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Comportamento

Fazer biscoitos deu força para Zete cuidar do marido com Alzheimer

Há 3 décadas casada, artesã viu o mundo desabar com diagnóstico de João há 7 anos, e ajuda veio doce

Por Natália Olliver | 04/06/2026 07:21
Fazer biscoitos deu força para Zete cuidar do marido com Alzheimer
Zete e o marido João; casal descobriu Alzheimer de João há 7 anos (Foto: Juliano Almeida)

“Eu considero meu marido a minha alma gêmea. São 31 anos, um casamento perfeito, uma pessoa que sempre cuidou de mim. Foi um baque quando veio a doença. Meu mundo caiu”.

RESUMO

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Zete, artesã de 71 anos, encontrou nos biscoitinhos amanteigados um refúgio emocional enquanto cuida do marido João, de 74 anos, diagnosticado com Alzheimer há sete anos. Acordando às 5h30 para preparar as receitas em dois sabores, vendidos a R$ 12 os 100g, ela transforma a rotina difícil em propósito. A doença avançou em 2024, exigindo atenção constante após João se perder sozinho pela cidade.

A frase de Crilzete Vidal Zubieta, 71 anos, ou melhor, Zete, como gosta de ser chamada, vem de um lugar que ela não achou que ocuparia tão cedo, o de esposa cuidadora. Há sete anos, o companheiro da vida foi diagnosticado com Alzheimer. Para sobreviver, a artesã resolveu se dedicar à cozinha e encontrou ali, nos biscoitinhos amanteigados, um mundo só dela, blindado de tristeza.

Hoje, Zete passa os dias dividindo o tempo entre a rotina com João Batista Zubieta, de 74 anos, as diversas peças de artesanato com material reaproveitado, madeira, sisal e os biscoitinhos simples. A ideia veio das amigas durante a famosa “feirinha” feita na casa dela.

Fazer biscoitos deu força para Zete cuidar do marido com Alzheimer
Fazer biscoitos deu força para Zete cuidar do marido com Alzheimer
Quando João esquece, Zete lembra pelos dois e faz biscoitos para seguir (Foto: Juliano Almeida)

“Meu neto que me deu esse apelido, eu adorei e ficou. A história do biscoito começou lá no Rio de Janeiro, sou carioca. Uma amiga me passou uma receita e, sempre que eu fazia nos aniversários dos meus filhos, quando o pessoal ia em casa, todo mundo sempre gostou. Eles falavam que quanto mais come, mais vontade dá”.

Anos depois, feliz com o sucesso que eles continuaram a fazer ao longo dos anos e pelo incentivo de todos, Zete resolveu vender os biscoitos. Há 30 anos, veio parar em Campo Grande. João era de Ladário, mas foi no Rio que a história de amor começou. O retorno veio depois de muitos anos em terras cariocas.

“Lá no Rio, fazia artesanato para empresas, mas os biscoitos eram só para os amigos. E continuei nesse modo, chás da tarde, fazendo meus artesanatos que dava de presente e pensei que as pessoas gostavam tanto das minhas coisas que poderia fazer uma feira. Sempre que fazia, colocava os biscoitos para venda. Todo mundo gostou e agora eu comecei a divulgar”.

Fazer biscoitos deu força para Zete cuidar do marido com Alzheimer
Fazer biscoitos deu força para Zete cuidar do marido com Alzheimer
Tímido, João fica na varanda enquanto mulher conta história do casal (Foto: Juliano Almeida)

São dois sabores vendidos a R$ 12 a cada 100g. Um amanteigado e outro de goiaba. Ela conta que muitas pessoas já pedem mais e os doces vão em potes. Zete é suspeita para falar, diz que adora tanto o sabor amanteigado, que cai bem com o cafezinho, como o de goiaba, ideal para o pós-café, segundo ela. A ideia é fazer o com cobertura de chocolate no futuro.

“A receita é simples. O segredo é o amor, o carinho que eu faço, o prazer que eu tenho em fazer. Minha família sempre está experimentando e me falando se estão bons. Eu tenho gratidão por tudo, pelo carinho e apoio da minha família. Fico muito feliz com tudo”.

Entre um biscoitinho e outro, um gole de café servido com afeto. Mesmo com um estranho à mesa. Ela conta sobre o peso da doença, mesmo com tanto amor envolto. Aliás, nada neutraliza os efeitos do esquecimento. Resposta disso são os olhos de Zete quando lembra do passado.

“Antes da doença dele, a gente viajava muito. Sempre gostei de estar cercada de pessoas queridas. Tenho um grupo de amigas que entende minha situação, vem em casa, tomamos café. Tem dias que ele está instável e elas não aparecem. Elas não excluem o meu marido. Eu chorava bastante. Cuidar e ser aquela pessoa 24h é complicado. Agora tenho mais gente e consigo fazer uma terapia, ir ao Centro comprar as coisas do meu artesanato, sair um pouco. Não é fácil lembrar do antes”.

Fazer biscoitos deu força para Zete cuidar do marido com Alzheimer
Biscoitos amanteigados são vendidos a R$ 12 a cada 100 gramas (Foto: Juliano Almeida)

Zete viveu o luto de “se despedir” de parte do que o marido era em vida. A melhora demorou a dar as caras. O que salva os dias dela, a cabeça e os próprios sentimentos são os biscoitinhos. Inclusive, para fazer do jeitinho que gosta e dá certo, é preciso pular cedo da cama, às 5h30. É ali, nesse momento, que a vida volta a ser só dela.

