Longe dos holofotes, músicos com muita história ganham retratos
Fotógrafa registra artistas e leva exposição com retratos a escolas para aproximar gerações
Enquanto a música ganha cada vez mais espaço nas redes sociais, muitos artistas de Campo Grande continuam fazendo o que sempre fizeram: tocando em bares, festas e eventos pela cidade. São cantores e instrumentistas com mais de 50 anos que mantêm vivos ritmos como chamamé, sertanejo raiz, bolero, samba e MPB. Foi de olho nesses músicos, muitos deles pouco conhecidos fora dos palcos, que a fotógrafa Charlene Bitencourt criou o projeto “Notas do Tempo”, reunindo retratos de cerca de 50 artistas da Capital.
Acostumada a fotografar crianças, Charlene resolveu mudar de público e conhecer melhor os músicos que fazem parte da história da cidade. “Eu achei muito legal a ideia porque saí um pouco da minha zona de conforto. A ideia do meu projeto foi lançar uma coisa bem oposta do que eu trabalho, que é o infantil, para trabalhar com uma galera acima de 50 anos”, conta.
A aproximação com a música começou depois que Charlene montou seu estúdio, no fim de 2020, durante a pandemia. Na época, ela ainda dividia a rotina entre a fotografia e o trabalho como corretora de imóveis. Aos poucos, a câmera ganhou mais espaço na vida profissional e, com o estúdio, vieram também os primeiros músicos interessados em fazer fotos. Foi assim que ela começou a conhecer melhor os artistas de Campo Grande.
Confira a galeria de imagens:
A ideia de criar o “Notas do Tempo” ganhou força a partir de uma conversa com a cantora Leca Harper, que incentivou Charlene a pensar em um projeto voltado a artistas que precisavam de mais visibilidade. A fotógrafa abraçou a sugestão e decidiu procurar músicos veteranos que continuavam na ativa, mas nem sempre eram conhecidos por quem não frequentava os mesmos ambientes.
Encontrar os personagens foi uma das etapas mais trabalhosas. Como muitos dos artistas não utilizam as redes sociais para divulgar o próprio trabalho, Charlene precisou descobrir onde eles se apresentavam e procurá-los pessoalmente.
Em vez de organizar ensaios tradicionais, ela foi até bares e eventos onde sabia que encontraria músicos com mais de 50 anos. Chegava, conversava com os artistas e explicava a proposta antes de fazer os registros.

“Muitos ficaram felizes ao perceber que alguém estava interessado em registrar e mostrar o trabalho deles. Eu encontrei cantores, bateristas, percussionistas e instrumentistas de diferentes estilos musicais. Não teve um gênero específico, mas muita gente do chamamé e do sertanejo raiz aparecem”, destaca.
Segundo ela, a intenção nunca foi reunir apenas nomes conhecidos. Pelo contrário, Charlene procurou pessoas que precisavam de uma oportunidade para apresentar o próprio trabalho a um público maior.
“Não foi procurar uma galera que já tem uma visibilidade muito grande, e sim buscar uma galera que precisava de um pouquinho mais de visibilidade”, explica.
Um dos aspectos que mais marcaram a fotógrafa foi a disposição dos músicos. Mesmo depois de décadas de carreira, eles continuavam demonstrando entusiasmo ao subir ao palco e compartilhar a música com o público.
“Eles têm uma alegria, uma energia que me impressionou. A gente fica horas ali tocando e eles estão com uma alegria, porque é algo que fazem com muito amor”, relata.

Para Charlene, acompanhar esses artistas foi uma oportunidade de conhecer pessoas que seguem dedicadas à música e encontram nela uma fonte de prazer, convivência e expressão cultural.
Da exposição às salas de aula - Depois de fotografar os artistas, Charlene levou o projeto até estudantes da rede estadual de ensino de Campo Grande. A proposta era aproximar os jovens de músicos que fazem parte da cultura local, mas que muitos deles ainda não conheciam.
A exposição passou por seis escolas e ela também levou câmeras antigas do acervo pessoal para mostrar aos alunos como a fotografia era feita antigamente e apresentou imagens impressas, tanto coloridas quanto em preto e branco. “Eles estão muito acostumados com as fotografias digitais. Então, foi legal também mostrar essa coisa da fotografia impressa, levar um pouco dessa cultura”, comenta.

A iniciativa também ajudou a apresentar músicos de diferentes gerações a um público que nem sempre frequenta os lugares onde eles se apresentam. Assim, as fotografias se tornaram uma ponte entre quem construiu parte da trajetória musical da cidade e quem ainda está descobrindo essa história. “É uma maneira de chamar a atenção para artistas que continuam trabalhando, tocando, mesmo depois de muitos anos de carreira. Isso é muito legal”, finaliza.
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