“Falou comigo”: por que o tarô do TikTok parece tão certeiro às vezes?
Leituras coletivas viralizam nas redes e fazem usuários sentirem que cartas foram tiradas para eles
Você abre o TikTok sem compromisso e, do nada, aparece uma cartomante embaralhando as cartas.
“Tem alguém pensando em você.”
“Uma mudança está chegando.”
“Você está vivendo o fim de um ciclo.”
Nessa hora o dedo para de rolar a tela e vem a pergunta. Afinal, como ela sabe?
É justamente essa sensação de “estão falando da minha vida” que ajuda a explicar a força das leituras de tarô nas redes sociais. Os vídeos são vistos por milhões de pessoas, mas basta uma frase encaixar no momento de alguém para surgir o comentário clássico: “Falou comigo!”
Em Campo Grande, a taróloga Daniele Ramos acompanha de perto esse movimento e explica que boa parte do conteúdo que circula nas redes é formado por leituras coletivas. Ou seja, a mesma mensagem é destinada a um grupo enorme de pessoas.
E aí está a parte curiosa. Para algumas, não significa absolutamente nada. Para outras, parece que a cartomante conhece até os detalhes da vida pessoal.
“Tem gente que fala para mim: ‘Não, falou comigo’. Tem outras pessoas falando: ‘Meu Deus, bateu tudo’”, conta Daniele.
Coincidência ou conexão? Aquela sensação de ter encontrado exatamente a mensagem que precisava ouvir pode parecer estranha, mas, para Daniele, existe uma explicação dentro da própria lógica do tarô. Ela acredita que a intenção de quem assiste também entra nessa equação.
A pessoa já está pensando em determinado problema, querendo uma resposta ou simplesmente curiosa sobre o que vem pela frente. Quando aparece uma mensagem que conversa com aquilo que ela está vivendo, acontece o que a taróloga chama de “encaixe perfeito”.
“Se é aquele momento que você está precisando ouvir uma mensagem e você entra naquela sintonia, naquela frequência, a mensagem é para você”, afirma.
Mas isso não significa que cada vídeo seja uma previsão exclusiva para quem está assistindo.
Segundo Daniele, uma leitura coletiva pode fazer sentido para algumas pessoas e não para outras. Para quem quer uma abordagem específica, a consulta individual permite aprofundar a situação.
Além disso, o algoritmo é outro elemento trabalhando antes mesmo das cartas. Quem passa bastante tempo vendo vídeos de tarô, espiritualidade, relacionamentos ou signos provavelmente vai encontrar ainda mais conteúdos parecidos no feed.
Ou seja, pode parecer que o universo mandou aquela cartomante aparecer justamente naquele momento, quando talvez o aplicativo simplesmente tenha aprendido que você gosta daquele assunto.

Para Daniele, no entanto, uma coisa não necessariamente elimina a outra. Ela conta que também já teve a sensação de precisar fazer uma leitura e publicar nas redes sem saber exatamente quem iria recebê-la.
“Eu preciso gravar uma leitura agora e postar na minha rede social. Para quem? Eu não sei. Estou sentindo que eu preciso jogar”, relata.
Segundo ela, depois começam a aparecer pessoas dizendo que a mensagem fez sentido. “Realmente é uma conexão intuitiva”, explica.
Mas quanto disso realmente é verdade?
Essa talvez seja a pergunta que mais ronda quem vê os vídeos. Dá para calcular uma porcentagem de acerto? Para Daniele, não.
“Não tem assim um número específico para te falar: ‘tantos por cento de veracidade daquele fato’”, diz.
A taróloga acredita que, para quem realmente se conecta com determinada mensagem, a identificação pode ser completa. “Para quem se conectou realmente com aquela mensagem, vai bater 100%”, afirma.
A relação de Daniele com o tarô começou muito antes do TikTok, onde ela também posta.
Curiosa desde criança por assuntos místicos, ela conta que passou a estudar mais profundamente esse universo por volta dos 30 anos, em 2019. Vieram estudos sobre autoconhecimento, leis universais, espiritualidade e, depois, o tarô..
Hoje, ela entende as cartas menos como uma sentença sobre o futuro e mais como uma forma de orientação. “O tarô ele é um mecanismo assim de divisor de águas muitas vezes. É uma clareza, uma orientação, um selo”, define.
Para ela, as cartas também funcionam como uma espécie de acesso ao subconsciente. “É um acesso do seu subconsciente trazendo as probabilidades da sua própria vida”, finaliza.
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