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Campo Grande, Domingo, 18 de Agosto de 2019

03/07/2019 08:13

Emoção de André foi voltar ao lugar que cresceu para ser professor e casar

Aos 33 anos, ele chora ao falar do Educandário Getúlio Vargas, lugar que se tornou segunda casa e cenário para dizer sim ao amor.

Thailla Torres
Casamento foi no pátio do entidade. (Foto: Arquivo Pessoal)Casamento foi no pátio do entidade. (Foto: Arquivo Pessoal)

O tempo passou e o que ficou para André Júlio de Souza foram lembranças de um lugar que o transformou como ser humano. Depois de morar 15 anos no Educandário Getúlio Vargas, entidade que atende crianças carentes, ele retornou ao local como professor de Informática e ainda fez questão de casar no pátio, por amor ao lugar que um dia o acolheu e ensinou a viver.

Nesta semana André ficou conhecido ao aparecer numa reportagem de televisão chorando. As lágrimas eram de emoção por voltar ao passado e contar como a vida difícil fez ele viver por tanto tempo na instituição. Hoje, em entrevista ao Lado B, ele segurou a onda para evitar o choro, mas não escondeu a emoção. “Eu fui um chorão mesmo porque voltar ao passado me emociona muito. E parte do que eu sou hoje, devo a esse lugar. Mas hoje vou segurar o choro, a reportagem repercutiu muito”, ri.

André chegou à instituição em 1989, levado pela avó que não tinha condições de criar todos os netos. Seus pais vieram com as crianças de Lagoa dos Gatos, no Pernambuco, em busca de uma vida melhor. Mas precisavam trabalhar duro no dia a dia. “Eu faço questão de deixar claro que a família não queria nos largar, eles apenas encontraram um jeito da gente ter um futuro melhor. Sem dinheiro, naquela época minha avó ficou sabendo do Educandário e me trouxe junto com a minha irmã”.

Fora do Educandário, André confessa que não dava conta de esquecer o lugar. (Foto: Thailla Torres)Fora do Educandário, André confessa que não dava conta de esquecer o lugar. (Foto: Thailla Torres)

O Educandário foi inaugurado em outubro de 1943 e começou sua história atendendo filhos saudáveis de pais portadores de hanseníase, mas atravessou parte da sua história cuidando crianças que os pais não tinham condições financeiras de sustentar. No entanto, o local nunca funcionou como orfanato, como muitos pensam. As crianças carentes eram mantidas até que a famílias conseguissem suporte financeiro para levá-las para casa.

A partir de 2006, com o advento do Estatuto da Criança, o educandário deixou a função de abrigo para abraçar exclusivamente a formação educacional das crianças.

André morou na instituição até 2004. Aprendeu limpar, lavar, cozinhar, brincar e teve oportunidade de estudo. Da infância recorda de uma turma de amigos com sonhos bastante semelhantes. “Aqui brincávamos de latinha, pega-pega, esconde-esconde. Mas na hora de sonhar todo mundo queria mesmo era estudar e ter a própria casa”.

O lugar virou uma segunda família até a chegada da adolescência e posteriormente a vida adulta. “Aos 19 anos conseguiram um emprego pra mim numa rede de postos para saída de São Paulo. Mas eu estava tão habituado ao Educandário que quis sair de lá no mesmo dia”, lembra. Mas pela idade, André não poderia mais ficar na instituição. “Os vínculos já tinham sido cortados, então eu e minha irmã fomos morar juntos”.

André (abaixado, à esquerda) ao lado da turma de crianças e adolescentes que viviam no Educandário na década de 90. (Foto: Arquivo Pessoal)André (abaixado, à esquerda) ao lado da turma de crianças e adolescentes que viviam no Educandário na década de 90. (Foto: Arquivo Pessoal)

Fora do Educandário, André confessa que não dava conta de esquecer o lugar. “Eu sentia que aqui era o meu espaço. Eu conheço cada detalhe desse lugar, inclusive, se você me pedir para desenhar eu faço isso de olhos fechados. Sei de cada sala e cada coluna daqui”.

André então fez um curso de informática e foi trabalhar em uma escola da cidade. Passou a dar aulas e se especializar na área. Anos mais tarde, dona Nelly Maksoud Rahe, diretora do educandário há mais de quatro décadas, disse que precisava de um professor para sala de computadores. Não deu outra, foi a chance de André de voltar ao Educandário. “Eu sabia que minha missão era trabalhar com crianças, ajudar crianças e mostrar a elas um novo futuro. Quando dona Nelly me chamou eu não pensei duas vezes, aceitei o trabalho”.

O professor lembra que chegou ao lugar como funcionário em abril de 2014 e em dezembro tomou uma nova decisão. “Eu quis realizar o meu casamento aqui dentro. No começo dona Nelly ficou preocupada com o espaço, mas eu não me importei, queria mesmo dizer sim nesse pátio”.

Conquista do diploma foi chance para voltar ao educandário. (Foto: Arquivo Pessoal)Conquista do diploma foi chance para voltar ao educandário. (Foto: Arquivo Pessoal)

Sem estrutura para festas do tipo, André cuidou de todos os detalhes do casamento ao lado da esposa. “Não teve essa de só a noiva cuidar dos preparativos, eu também cuidei de tudo e participei. Minha cerimônia foi emocionante e eu pude me sentir em casa.

Sorrindo para não chorar novamente, André se emociona como ninguém. “É muito bonito ter esse sentimento de gratidão por um lugar. Aqui eu me formei como pessoa, aprendi respeitar, amar e estudar para ter um diploma. Eu me emociono muito porque eu tive sonhos e com muita luta consegui realiza-los”.

Hoje, seu maior desejo é continuar ensinando e ver a nova geração de crianças conquistar um futuro pautado na educação. “Hoje tudo é muito diferente, mas eu tento resgatar esse valor ao ser humano e a educação. É tudo que uma pessoa pode ter para corre atrás dos seus sonhos. E se depender de mim não saio daqui nunca”.

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