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Campo Grande, Sexta-feira, 24 de Maio de 2019

14/01/2019 08:34

Família enfrentou 1 ano de distância até realizar o sonho de viver fora do País

O casal campo-grandense ouviu de tudo, mas não desistiu do sonho de ser feliz

Thailla Torres
A chegada de Élida na Inglaterra depois de 1 ano longe dos pais. (Foto: Arquivo Pessoal)A chegada de Élida na Inglaterra depois de 1 ano longe dos pais. (Foto: Arquivo Pessoal)

Há um ano e meio, quando Karla Conte Cardoso, de 32 anos, e Saulo Oruê, de 36 anos, deixaram Campo Grande (MS), mal podiam imaginar como seria a vida tão longe de casa. Os dois decidiram realizar o sonho de infância de viver na Itália, mas tanta coisa aconteceu que hoje eles estão em Cambridge, na Inglaterra. A história desse casal poderia ser só mais uma entre tantas de quem deseja ganhar o mundo e viver fora do país, mas o casal partiu na raça, sem emprego garantido, sem a cultura, a comida e o mais doloroso, sem a filha de 9 anos.

A intenção era abrir caminho para que a pequena Élida, de 9 anos, chegasse em outro lugar do mundo com a segurança que uma criança merece. Os pais, claro, ouviram muitas críticas. Foram chamados de loucos, mas não desistiram. Hoje, nos braços da filha, Karla conta no Voz da Experiência como foi enfrentar a distância por um sonho, além da realização de ver Élida feliz e dando um jeitinho de fazer amigos mesmo sem dominar o inglês.

Quiosque onde trabalharam no verão italiano. Quiosque onde trabalharam no verão italiano.

Nossa história, pelo menos parte dela, começou na minha adolescência, sempre tive vontade de viver fora do país, viajar, conhecer lugares novos e correr atrás dos sonhos.

Quando eu e meu marido decidimos que realmente era hora de ir atrás disso e colocar em prática tudo que tínhamos sonhado e planejado, nossa filha era muito pequena e sair do país sem documentos ou vistos, sem emprego, amigos, família e um lugar pra morar parecia loucura. Mesmo assim eu não podia desistir, afinal era um grande sonho que eu queria realizar.

Resolvi fazer minha cidadania italiana, pois meu bisavô era italiano e isso facilitaria muito as coisas. Mal sabia eu dos desafios que viriam à frente, pois além de ninguém da família saber de onde esse bisavô italiano tinha vindo eu não tinha a menor ideia de como fazer essa cidadania e pagar uma assessoria era fora de cogitação. Então decidi entrar de cabeça nesse assunto e estudar tudo que tinha pra ser estudado sobre isso e fazer essa cidadania sozinha mesmo.Era o jeito. Foi difícil esperar, pois quando eu tinha todos os documentos em mãos, precisei mandar retificar na justiça, e nossa justiça é lenta, muito lenta. Foram quatro anos e meio de espera, e nesse tempo, enquanto estávamos esperando, fomos estudando coisas que gostávamos, criando nossa filha, trabalhando e aguentando muita gente tirando onda com nosso sonho, realmente foi um período bem difícil.

Passado esse tempo, com os documentos prontos, vendemos tudo que tínhamos, compramos as passagens, fizemos festas de despedida com amigos e familiares. Despedimo-nos de nossa filha e fomos embora, sem planos de voltar. Nesse primeiro momento, deixamos nossa filha em Campo grande com minha cunhada, pois era muito arriscado o que estávamos prestes a fazer, e se tudo desse errado? E se todos estivessem certos e fossemos somente dois loucos querendo ganhar o mundo?

Desembarcamos na Itália em junho de 2017, cada um com uma mala, sem falar italiano, com muitos sonhos e pouco dinheiro no bolso. Moramos num camping por três dias, e depois partimos para cidade onde faríamos minha cidadania italiana. Precisávamos urgentemente achar uma casa para morar, então usamos o Google Tradutor para aprender algumas frases e começamos a andar.

Esse é o Mauro, e fizeram essa foto minutos depois de conseguirem o apartamento na Itália. Esse é o Mauro, e fizeram essa foto minutos depois de conseguirem o apartamento na Itália.

Nos três primeiros dias nessa cidade andávamos uma média de 11 horas por dia, falando com toda e qualquer pessoa que encontrávamos na rua, perguntando sobre casa para alugar, tentávamos os sites de imobiliárias e grupos de Facebook e nada. Ninguém queria alugar para gente, dois brasileiros, sem emprego, sem documento, sem falar italiano, era muito difícil.

O verão estava para começar e só havia aluguel de temporada, o que era impagável. No quarto dia, paramos para conversar com um italiano numa mercearia, “conversar” usando tradutor e tentando falar um pouco de inglês. Contamos nossa história para ele, e por algum motivo ele gostou da gente e resolveu ajudar.

