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Campo Grande, Quarta-feira, 22 de Maio de 2019

26/12/2018 08:41

Melhor Natal da vida chegou no lugar bem improvável: na clínica de reabilitação

Thailla Torres
Polyana e o irmão, juntos na clínica durante a ceia de Natal.Polyana e o irmão, juntos na clínica durante a ceia de Natal.

Um dia depois do Natal, o Voz da Experiência de hoje é de uma campo-grandense que após anos vendo o irmão caçula usar drogas, em uma batalha de altos e baixos, abriu mão de toda família para celebrar o Natal ao lado dele, dentro de uma clínica de reabilitação e ao lado de outros familiares, na maioria mulheres, que demonstram uma força sobrenatural. Como no NA (Narcóticos Anônimos) a principal regra é preservar o anonimato. Por isso, usamos nomes fictícios.

Ana tem 33 anos, é mãe, jornalista e há anos luta pelo irmão, de 24, que foi consumido pela dependência química. Depois de várias tentativas em parar com as drogas, o pedido de socorro veio dele e o apoio incondicional é da irmã. Enquanto muita gente parece ter jogado a toalha, Ana segue firme, na esperança de ver o irmão dar um novo passo, livre da dependência.

"Respirei fundo com a expectativa de tentar segurar o choro e começar a escrever, mas não consegui. Existem lembranças das quais eu queria esquecer porque nunca queria ter vivido, que me rasgam por dentro. Quando vi que a tristeza estava tomando conta, peguei as rédeas e controlei a situação. Enxuguei as lágrimas, dei dois tapas de leve no meu rosto e falei para mim mesma: Este Natal você vai passar numa clínica de reabilitação com seu irmão.

Nunca imaginei passar por um momento como esse na minha vida. E falo isso porque poucos sabem como é o meu irmão. O meu pretinho é o caçula de três filhos e desde pequeno vi que era um cara especial. Simpático, educado, engraçado, do bem, incapaz de fazer mal a qualquer pessoa.

De nós três, ele foi o que teve mais oportunidades e sempre aproveitou. Desde criança era um dos melhores alunos da sala, nadava maravilhosamente bem e jogava basquete tão bem que chegou a ser da Seleção Brasileira Sub 17. Devorava livros e falava inglês fluente aos 14 anos ouvindo músicas e aprendeu sozinho. Pensava em fazer intercâmbio. Não tinha quem não gostasse dele. Um cara lindo por fora e por dentro.

Fui eu quem o levei pela primeira vez ao cinema e o acompanhava em todos os "Harry Potter" e "Toy Story". Éramos grudados. Contávamos tudo um ao outro. Mostrava as minhas músicas e ele me contava todas as suas descobertas, histórias e momentos. Era por ele que eu não sossegava até ficar na primeira fileira quando ele jogava ou nadava.

E foi por ele que tomei coragem e o levei de surpresa para uma reunião, onde me tornei membro do NA (Narcóticos Anônimos), foi por ele que pesquisei, conversei e fui atrás da melhor forma de ajudá-lo. Por ele pesquisei e entendi sobre tudo aquilo ele estava vivendo.

O dia em que olhei no olhos dele e falei: “Preto, eu sei que você não está totalmente perdido, mas o fato é que você está patinando há anos e não sai do lugar, por isso, você precisa ser internado. Você precisa desse tempo para se encontrar”, foi sem dúvida o dia mais triste da minha vida. Era uma dor tão grande, que sabia que algo dentro de mim havia morrido.

O dia que o deixamos na comunidade fiquei sem chão. De lá pra cá, são sete meses de uma nova chance que ele se permitiu e agarrou com unhas e dentes, nos enchendo de orgulho com sua força e determinação.

Em uma das visitas, ele me falou que passaria o Natal internado. Brinquei com a situação para amenizar o momento, tiramos sarro daquilo tudo e rimos muito. Ao sair, falei para ele ficar tranquilo que estaria lá. Ao entrar no carro chorei por horas, compulsivamente. Chorava por culpa, frustração e ódio, mas jamais o abandonaria. Nossa mãe e irmão moram fora de Campo Grande, também sofreram por não estar lá conosco naquele momento.

Na noite de Natal, cheguei na comunidade faltando dez minutos para abertura dos portões. Ao entrar, fiquei encantada. A decoração estava linda. Próximo da entrada uma árvore de Natal com luzes, as mesas do refeitório com toalhas douradas e vermelhas, uma mesa de frutas farta e a piscina com as luzes acesas. Em seguida, vi meu irmão e subimos para uma varanda. Cumprimentei alguns internos que estavam e vi a ansiedade deles para encontrar seu familiares, na visita permitida das 20h até 1h.

As famílias foram chegando e o clima era de tanto amor que, por diversos momentos esqueci onde estava. Por volta das 22h, os familiares foram chamados ao refeitório para iniciar as apresentações. As mesas estavam cheias. Vieram mães, pais, avós, irmão, filhas, sobrinhos e netas. Era só eu e meu irmão na nossa mesa.

Quando olhei aquilo bateu uma tristeza, mas ao virar para o lado vi uma mesa com alguns internos sozinhos, sem ninguém da família. Os convidei para sentar conosco.

Depois de vídeo de reflexão, um dos internos desejando Feliz Natal e Ano Novo para os familiares, apresentação de teatro e as falas. Entre os depoimentos, uma mãe me chamou atenção dizendo: “Ano passado,  eu estava com meu filho aqui. Olhava para os lados e pensava que eu queria estar em outro lugar, vivendo uma outra história, outro momento"

Chorei com as palavras porque é exatamente o sentimento que eu tenho. Me culpo por isso. Amo meu irmão, mas não queria estar vivendo aquilo. Não era o Natal que planejei em algum momento da nossa vida.

Enquanto ela contava a história, eu me identificava, pensando onde foi o erro, onde não vimos tudo acontecer. Quando estava perdida em meus pensamentos, ouvi: “Meu filho saiu no meio deste ano e está bem. E neste ano, quando pensei onde passaria o Natal, não tive dúvidas: chamei meu filho e falei que iríamos passar aqui. Eu poderia ir para qualquer lugar, mas aqui meu filho foi tratado e salvo. É aqui que sou grata, e por isso fiz questão vir”.

Meu irmão segurou a minha mão forte emocionado. Nos olhamos por um tempo e minha ficha caiu. Toda aquela “pena” que sentia dessa situação evaporou dando lugar ao alívio e muito orgulho. Meu irmão é forte por assumir seus erros e está disposto a melhorar. Meu irmão sabe que pode contar comigo e com a nossa família. Agradeci por estar ali, pela oportunidade que meu irmão estava tendo e pelo momento que vivi.

Dali em diante só chorei de rir. A tristeza foi embora e pude  curtir o dia 24 e o dia 25 sem disfarçar a tristeza. Três amigos que moram fora do Estado, dois tios e uma tia, também o visitaram no dia 25. Ele ficou muito feliz e na despedida, me deu o abraço mais gostoso do mundo, com um 'eu te amo'.

Se você me perguntasse como foi o meu Natal, eu diria: um dos mais bonitos da minha vida. E se depender de mim, em 2019, passarei o Natal com ele novamente na clínica, mas para falar sobre sua recuperação e mostrar a todos que somos uma família."

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