Em tempos de telas, teatro vira lugar para fazer amigos e estar junto
Atividade artística ajuda alunos a deixar os celulares de lado e criar vínculos sociais

RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
Entre ensaios, improvisos e conversas que não passam por uma tela, o teatro tem virado lugar de encontro para quem quer fazer amigos, sair um pouco do celular e simplesmente estar junto. Em Campo Grande, crianças, adolescentes e adultos contam que chegaram às aulas por motivos diferentes, mas acabaram encontrando algo em comum: convivência de verdade.
O professor de Artes Luan Luigi, por exemplo, encontrou no teatro uma pausa em uma rotina atravessada pelas redes sociais. Mais do que aprender a interpretar, ele diz que ali consegue deixar de lado personagens que, muitas vezes, criamos até fora do palco.
“Me sinto um tanto viciado em redes sociais e consciente que preciso mudar isso. Tenho TDAH, é horrível manter-se focado. Por vezes performamos um ser nas redes sociais, no trabalho e em outros contextos. No teatro sinto que ninguém precisa performar, em grande parte somos o que somos e todos estão seguros.”, afirma.
A experiência também mudou a rotina de Jefferson Guerra, de 14 anos. Antes, boa parte do tempo livre era ocupada por música e filmes em plataformas de streaming. Depois que começou no teatro, vieram os amigos, mais confiança e até novos interesses. Hoje, ele já pensa em cursar Artes Cênicas.
A tia e mãe do coração, Amélia Guerra, percebeu a mudança também fora das aulas. Jefferson ficou mais participativo na escola e, durante as férias, passou a cantar no karaokê e jogar vôlei na praça.
“Por ser neurodivergente, ele tem dificuldade de fazer amizades. No teatro, ele se sentiu acolhido. O teatro dá essa oportunidade porque ali todos são iguais. Não existe diferença”, relata Amélia.
Com Camila D’vila, a história foi parecida. Ela chegou querendo realizar o sonho de fazer teatro e acabou levando dali uma turma para a vida. “Costumo dizer que somos mais que amigos. Viramos uma grande família. Sempre nos encontramos fora das aulas, vamos à casa uns dos outros e estamos constantemente reunidos”, conta.
Aos 12 anos, Cecília Duarte também descobriu um novo jeito de ocupar o tempo. Fã de desenho digital e de criar figurinos inspirados em personagens com a ajuda de vídeos da internet, ela foi incentivada pela mãe, Carla Duarte, a experimentar uma aula.
Tímida, Cecília encarou exercícios de improvisação e começou a se aproximar das outras crianças. Aos poucos, os ensaios também passaram a disputar espaço com o celular. “Ela gosta bastante de telas, mas depois que entrou no teatro, passou a se interessar pelas atividades, ficando bem envolvida quando tem que ensaiar as falas para apresentação deixando o celular de lado”, observa a mãe.

A psicóloga Ketlen da Silva explica que experiências assim ajudam a exercitar algo que nenhuma troca virtual substitui completamente: aprender a conviver. “Nosso repertório social é construído nessas experiências em grupo, nas quais aprendemos novas habilidades e ampliamos as possibilidades de interação”, afirma.
E não é que as telas precisem virar vilãs. Para Leonardo de Medeiros, professor e coordenador pedagógico do Grupo Casa, o teatro pode justamente funcionar como um contraponto a uma rotina cada vez mais conectada.
“No teatro tem uma pessoa na sua frente, tem troca, tem erro, tem improviso, tem alguém que depende da sua presença e você depende da presença daquela pessoa também. Num momento em que a gente passa tanto tempo conectado, ter um momento para aprender a estar junto seja uma das coisas mais bonitas e necessárias que o teatro pode oferecer”, finaliza.
A sensação de que é preciso reaprender a estar junto aparece em um cotidiano no qual as telas ocupam cada vez mais espaço. Segundo pesquisa da NordVPN, brasileiros passam, em média, 116 horas por semana diante de dispositivos eletrônicos. Já a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua 2025, do IBGE, aponta que 95,6% dos usuários acessam a internet diariamente. No Centro-Oeste, 93,6% das pessoas utilizaram a internet.

