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Comportamento

Magó deixou brasão em fachada e casa virou mistério no Coophasul

Imóvel esconde história do sargento escultor que morou na Capital e fez emblema da família húngara

Por Natália Olliver | 27/01/2026 07:10
Magó deixou brasão em fachada e casa virou mistério no Coophasul
Brasão da família hungara, Magyország Címer, está em casa no Coophasul (Foto: Natália Olliver)

Quem anda pelo Coophasul se pergunta o que significa o brasão no alto de uma casa vinho, na Rua Atílio Banducci. Dois leões apresentam um escudo com emblema húngaro e atraem, além de curiosos, admiradores do trabalho de um artista até então desconhecido. A história com a arte surgiu dentro de uma farda para José Rogério Magó, de 60 anos.

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O ex-militar José Rogério Magó, de 60 anos, é o artista por trás do brasão húngaro Magyország Címer, que chama atenção em uma casa no bairro Coophasul, em Campo Grande. O carioca descobriu seu talento para escultura após ouvir um chamado inexplicável que dizia "vai esculpir", quando enfrentava dificuldades financeiras. Sua carreira artística inclui obras importantes como esculturas no Colégio Militar de Campo Grande, o Guaicurus no Parque das Nações Indígenas e brasões para a Marinha do Brasil. Após 33 anos de serviço militar, Magó se aposentou em 2018 para reunir sua família na Hungria, retornando posteriormente ao Brasil, onde continua sua jornada artística em São Vicente.

O escultor é carioca, veio para a capital sul-mato-grossense em 2002 e ficou alguns anos até voltar ao Rio de Janeiro. Ao Lado B, ele volta no tempo para contar como tudo isso começou e por que deixou as peças na casa, que hoje é alugada. Os inquilinos não quiseram falar com a reportagem, mas explicaram que mantiveram as esculturas por serem bonitas e o brasão também simbolizar o sobrenome da família.

“Na verdade, só fiz esse brasão para  essa casa, nunca recebi encomendas desse tipo. Sou o escultor que fez as obras na porta de entrada do Colégio Militar de Campo Grande.  Ajudei o Sr. Anor Pereira na confecção do Guaicurus, no Parque das Nações Indígenas. No Rio, fiz muitos brasões de navios para a Marinha do Brasil e brasões para Organizações Militares. Esse da casa é da minha família, que é do sul da Hungria, chamava-se Magyország Címer”.

Magó deixou brasão em fachada e casa virou mistério no Coophasul
Magó deixou brasão em fachada e casa virou mistério no Coophasul
 José Magó esculpiu peças da casa vinho com brasão hungaro no Coophasul (Foto: Natália Olliver e aequivo pessoal)

José sempre foi dinâmico, como se descreve, e mexia com marcenaria na Praia Grande, (lugar onde estava antes de ir para São Paulo e depois Campo Grande). Os ganhos ajudavam nas despesas de casa. Quando mudou para cá, perdeu a fonte de renda extra. Até que algo que cabe só à fé dele aconteceu. Voltando do trabalho, ouviu uma frase curta, insistente, sem explicação que dizia: “Vai esculpir”.

“Perdi rendimentos e aumentei as despesas. Comecei a viver de empréstimos para fechar o mês. Pensei ser algo da minha imaginação, pois não sabia nada dessa área. Passados outros tantos dias, voltei a escutar a mesma mensagem da mesma forma e então tive dúvidas e não iria esperar ouvir pela terceira vez, fui esculpir”.

O militar se fechava no quarto depois do trabalho e treinava as técnicas. Ao todo, foram meses tentando. No sexto mês, Anor Pereira viu nele o potencial de um artista e pediu para José arrumar umas patas de cavalo em miniatura.

“Tive que me adequar, mudei de material, saí da massa de plastilina e fui para a cera, sabia que os ourives faziam anéis com ótimo acabamento com a cera. Passados alguns dias fiz as patas e colei no cavalo. O Sr. Anor gostou tanto que me fez um pedido: fazer um Guaicurus atado àquele cavalo. Aceitei o desafio com pouca experiência e muita vontade”.

Magó deixou brasão em fachada e casa virou mistério no Coophasul
Magó deixou brasão em fachada e casa virou mistério no Coophasul
Obra foi feita em 2021, na casa onde ele morava no bairro Coophasul(Foto: Natália Olliver)

Satisfeito com o resultado, Anor pediu para ele produzir mais e vender, mas José não tinha condições e o sonho ficou engavetado. A nova chance veio apenas no final do ano com o 13º salário. O que sobrou da quantia, R$ 157,00, foi investido e deu um retorno que ele não esperava.

“Foi o suficiente para comprar o material para fazer algumas peças, como não havia pedido de ninguém, fiz uma peça por ordem do Sr. Anor e entreguei na loja Barro Artes. Uma semana depois, o dono foi em minha casa e me pediu mais quatro esculturas. Foi um dia de felicidade”.

A peça do cavalo com o indígena chamou atenção de um comandante da hípica do 20º Regimento de Cavalaria Blindada. Na época, o capitão se assustou com o dom de José e pediu que fizesse troféus para uma competição.

“Não tive mais tempo para treinar a escultura, era tanta preocupação em entregar, tanto trabalho, uma correria que nem percebi que eu não sabia nada de escultura. O pessoal fazia o pedido do que queriam e eu entregava”.

Vieram troféus para competições estaduais, pedidos sucessivos, trabalhos enviados para outros estados. O treino acabou sem aviso. O aprendizado passou a ser no prazo, sob pressão, com entrega marcada. As esculturas começaram a circular por lojas, instituições e quartéis. Vieram temas simbólicos como a escultura de 200 anos do General Osório, do Marechal Rondon, o jacaré pantaneiro armado de fuzil no Comando Militar do Oeste.

“Nessa época fiz escultura de encerramento da missão militar antártica PROANTAR, mascote para missão Haiti. Fiquei conhecido como sargento escultor no Rio, único lugar dentro do Exército onde trabalhos artísticos existem”.

“Sem saber ao certo como fazer, fazia. Primeira missão, algo quase impossível a um aprendiz de miniatura: fazer um monumento com quatro metros de altura. Como a demanda no quartel era muito alta para bustos de autoridades, era necessário abraçar mais esse desafio".

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Ele passava as tardes e os finais de semana copiando os bustos já feitos. "Lembro do primeiro trabalho, eram marechais, generais, coronéis. Era muito trabalho, não tinha tempo de pensar se sabia fazer, eu simplesmente fazia”.

Após 33 anos de serviço, já subtenente, Magó pediu baixa em 2018. Não por cansaço, mas por família. Os filhos viviam em cidades diferentes da Hungria. Era hora de juntar todo mundo sob o mesmo teto. Saiu do Brasil, mas a escultura não saiu dele.

“Foram nove anos maravilhosos, filhos crescidos. Fui chamado a ser o elo aglutinador da família, meus filhos vivendo em lugares diferentes num país ainda estranho. Eles precisavam estar em uma mesma casa, solicitei minha baixa. A escultura, o dom, ainda anda comigo e eu sou agradecido a Deus por essa divina oportunidade de servir”.

Um ano depois, voltou e se instalou em São Vicente, litoral de São Paulo, onde faz curso de artes.