ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
OUTUBRO, SÁBADO  24    CAMPO GRANDE 24º

Comportamento

Na reta final da eleição, ansiedade vai além da disputa pelo voto

Expectativa pelo resultado pode provocar estresse, prejudicar sono e alimentar a busca incessante por notícias

Por Duda Schindler e Judson Marinho | 24/10/2026 08:13
Na reta final da eleição, ansiedade vai além da disputa pelo voto
Leitor acompanha notícias sobre política pelo celular. (Foto: Duda Schindler)

Acompanhar pesquisas eleitorais, conferir notícias em tempo real e discutir possíveis resultados fazem parte da rotina de quem aguarda a definição das eleições. A expectativa pode ultrapassar o interesse político e afetar o sono, a concentração e as relações pessoais, especialmente em um cenário de polarização.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

A expectativa pelas eleições pode afetar sono, concentração e relações pessoais, sobretudo em períodos de polarização. Especialistas associam a ansiedade à incerteza e alertam que a busca repetitiva por notícias e redes sociais pode prejudicar a rotina. Estudos nos Estados Unidos registraram aumento de hospitalizações cardiovasculares e arritmias após eleições. A recomendação é limitar a exposição, verificar a confiabilidade das informações e consultar fontes seguras.

Em Campo Grande, moradores ouvidos pelo Campo Grande News relatam diferentes formas de acompanhar a disputa. O comerciante Celso Henrique, de 54 anos, diz que espera o fim da polarização política no país. Ele acompanha as notícias pela internet e por veículos de comunicação, mas afirma que não sente muita ansiedade com a proximidade do resultado.

“O Brasil não pode ser esse racha, esquerda, direita. Eu acho que tem que ser um povo”, afirma Celso. Para ele, o debate político deveria priorizar propostas, em vez de ataques entre adversários.

Na reta final da eleição, ansiedade vai além da disputa pelo voto
Celso Henrique espera o fim da polarização política no país após as eleições de 2026. (Foto: Luiz Donizete)

O professor Jeferson Camargo Taborda, da Faculdade de Ciências Humanas da UFMS, explica que a expectativa eleitoral está ligada à incerteza sobre o futuro e ao medo de situações que fogem ao controle individual. “A expectativa pode ser definida como uma incerteza em relação ao futuro, e por isso tem relação direta com o medo”, afirma.

Segundo o professor, a falta de controle sobre acontecimentos considerados importantes pode provocar ansiedade, frustração e sensação de impotência. A forma de reagir, porém, varia de pessoa para pessoa e depende do histórico de cada uma ao lidar com situações de estresse.

Os efeitos do estresse em períodos eleitorais também podem afetar a saúde cardiovascular. Um estudo publicado em 2022 na revista científica JAMA Network Open, que analisou dados de 6.396.830 adultos vinculados a dois sistemas de saúde da Califórnia, nos Estados Unidos, identificou aumento de 17% nas hospitalizações por doenças cardiovasculares agudas nos cinco dias após a eleição presidencial de 2020, em comparação com o mesmo período duas semanas antes. Nos casos de infarto agudo do miocárdio, a alta foi de 42%.

Outra pesquisa, publicada em 2021 no Journal of the American Heart Association, identificou aumento de 77% na incidência de arritmias durante um período de seis semanas que incluiu a eleição presidencial norte-americana de 2016.

Para Taborda, os sinais iniciais de que a preocupação começa a interferir na rotina podem aparecer no comportamento cotidiano. “Alguns sinais podem ser o uso excessivo de redes sociais, não conseguir concluir tarefas comuns, desatenção e esquecimento com maior frequência”, explica.

Excesso de informação - A psicóloga Vitória Regina também chama a atenção para a busca repetitiva por informações. Segundo ela, acompanhar notícias, pesquisas e análises pode ser uma tentativa de reduzir a incerteza e recuperar a sensação de previsibilidade diante de um resultado que não depende da ação individual.

“Buscar informações pode funcionar como uma estratégia de regulação emocional: ao consultar notícias, pesquisas e análises, a pessoa tenta organizar o que está acontecendo e construir alguma compreensão sobre o que poderá vir a seguir”, afirma.

O problema, segundo a psicóloga, aparece quando a consulta se torna repetitiva. A pessoa verifica as atualizações, sente um alívio momentâneo e, pouco depois, volta a procurar novas informações. “A consulta produz um alívio momentâneo, mas esse alívio não necessariamente se mantém; logo surge a necessidade de verificar novas informações”, explica.

As redes sociais podem intensificar esse ciclo ao oferecer atualizações contínuas e recomendar conteúdos que mantêm o usuário conectado. Com isso, acompanhar a eleição pode ocupar momentos de descanso e dificultar a concentração em outras atividades.

Na reta final da eleição, ansiedade vai além da disputa pelo voto
Luiz Martins utiliza a internet para conhecer as propostas dos candidatos. (Foto: Judson Marinho)

O aposentado Luiz Martins, de 74 anos, conta que acompanha as eleições com frequência pela internet. Para ele, conhecer os candidatos e suas trajetórias é essencial antes de votar. “Você tem que conhecer os candidatos, saber qual o trabalho deles, o que fizeram pelo país, para você chegar lá e dar o seu voto”, afirma.

Já a vendedora Vanessa Teixeira, de 38 anos, acompanha a disputa pelas redes sociais e considera que o resultado terá impacto direto na vida da população. “É o voto que vai ajudar a decidir nossa vida”, diz.

Para Vitória, o desafio é encontrar uma forma de acompanhar os acontecimentos sem permitir que a busca por atualizações ocupe toda a rotina. “Estar continuamente exposto a informações não significa, necessariamente, conseguir compreendê-las ou atribuir sentido a elas”, afirma.

Taborda também recomenda atenção à confiabilidade das informações, especialmente diante da circulação de conteúdos falsos e de imagens e vídeos produzidos com inteligência artificial. A orientação é verificar a origem das publicações e buscar fontes confiáveis antes de compartilhar notícias.