Ele se lembrou de um amigo, casado com uma brasileira que falava português, então ele ligou pra amigo e, no viva voz, tivemos uma conversa com intérprete. Foi engraçado, mas por dentro estávamos muito preocupados. Mas tudo começou a mudar quando conhecemos o Mauro, um senhor ítalo-brasileiro que morava nessa cidade há 15 anos, e ele foi nosso paizão lá, sem ele não teríamos conseguido.

Contamos nossa história e ele decidiu nos ajudar. Ele conhecia todo mundo e conseguiu um amigo para alugar um apartamento pra gente, conseguiu carona para levamos as malas, levou a gente pra jantar fora, apresentou a gente pra todo mundo na cidade, chamou a gente pra fazer uns freelas no quiosque de caipirinha que ele tinha na praia, cozinhou um monte de pratos italianos, levou a gente pra conhecer vários lugares lindos perto de onde estávamos, enfim, viramos família.

Família passeando em Cambridge. (Foto: Arquivo Pessoal)Família passeando em Cambridge. (Foto: Arquivo Pessoal)

Fiz minha cidadania sem problemas e depois de uns três meses na Itália, morrendo de saudades da nossa filha, tinham finalmente documentos, eu era italiana e podíamos arrumar um trabalho e trazer nossa filha para perto de nós mais uma vez. Mas nada nessa vida é fácil não é mesmo?

O verão acabou assim como os freelas e nosso dinheiro também estava no fim. Mais uma vez quase tivemos que voltar ao Brasil, mas não podia deixar isso acontecer, eu estava lá, realizando meu sonho, vivendo fora, tão perto de tudo.

Nesse momento, meu primo que mora há oito anos em Cambridge, nos convidou para mudar para cá, disse que com documentos arrumaríamos trabalho fácil e poderíamos assim continuar a jornada e trazer nossa filha para ter uma vida melhor.

Eu e meu marido conversamos e pensamos em todas as possibilidades. Resolvemos então mudar para Inglaterra, algo que nunca sequer tinha passado pela minha cabeça. Foi muito difícil deixar a Itália, a gente realmente gostava de lá, das pessoas, da comida, enfim, de tudo.

Despedimos-nos dos amigos mais uma vez, e saímos da Itália com portas abertas, mais experiência de vida, cultura e mais empatia pelas pessoas. Viemos de mala e cuia para Cambridge. Chegando aqui, houve um choque de realidade.

Saímos de um verão incrível na Itália, para um frio intenso inglês. A adaptação aqui foi a pior parte, principalmente por parte do clima. Dividimos casa com meu primo por cinco meses, arrumamos trabalho fácil realmente, mas tínhamos que guardar dinheiro para trazer nossa filha, isso era o mais importante. Vivemos de sanduíche uns quatro meses, passamos muita vontade de comprar coisas, pois essa cidade é feita para consumir mesmo, tudo é barato e tem tudo que se possa imaginar.

Depois mudamos para uma “shared house”, com uma família da Lituânia e vivemos lá por seis meses, sempre trabalhando, planejando, economizando, fazendo amizades, passeando quando era possível e vivendo da melhor forma que podíamos. Sempre aprendendo coisas novas, principalmente o idioma.

Natal em família, com todas as comemorações que os ingleses fazem. (Foto: Arquivo Pessoal)Natal em família, com todas as comemorações que os ingleses fazem. (Foto: Arquivo Pessoal)

Enfim, após um ano morando em Cambridge, finalmente tínhamos como alugar uma casa só para gente e trazer nossa filha. E foi o que fizemos, seguimos o plano. Alugamos a casa e ela veio, e veio sozinha, uma criança de nove anos, teve coragem suficiente para encarar um voo intercontinental para vir nos encontrar. Foi um momento muito emocionante quando ela chegou.

Para nós foi o final de um ciclo e o início de outro. Estávamos há um ano e meio sem ver nossa filha, num ritmo frenético de trabalho para juntar dinheiro e nos vimos numa situação completamente nova mais uma vez.

Agora ela estava aqui e o foco seria a adaptação dela. Conseguimos uma escola perto de casa, e mesmo preocupada com o fato de não falar inglês, todos na escola estão mais que acostumados com isso, afinal aqui é Cambridge, vem gente de o mundo todo estudar aqui. E ela se saiu muito bem. Chegou em Novembro e está gostando de tudo aqui, menos do clima, afinal nem os próprios ingleses gostam, é muito frio. Ela amou a escola e fez amigos logo no primeiro dia, tivemos sorte, pois tem algumas crianças brasileiras na escola, então no recreio ela fala português com essas crianças.

Não sabemos o que o futuro nos reserva, mas sei que não paramos até conseguir, agora estamos completos novamente, planejando novos desafios a serem feitos, viagens que queremos fazer, mais sonhos a serem realizados. Conhecemos pessoas maravilhosas nessa jornada que realmente nos ajudaram a chegar até aqui, fizemos amizades para vida toda e tenho certeza que temos portas abertas em todos os lugares por onde passamos, pois sempre fomos verdadeiros com todos. É isso. 

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