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Economia

Êxodo rural, fauna e abelhas sentem avanço dos eucaliptais em Mato Grosso do Sul

O fenômeno aparece de forma recorrente nas entrevistas de campo realizadas desde 2019

Por Vasconcelo Quadros, de Brasília | 20/07/2026 09:23
Êxodo rural, fauna e abelhas sentem avanço dos eucaliptais em Mato Grosso do Sul
Desmatamento para áreas de eucalipto de 1985 a 2023, segundo pesquisa

A expansão dos eucaliptais no leste de Mato Grosso do Sul não alterou apenas a paisagem. Pesquisa de Marine Dubos-Raoul aponta que o avanço da monocultura também está relacionado à saída de trabalhadores do campo, à perda de espaço para animais silvestres e à mortandade de abelhas em municípios e assentamentos da região.

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Pesquisa de Marine Dubos-Raoul aponta que a expansão de eucaliptais no leste do Mato Grosso do Sul provocou êxodo rural, perda de habitat para animais silvestres e morte de abelhas. A BR-262 registra mais de 2 mil atropelamentos de animais por ano. Centenas de colmeias foram perdidas em municípios como Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo. O estudo cruza imagens de satélite, dados hidrológicos e relatos de moradores.

A expansão dos eucaliptais também provocou uma mudança silenciosa no campo. Segundo Marine Dubos-Raoul, trabalhadores rurais perderam espaço à medida que fazendas de pecuária foram arrendadas para o cultivo de eucalipto, impulsionando um fluxo de famílias para as cidades da região e, em alguns casos, para Campo Grande. Embora a pesquisadora afirme não haver um levantamento estatístico capaz de dimensionar esse êxodo, ela diz que o fenômeno aparece de forma recorrente nas entrevistas de campo realizadas desde 2019. Além dos assentamentos, a equipe identificou ex-moradores de fazendas vivendo nas periferias urbanas, muitos deles expulsos pela mudança no uso da terra e em busca de novas oportunidades de trabalho

"É um êxodo muito visível", afirma a pesquisadora, citando casos de famílias que deixaram propriedades rurais depois que fazendas foram arrendadas para o eucalipto, enquanto outras migraram para ocupações urbanas ou permaneceram nas cidades à espera de trabalho em áreas onde a pecuária ainda resiste.

Melhoramento genético

A preocupação com a disponibilidade de água também aparece dentro da própria cadeia da celulose. Durante reuniões e debates acompanhados pela pesquisadora, representantes do setor mencionaram investimentos em programas de melhoramento genético para desenvolver clones de eucalipto com menor demanda hídrica, iniciativa interpretada por pesquisadores como um indicativo de que, ainda que com um atraso, o tema passou a integrar as preocupações técnicas da atividade.

Outro mérito da pesquisa é ampliar o olhar para além da água. O estudo identifica impactos em cadeia sobre o funcionamento do ecossistema. O primeiro sinal é a fauna silvestre: animais passaram a buscar alimento em quintais, lavouras familiares e áreas urbanas, indicando perda de habitat e escassez de recursos naturais.

A degradação também se manifesta no aumento dos atropelamentos de animais nas rodovias cercadas por maciços de eucalipto, na redução de frutos típicos do Cerrado, como guavira e marolo, e na alteração do comportamento de diversas espécies observadas durante o trabalho de campo.

Êxodo rural, fauna e abelhas sentem avanço dos eucaliptais em Mato Grosso do Sul
Fotos anexadas ao estudo

A morte nas estradas

Em apresentação no encontro “Mulheres Camponesas do Bolsão”, no último dia 11, Marine mostrou dados fortes sobre os impactos socioambientais da monocultura do eucalipto no Leste do Estado, como a constatação de que três das setes rodovias brasileiras em que mais se atropela animais silvestres, as BRs 262 e 163, e a MS 040 localizadas em Mato Grosso do Sul. Em apenas uma delas, a 262, que passa pelo Vale da Celulose, o registro de mortes de animais em colisão com veículos revela um desastre para a fauna: mais de 2 mil mortes por ano, média de 5,5 por dia, boa parte animais de grande porte, como a anta. "A fauna denota justamente esse desequilíbrio ambiental. É um momento em que o ecossistema não está dando mais conta de alimentar sua própria população."

A pesquisa também sistematiza um problema até então tratado de forma dispersa: a mortandade de polinizadores. O levantamento reúne registros de perdas de colmeias em diferentes municípios e assentamentos, associadas à deriva de agrotóxicos utilizados na silvicultura. Entre os casos documentados aparecem perdas de 120 e 82 colmeias em anos consecutivos no PA 20 de Março, em Três Lagoas, 160 caixas em Ribas do Rio Pardo, cerca de 290 caixas em Santa Rita do Pardo desde 2020 e episódios recorrentes no PA Alecrim, em Selvíria, desde 2014.

Um dos aspectos mais importantes da pesquisa é a cautela metodológica. Marine evita estabelecer relações causais absolutas. Embora uma pequena parcela dos eucaliptais, cerca de seis mil hectares, esteja em cima de áreas de vegetação nativa suprimida, em vez de afirmar que o eucalipto, isoladamente, seca nascentes, sustenta que sua expansão em larga escala, sobre um Cerrado previamente desmatado e sob condições climáticas naturalmente mais secas, constitui um dos principais fatores que intensificam a atual escassez hídrica. A força do estudo está no cruzamento entre imagens de satélite, observação de campo, dados hidrológicos e a percepção acumulada por moradores que acompanham a transformação da paisagem há décadas. É esse conjunto de evidências que sustenta a hipótese central apresentada pela pesquisadora.