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Campo Grande, Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018

07/03/2017 06:03

Do Carnaval e da minha mãe, a lição de que o tempo constrói belas memórias

Paula Maciulevicius
Em 1971, Lúcia e o marido Edson, quando ainda namoravam. Foto do baú da família Chaia. (Foto: Arquivo Pessoal)Em 1971, Lúcia e o marido Edson, quando ainda namoravam. Foto do baú da família Chaia. (Foto: Arquivo Pessoal)

Era Quarta-Feira de Cinzas quando Simone se sentou em frente ao teclado e escreveu que o tempo é danado mesmo, é pai e mãe junto, e que quanto mais ele passa, mais a gente aprende. Professora de Inglês, Simone Chaia prefere às palavras do que a fala. Encontra nas letras como expressar saudade da infância e da mãe e sobre reconhecer que é possível gostar de samba e rock ao mesmo tempo.

Se usando como exemplo, ela demorou 30 anos para aceitar que não gostava de praia. E quando o fez, ficou tão em paz com isso que percebeu que o mar lhe fazia falta e que ela até gosta de praia, mas não todo dia. O mesmo foi com o Carnaval. "Meus pais amavam Carnaval. Amavam, no passado, porque minha mãe já faleceu..."

Lúcia Maria Mônaco Chaia nasceu em Corumbá em 1947, morou em São Paulo e em Campo Grande até 2006. "Passados 10 anos de sua morte, que pegou a todos de surpresa, um ataque cardíaco na madrugada aos 59 anos de idade, ainda é difícil acreditar que aconteceu", explica a filha no início deste relato sobre a saudade.

Lúcia no Carnaval de 1985. (Foto: Arquivo Pessoal)Lúcia no Carnaval de 1985. (Foto: Arquivo Pessoal)

Na Capital, Lúcia foi professora durante 10 anos, se casou com Edson Chaia, teve a primeira filha Alessandra e quatro anos depois, Simone. "Minha mãe era daquelas que passava semanas elaborando a fantasia de Carnaval e, se não tinha ainda bailinho para criança, a folia era aqui em casa, com direito aos sambas enredos tocados na vitrola, confete e serpentina", recorda a professora.

Depois, quando vieram os carnavais de clube, a família ficava até acabar. "Samba hoje me aperta a garganta. Lembro dela demais, e é um misto de alegria e saudade. Meus pais gostam de samba. Minha mãe gostava da Elis e do Frank Sinatra. E de ópera", conta. Sinal de que Lúcia gostava do que lhe fazia feliz, sem se importar com rótulos e gêneros.

Lembrar da infância, para a filha, é lembrar da mãe. Das brincadeiras, de fazer tarefa junto, dos bolinhos de chuva e do cuidado que ela dispensava quando as meninas ficavam doentes. "Minha mãe cuidava de tudo e de todos com carinho demais. Era dando atenção, alimentando, ajudando. Era a melhor cozinheira do mundo e tenho testemunhas disso e, e cozinhava ouvindo música", descreve.

Por vezes, o despertador das manhãs aos finais de semana eram as músicas de Lúcia: Sinatra, Elis e Plácido Domingo. A mãe gostava tanto da vida social lá fora como dentro de casa e tinha o lar como santuário, deixando os detalhes desde crochês aos perfumes nas roupas, impecáveis.

E as meninas, Alessandra e Simone, vestidinhas para a folia. (Foto: Arquivo Pessoal)E as meninas, Alessandra e Simone, vestidinhas para a folia. (Foto: Arquivo Pessoal)

"Quando perdi minha mãe, me peguei fazendo exatamente tudo aquilo que ela ensinou. Lembro das coisas que ela falava, das broncas e dos conselhos, e acabo rindo em várias situações. Mãe repete tanto que parece que escuto ela falando comigo hoje", narra.

À época de folia fez as lembranças virem à tona porque Lúcia era apaixonada pela Portela e o Carnaval. "Essa semana me faz lembrar muito dela, tanto pelas músicas e fantasias, e nos últimos anos, por poder festejar o Carnaval na Esplanada Ferroviária. Meu avô morou no casarão da Esplanada, destinada ao engenheiro chefe da Estrada de Ferro e a casa hoje recebe o nome dele, Eng. Carlos Miguel Mônaco".

Ao lado do marido, Lúcia nunca foi roqueira, mas nem assim deixou de levar a filha aos shows que Simone quis assistir. "Eles levavam e lá ficavam e curtiam", conta. O presente de aprovação no vestibular, foi o show do RollingStones, no Maracanã, depois de um escândalo de Simone.

"Disse que 'eles eram velhos e iam tudo morrer' e essa era a última chance. Vinte e dois anos se passaram e você percebe que Keith é imortal... O tempo é mesmo relativo e tudo bem gostar de praia, ou não, de rock, samba e Sinatra. O tempo constrói essas memórias de forma linda, exata. O importante fica. E essa salada doida e deliciosa é que define você", aprendeu Simone.

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Edson e Lúcia junto dos amigos Pedro e Lúcia em uma das festas que ela tanto gostava. (Foto: Arquivo Pessoal)Edson e Lúcia junto dos amigos Pedro e Lúcia em uma das festas que ela tanto gostava. (Foto: Arquivo Pessoal)


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