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Comportamento

Isolada no andar do coronavírus, Thay espera resultado no Regional

Por Paula Maciulevicius Brasil | 31/03/2020 18:23
Thay escreve para desabafar, e para que as palavras lhe façam companhia. (Foto: Arquivo Pessoal)
Thay escreve para desabafar, e para que as palavras lhe façam companhia. (Foto: Arquivo Pessoal)

Jornalista, Thayara Barbosa tem 32 anos, um histórico de asma, e agora vive a agonia de saber se está ou não com coronavírus. Pertencente ao grupo de risco por conta de doenças respiratórias, é do 7º andar do Hospital Regional que ela faz seu relato. Thay, como é chamada, escreve para desabafar até que o resultado saia.

O isolamento social vinha em doses quase que diárias de gratidão por poder estar em casa em segurança, muitas horas na cozinha e momentos de: "isso é inimaginável!". Até que algo na minha saúde física começou a mudar, no 12° dia em casa, a crise de asma começa a dar sinais, junto de uma dor de cabeça forte... Falta de ar, tosse seca e febre! Opa, sinal vermelho, a febre não é tão comum em minhas crises. Emocional? Algo mais sério? Seguimos... 

No 15° dia de isolamento e febre persistente, achei melhor procurar ajuda médica. Teleconsulta,  orientação com corpo de bombeiros, reforço na medicação até a tão temida ida ao Pronto Socorro. 

Não teve jeito, o 17° dia virou isolamento hospitalar. A primeira sensação ao entrar no Hospital Regional de Mato Grosso do Sul é de impacto, de choque.  O espaço que antes tinha filas imensas para visitas e gente circulando deram lugar a uma operação de guerra. EPIs reforçadas, atendimento rápido e olhares tensos a cada tossida. Um ambiente bem diferente do que vi por anos como acompanhante por aqui. 

Entre os funcionários,  o questionamento sobre "quando, e, se" viveremos o que Itália, Espanha e EUA estão vivendo fica evidente nas falas e nos olhares angustiados, e mesmo assim, eles seguem à risca todos os protocolos. 

Thayara tem 32 anos e está dentro do grupo de risco para o coronavírus. (Foto: Arquivo Pessoal)
Thayara tem 32 anos e está dentro do grupo de risco para o coronavírus. (Foto: Arquivo Pessoal)

É difícil não falar do medo... Mesmo para quem está aqui há 10, 15, 20 anos o cenário é  inacreditável e a preocupação salta à todo momento. Logo na minha chegada fui encaminhada aos exames essenciais, tomografia e raio-x de tórax e pulmão.  Na sequência, o temido teste para o Covid-19. Com o perdão da palavra, um estupro nasal! Coleta de sangue e mais testes. O quadro da asma preocupante e a medicação entra em cena, azitromicina,  tamiflu,  remédio para dor (tentar respirar quando falta o ar é como um soco violento no peito a cada nova tentativa). É só esperar? 

Não, é observar cada sinal do corpo,  cada medida de proteção adotada pelos funcionários para manter a minha saúde e a deles. Paramentados,  me atendem pacientemente ali mesmo. A primeira noite foi longa, isolada com olhares atentos de longe e mais cuidados de quem podia se aproximar. Antes que o dia amanheça, mais uma experiência... Hora de ir para o primeiro quarto do isolamento.  Uma espécie de aquário, com duas portas para chegar até a maca, oxigênio (graças a Deus) paredes branquinhas e luz forte. Sem janelas, exceto pelos quadrados de vidro das portas, por onde os profissionais vigiam atentos. Quem está sempre de bom humor, com os olhos tenta me acalmar. Um residente vindo do interior em seu primeiro mês em Campo Grande ainda não conseguir se afastar do perímetro do hospital para desbravar a cidade grande... Acho que ainda vai demorar um pouco para que ele veja nossos shoppings e parques.  

Após o café da manhã, primeira sessão de medicamentos, inalação e banho, hora de mais uma mudança. 

"Você vai subir, mocinha". Eu: "subir? Não precisa, gosto do aquário!" 

"Entre um riso de tensão e outro, hora de conhecer o 7° andar... O andar do corona,  onde estão os pacientes aguardando resultado como eu. Cá estou, porta fechada, uma maca vazia ao lado, luz baixa e no corredor só o som da televisão, que vez ou outra tem o canal alterado e uma voz de fundo: "todos as notícias sobre coronavírus... Assusta, mas conforta". 

É o que eu sinto. Se acredito que o meu resultado vai ser negativo? A minha fé diz que sim. Como grupo de risco, é impossível não tremer na base diante do desconhecido. Enquanto espero, uma oração aqui, outra ali... Muitas mensagens e vídeo chamadas, mas essas já me pediram para não fazer, me cansa falar e sobrecarrega meu pulmão, que está com uma mancha e precisa de descanso! 

Amanhã tem mais!