foto: Arquivo Pessoal)

De cabelos loiros e dona de um corpo invejável, aos 26 anos, hoje Nicole Torres se olha no espelho e enxerga a pessoa que sempre sonhou. Há 10 anos ela assumiu ser transexual para o mundo e a família, com quem ainda morava em Campo Grande. Mas o pai não aceitou. O acolhimento só veio quando ele viu que a filha estava no caminho da morte, em risco pelo preconceito nas ruas.

Desde a infância, Nicole nunca se viu no corpo que nasceu. Ainda que não soubesse a resposta, se enxergava como uma menina. "Eu queria ser uma Spice Girl. Mas desde pequena tive uma educação de que uma coisa era menino e outra era menina, e eu não poderia ser ela. Eu nem sabia se gostava de meninas, mas tinha certeza que queria ser uma", explica.

Nicole em Florianópolis. (Foto: Arquivo Pessoal)Nicole em Florianópolis. (Foto: Arquivo Pessoal)

Com todas as respostas em mãos. Nicole se assumiu na adolescência, mas sem o direito de usar as roupas que desejava dentro de casa. Com a ajuda das amigas, se montava para ir à balada e até usava roupa das primas para ter uma noite feliz.

"As coisas começaram a surgir quando eu ia para a balada, assitia ao concurso de Miss, admirava as drags e tudo aquilo era meu sonho. Comecei a me montar, mas toda vez que voltava, ao trocar de roupa, era triste e doloroso pra mim".

Ao completar 18 anos, ela saiu da casa dos pais e aproveitou as chances que teve de se tornar mulher, da forma mais rápida. Na época, Nicole só tinha o apoio da mãe e da avó que nunca rejeitaram sua condição. A maior dificuldade foi com o pai, que não admitia o filho que havia se tornado ela.

"Minha mãe sempre soube e me deu todo apoio, quando contei para ela do primeiro menino, disse apenas para eu saber que o mundo lá fora não era um arco-irís, que eu ia encontrar o preconceito, mas que independente de qualquer coisa, ela me amava", lembra.

Em dois meses fora de casa e morando com uma amiga, Nicole já estava ''bombada", termo referente ao uso de silicone industrial. Mesmo sabendo dos riscos que corria, naquele momento era a oferta mais rápida para ter o corpo que desejava. "Minha mãe ficou muito preocupada por conta disso e com razão. Os riscos são enormes, a maioria das pessoas sofre rejeição e pode acontecer o pior. Jamais recomendo isso a alguém. Se for para mexer no corpo, tem que ser acompanhado pelo médico".

Depois das primeiras transformações, Nicole passou a enfrentar de uma vez o preconceito. Por conta da aparência, lembra da dificuldade em arrumar o emprego e da única alternativa de sobrevivência que restou: a prostituição.

"Acabei indo para a rua. Lembro da primeira vez que uma pessoa me ofereceu dinheiro para sair com ela. Quando a gente não tem condições e alimenta o sonho de ficar feminina, a vontade de ganhar dinheiro rápido só aumenta, principalmente, quando não se tem o apoio da família".

Hoje ela é uma mulher feliz, garante. (Foto: Michel Souza)Hoje ela é uma mulher feliz, garante. (Foto: Michel Souza)

Por conta do trabalho, Nicole passou por várias regiões do País. São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Paraná e Santa Catarina. Mas em 2011, em Mato Grosso, viveu o pior momento da vida, define.

Enquanto estava no ponto de trabalho, logo depois de ter saído com um cliente, ela foi esfaqueada. "Lembro que sai com um cliente e depois, ele não levou minha bolsa, nem meu celular ou dinheiro, apenas deu uma facada na minha prótese e no meu pescoço. Na hora eu cai, depois só lembro que acordei quando a minha mãe estava no hospital", conta.

Nicole acredita que tenha sido preconceito ou maldade, já que a intenção não era assaltar. "Eu não estava o roubando e nem agredindo, não tinha motivos para ele ter feito o que fez. Não sei o que dizer, se foi transfobia, mas foi uma maldade", recorda.

Nicole ficou dois dias em coma e precisou fazer transfusão de sangue. Recorda que até os médicos acreditaram que ela não teria chances, mas voltou do coma quando a mãe chegou ao hospital, depois de horas viajando, assim que recebeu a notícia do que havia acontecido com a filha.

Depois de duas semana internada, Nicole retornou com a mãe à casa dos pais. Foi um recomeço próximo a família e o desafio de conviver com as dificuldades do pai em aceitar. "Ele não me olhava como mulher. Apesar do susto, para ele eu continuava sendo um menino. Fiquei um tempo com ele e foi a proximidade que fez ele perceber que se não me aceitasse do jeito que eu era, o meu caminho poderia ser a morte", conta.

Quando o irmão caçula de Nicole estava crescendo, é que o pai passou a enxergar a filha de outra maneira. "Minha mãe ficou grávida e quando ela voltou a trabalhar, era eu que ficava com meu irmão. Meu pai dizia a ele que eu era um menino, mas quando ele me via, enxergava uma menina. Aos poucos minha mãe foi conversando e mostrando ao meu pai que as coisas eram diferentes. Foi um tempo até ele entender e ver quem eu realmente era". 

Hoje Nicole comemora o apoio e a aproximação com a família. "Fiquei muito tempo sem ver meu pai e hoje eu tenho total amor dele. Ele percebeu que o que mudou foi a minha identidade e nunca o meu caráter, continuo sendo a pessoa que ele criou e que colou no mundo. Acho que isso me fez uma mulher realizada", diz. 

Nicole ainda luta pelos direito e o respeito das transexuais no mercado de trabalho, uma de suas maiores dificuldades. "Há quem diga que não, mas o preconceito é muito grande, se o emprego tiver qualquer contato com o público, transexual nunca tem chance. Ou você trabalha no mercado da beleza ou empresa de telemarketing. Essa é única realidade que precisa ser mudada. As chances, infelizmente, ainda são para poucas", lamenta.

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