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Campo Grande, Domingo, 21 de Abril de 2019

19/03/2019 09:04

Mariana partiu aos 22 anos, mas teve festa de aniversário cheia de lembranças

A imagem da "menina dos olhos claros, alegre e vaidosa" também virou tatuagem.

Kimberly Teodoro
Mariana Morel partiu cedo, mas deixou lembranças silenciosas de sua passagem. (Foto: Arquivo Pessoal)Mariana Morel partiu cedo, mas deixou lembranças silenciosas de sua passagem. (Foto: Arquivo Pessoal)

Mariana Morel partiu cedo, mas deixou pela casa as lembranças silenciosas da sua passagem. Os retratos na parede mostram uma menina sorridente de cabelos vermelhos que encara os visitantes com o olhar de quem nunca teve medo da vida e sempre soube celebrá-la, imagem eternizada na mente de quem chegou a conviver com ela e que de tão inspiradora, levou a mãe e o irmão a marcarem na pele, em formato de tatuagem, o amor pela jovem.

Para a família, esta segunda-feira (18) teve significado duas vezes especial. Além do dia da semana em que costumavam passar juntos, também foi a data em que Mariana completaria 22 anos. Ao entardecer, iluminados pela luz dos últimos raios de sol, 150 balões brancos encheram o céu com mensagens de amor transformadas no adeus que os familiares e amigos não tiveram tempo de dar.

Pouco antes da homenagem, a mãe Silvana Morel, de 48 anos, e o pai Afonso Pereira Lira, de 55 anos, se preparam para receber os convidados e trazem de volta a presença da filha em memórias e saudade. “Ela sempre gostou do movimento, desde criança ela gostava de chamar a atenção e interagir com as pessoas. Nós sempre tivemos lanchonete, quando criança a Mariana adorava dançar aquelas músicas da Rouge e atraia todos os olhares de quem estava nas mesas em volta e nunca teve vergonha”, relembra Silvana.

Com os objetos favoritos de Mariana, um memorial foi montado na entrada da casa (Foto: Kísie Ainoã)Com os objetos favoritos de Mariana, um memorial foi montado na entrada da casa (Foto: Kísie Ainoã)
150 balões brancos foram em direção ao céu com mensagens de amor e carinho da família e amigos de Mariana (Foto: Kísie Ainoã)150 balões brancos foram em direção ao céu com mensagens de amor e carinho da família e amigos de Mariana (Foto: Kísie Ainoã)

Mariana mantinha uma conta no Instagram e um canal no Youtube, com centenas de seguidores, principalmente adolescentes que se inspiraram nela, mas há 5 meses a digital influencer teve os sonhos interrompidos de maneira inesperada, depois de uma inflamação no pâncreas, que em 3 dias a levou à morte. Em sua última postagem, o que surge é a tatuagem feita com a mãe, as frases “amor que não se pede” e “amor que não se mede”. “Esse aqui é o amor mais poderoso do mundo. O de mãe e filha! Minha melhor amiga, te amo!”, postou.

Tatuagem feita por mãe e filha (Foto: Arquivo Pessoal)Tatuagem feita por mãe e filha (Foto: Arquivo Pessoal)
Além da homenagem feita em vida, Silvana também registrou a passagem da filha pela terra pouco tempo depois (Foto: Kísie Ainoã)Além da homenagem feita em vida, Silvana também registrou a passagem da filha pela terra pouco tempo depois (Foto: Kísie Ainoã)

Sem se intimidar com a equipe de reportagem, Pinguinha a gata que Mariana adotou ainda criança chega de mansinho, antes de tomar as atenções para si com um miado arrastado, profundo e muito parecido com um lamento. De acordo com Silvana, a gata nunca mais entrou no quarto da dona, mesmo com todos os móveis dispostos exatamente no mesmo lugar. “Um mês antes de tudo o que aconteceu, ela começou a seguir a Mariana para onde quer que ela fosse, desde pequena ela sempre foi muito apegada e as duas até dormiam juntas. Quando ela saía de casa a gata parecia chamar de volta, em um miado muito parecido com esse. Levamos a Pinguinha ao veterinário, fizemos exames, mas não era nada físico, só entendi que ela estava se despedindo muito tempo depois”.

No braço esquerdo, Renato leva uma reprodução da primeira tatuagem feita por Mariana (Foto: Kísie Ainoã)No braço esquerdo, Renato leva uma reprodução da primeira tatuagem feita por Mariana (Foto: Kísie Ainoã)
Renato e a gata, Pinguinha que quase participa da conversa com seus miados únicos (Foto: Kísie Ainoã)Renato e a gata, Pinguinha que quase participa da conversa com seus miados únicos (Foto: Kísie Ainoã)

Pouco tempo depois de Pinguinha, quem chega é o irmão de Mariana, Renato Morel. Ali, sob o olhar alegre das fotos da irmã penduradas na parede, se senta no sofá e é logo recebido pela gata. No braço esquerdo de Renato, um balão traçado em tons de azul, vermelho, amarelo, preto e branco, acompanhado da palavra “freedom”, liberdade em inglês. Ao lado, como um acréscimo ao desenho original, o nome da irmã e data em que ela deixou esse mundo. “Essa foi a primeira tatuagem que a Mariana fez, um dia antes de completar 18 anos. No dia do enterro dela, eu reproduzi o desenho como uma forma de marcá-la na minha pele”. Quase 10 anos mais velho que Mariana, Renato é a figura de irmão protetor, que enquanto os pais trabalhavam na lanchonete até de madrugada, foi o responsável por impedir a irmã “cabeça quente e teimosa” de aprontar.