“É o horário que a casa está silenciosa. É a minha hora. Eu acho que por isso ele sai tão gostoso. Ele estar doente faz eu me dedicar mais ainda aos biscoitos. É bom para minha cabeça, faz eu ter um motivo para trabalhar. Igual meu artesanato. É um momento que é só meu. Eu já tentei fazer biscoitos à tarde, mas não deu certo. Faço biscoito, faço meu café e tudo dá certo”.

Mesmo diante da tristeza, Zete se vê feliz. Chama João para o café. Durante toda a conversa, ele está na garagem e se sente melhor ali. Ele toma o café e come os biscoitinhos ali mesmo. Com vergonha, ele aceita posar ao lado de Zete, que não perde tempo e dá um beijo nele.

“Eu já viajei tanto, agora está bom. O negócio agora é cuidar dele. Falei para o meu filho que o nosso objetivo é cuidar do pai dele porque a vida toda ele cuidou da gente. Estamos cuidando e muito bem”.

Fazer biscoitos deu força para Zete cuidar do marido com Alzheimer
Além de biscoitos, Zete é artesã de mão cheia (Foto: Juliano Almeida)

Voltando à história do casal, Zete relembra que tinha dado prazo máximo de seis meses para ficar em Campo Grande quando chegou. Não queria abandonar o Rio. Mas, quando começou a morar na Cidade Morena, nunca mais foi embora.

“Eu considero meu marido a minha alma gêmea porque ele de Ladário, muitos quilômetros do Rio, fomos nos conhecer lá. Eu estudava à noite e ele foi estudar também. Ele servia na Ilha do Governador. Começamos a namorar, foram quase quatro anos namorando na rua e depois a gente resolveu casar. Nosso namoro foi bem diferente. Faltando um mês para o casamento, já tínhamos comprado todos os móveis”.

João é da Marinha, serviu quatro anos em Ladário e depois voltou para o Rio. Quando faltavam dois anos para a aposentadoria, ele resolveu sair de lá. O ponto de parada definitivo foi Campo Grande.

“A gente passando, ele gostou da cidade. Eu não queria vir, mas parece que é coisa do destino. A gente não quer acreditar muito, mas tem coisas que nos levam a acreditar. Passando por aqui, eu gostei da cidade. Em Ladário, não me adaptei muito ao calor, mosquitos e viemos. Estava há 30 anos e, no começo, falei que ficaria seis meses”.

Dias para nunca esquecer

Quem procurou um médico para identificar o que estava acontecendo foi o próprio João. Ele se sentia estranho, muito esquecido. Foram feitos exames neurológicos e a suspeita veio. Depois de exames complementares com neuropsicólogos, deram fim ao mistério e jogaram um balde de água fria na família.

João ficou bem até 2024, quando a doença avançou e exigiu cuidados redobrados. Ele começou a se perder de carro. Com medo, Zete conseguiu convencer o marido a vender o veículo.

“Teve um caso muito triste, porque ele sempre ia ali fora limpar a grama e, em um dia desses, eu estava na frente com ele e fui para dentro de casa rapidinho. Quando voltei, ele sumiu. Foi um dia todo procurando, eu, minha família, amigos. Ele estava lá na Base Aérea. Uma pessoa abençoada ligou e avisou que ele estava lá. Não sei como chegou até lá, é longe. Avenida tão grande, tão perigosa”.

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O dia foi o segundo baque em Zete e nos familiares. A partir daí, tudo mudou. A atenção é extrema e a vigilância constante.

“Meu marido sempre foi uma pessoa muito boa, nunca deixou de nos faltar nada. Tenho dois filhos e três netos, duas meninas e um menino. A gente deu muita sorte na vida, todos nos amam bastante. Todo mundo trata ele com muito carinho e acho que é isso que a pessoa que tem Alzheimer precisa: calma. Eu vejo vários vídeos de como cuidar e lidar com isso. Quanto mais paciência e cuidado, acho que a doença fica mais leve”.

Agora, Zete explica que enfrenta a famosa “Síndrome do pôr do sol”. Todos os dias, ao entardecer, João cisma que precisa ir embora. Não reconhece a casa como seu lar. A família não contraria, evita deixar ele bravo. Para eles, entrar na “onda” evita situações piores.

“Conseguimos convencer ele, meu filho pega o carro e sai com ele. Ele quer ir para Ladário, meu filho fala que vai comprar a passagem no dia seguinte. Esse aconchego que temos com ele faz a coisa ficar mais leve. Aqui em casa não temos gritos ou palavrões e tudo na calma. Não adianta ser o contrário porque, na cabeça dele, é uma outra pessoa. Para que bater de frente?”.

Um dos objetivos na vida de Zete é sempre ser uma pessoa melhor e, com a doença do marido, isso foi possível. “Aprendi muita coisa e, com a doença dele, procuro ser ainda melhor com todo mundo. Aprendo muita coisa com ele. Eu tiro paciência de onde eu não tinha. É preciso ter fé nas coisas”.

Quem quiser encomendar os biscoitinhos do Delícias da Zete pode ligar no (67) 998323981.

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