Mesmo com piadas, "João Laranjeiro" resiste há 52 anos vendendo fruta
Quando menino, as crianças riam do comerciante por empurrar um carrinho pelas ruas com morangos
João Laranjeiro, ou melhor, João Vicente Ferreira, de 65 anos, é quase um patrimônio da Avenida Afonso Pena. Por lá desde 1972, ele viu de perto o centro da cidade mudar enquanto vendia frutas nas calçadas. O apelido era para ser uma ofensa quando ele era mais jovem, mas João nunca se importou. Enquanto a gurizada ria dele empurrando um carrinho, ele fazia dinheiro e a fama de bom vendedor de frutas.
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O engraçado é que o apelido não fazia sentido, porque João nunca vendeu uma laranja sequer. Enquanto embala caquis, ameixas e peras, ele conta como as coisas eram no passado e porque ainda resiste fazendo o que faz.
Tudo começou com o pai, que também vendia frutas na rua. Desde os 7 anos, João aprendeu que, para alguns, a infância não valia de nada, senão de ajudar no trabalho. Aos 12 anos, começou a vender de fato.

Como seguia o pai para cima e para baixo, ele não teve tempo de estudar ou se especializar em alguma área. A vontade era ganhar a vida com as frutas. Para surpresa de muitos, a aposta que o pai fez nele deu certo.
“Comecei na Rua Dom Aquino, quando tinha um cinema, perto das Americanas. A prefeitura era na Calógeras com Afonso Pena. Eu ficava bem na frente do café que tinha. A minha infância foi trabalhando, não tive infância, não tive estudo. Naquela época, meu pai não tinha condições de dar estudo pra gente”.
A rotina era um mapa de cansaço. Morador das Moreninhas desde 1973, ele atravessava a cidade até a região da Cidade Universitária para pegar o ônibus que o levaria ao Centro. De lá, o destino era a "Feira do Sapo", que acontecia no Mercadão Municipal, quando o Ceasa ainda não existia.
João tomou gosto pela coisa e, assim que saiu do serviço militar, ganhou do pai um carro para trabalhar. Isso foi a virada de jogo, que veio em 1981. Com a carteira de motorista na mão e uma Kombi velha presenteada pelo pai, João começou a levar mais mercadoria para as ruas. Lotava o veículo de melancia, de abacaxi e morango. Inclusive, esse era o carro-chefe. Chegou a viajar até Pouso Alegre, em Minas Gerais, para buscar a mercadoria que a cidade ainda não conhecia bem.
“Vendia a R$ 1,50, e saía tudinho. Mas dava muito trabalho nessas viagens, aí parei”. Na era de ouro do comércio ambulante, João chegava a fazer dois salários mínimos por dia. "Era muito dinheiro. O valor eu investi em casa. Construí tudo com a fruta. Hoje, eu não conseguiria".
Atualmente, o movimento na Afonso Pena é mais rápido e menos lucrativo. Os sacolões e supermercados tomaram o espaço que antes era das frutarias na rua mesmo. Mesmo assim, João permanece lá, vendendo ameixas, pêssegos, uvas, morangos e goiabas. A aposta que fez anos atrás em frutas leves deu resultado. João viu a cidade mudar, enfrentou o período em que a fiscalização levava a mercadoria e o prejuízo era sem volta.
“Naquela época, chamei um monte de gente para vender fruta, falei que dava dinheiro e a molecada não acreditou, tinha vergonha de empurrar carrinho na rua. Eu não, todo dia ia ganhar meu dinheiro. O mercado não vendia fruta nem verdura, isso era na rua. Buscamos na roça e vendíamos e eles entregavam no mercadão. Hoje vende de tudo. Nem sacolão não tinha, era frutaria de frutas e verduras”.