Afonso ouve a conversa com lágrimos nos olhos, mais calado que a esposa, para ele a principal lembrança da filha era a importância que dava à família. “Ela marcava presença na casa toda, assistíamos a TV juntos, almoçávamos juntos, saíamos e fazíamos viagens juntos. Ela nunca foi uma menina de ficar trancada no quarto escondida das pessoas, ela tinha a hora de fazer as coisas dela, mas estávamos sempre juntos”, conta.

Pela união, o aniversário de 15 anos de Mariana marcou a família que se lembra com orgulho da decisão da adolescente de trocar a tão sonhada viagem para a Disney pelo Rio de Janeiro, para que ninguém precisasse ficar para trás. “Ela falava em conhecer a Disney desde os 12 anos, juntamos dinheiro, mas pelo valor o combinado é que ela iria sozinha. Nós pagaríamos uma excursão e ela iria sozinha, quando chegou a época de organizar as coisas, ela me procurou e disse que não queria ir, que só viajaria se pudéssemos ir, então ela resolveu conhecer o Rio de Janeiro”, conta Silvana.

Com lágrimas nos olhos, Afonso trás de volta as lembranças da filha (Foto: Kísie Ainoã)Com lágrimas nos olhos, Afonso trás de volta as lembranças da filha (Foto: Kísie Ainoã)

Os dias longe de Mariana tem sido cinzentos, o ânimo que Silvana tinha em acordar cedo, preparar o café da manhã e acompanhar a filha a academia parece ter desaparecido. Hoje, ela e o marido ficam na cama até mais tarde, sem vontade de sequer abrir as cortinas e ir em frente. Cercados pela dor, o casal ainda busca entendimento em tudo o que aconteceu, além da saudade, resta a gratidão pelo pouco tempo em que tiveram a tão esperada “menina dos olhos claros” em suas vidas.

Silvana teve Renato ainda jovem, aos 16 anos e para ela era importante planejar o futuro com cautela, por isso ela e a Afonso escolheram ter apenas dois filhos. “Durante a gravidez, a Silvana estava ansiosa, porque queria muito uma menina e logo após o parto ela já faria a laqueadura e não poderia mais ter filhos. Ela ficou muito preocupada e mal dormiu na noite anterior ao ultrassom, mas eu tinha certeza de que seria a minha menina de olhos claros”, afirma Afonso.

Silvana planejou ter 2 filhos, depois de Renato, sonhava em ter uma menina (Foto: Kísie Ainoã)Silvana planejou ter 2 filhos, depois de Renato, sonhava em ter uma menina (Foto: Kísie Ainoã)

Por poucos segundos, a família parece completa como se Mariana fosse entrar pela porta a qualquer momento e continuar a narrativa por conta própria. Com um estilo “It girl” inconfundível, Mariana sempre foi apaixonada por moda, costumava acompanhar blogueiras de São Paulo e do Rio de Janeiro, cidades em que sempre sonhou em morar e usar as tendências pelas ruas de Campo Grande, muito antes que as peças estivessem em evidência por aqui também. Vaidosa, ela escolheu transformar a dedicação a própria beleza em profissão e em janeiro do ano passado se formou em Estética, mesma época em que começou a fazer planos para morar fora com o namorado, Silvana conta que o plano dos dois era ir trabalhar nos Estados Unidos, onde ela realizaria também o desejo de cursar moda e viver disso.

A penteadeira em que Mariana gravava os vídeos e se arrumava para sair de casa continua intacta (Foto: Kísie Ainoã)A penteadeira em que Mariana gravava os vídeos e se arrumava para sair de casa continua intacta (Foto: Kísie Ainoã)

Todos os anos, o dia 18 foi um dia em que a celebração e a alegria eram obrigatórios, Silvana sempre cuidou de cada detalhes das festas, planejando a decoração e enchendo as mesas dos docinhos favoritos de Marina.

Pela primeira vez, a data pareceu uma lembrança distante para a família, que ainda assim resolveu não deixar passar em branco e reunir gente querida para agradecer a existência da jovem, sob os olhos da imprensa e cliques dos smartphones, tudo da maneira como ela mesma teria feito. “Eu acredito que de onde ela está, ela sente tudo o que eu faço, estou fazendo para ela, para a família e para os amigos, para todos que gostavam dela”, diz a mãe, deixando claro que ainda faltam muitos aniversários para ela, quem sabe, superar a perda.

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