ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
JUNHO, QUINTA  04    CAMPO GRANDE 22º

Comportamento

Na prisão, Maykelly precisou deixar de ser mulher para sobreviver

Mulher trans, Maykelly precisou esconder quem era para sobreviver dentro do sistema prisional

Por Clayton Neves | 04/06/2026 09:00


Durante anos, Maykelly Mendonça viveu uma contradição dentro da prisão: para sobreviver, precisou esconder justamente quem era. Mulher trans, entrou no sistema prisional em 2014 e encontrou um ambiente onde maquiagem, roupas femininas e a própria identidade não tinham espaço.

“Foram tempos bem difíceis. A gente não podia se maquiar, não podia usar roupa feminina. Eu tinha que ser o que não era aqui dentro”, relembra.

Hoje, aos 35 anos, ela atravessa o corredor do presídio maquiada, de unhas feitas e trabalha em um salão de beleza criado especialmente para profissionalizar pessoas LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) privadas de liberdade. O espaço, inaugurado através do projeto “Expressão da Liberdade”, virou símbolo de uma mudança que ela nunca imaginou viver atrás das grades.

Na prisão, Maykelly precisou deixar de ser mulher para sobreviver
Salão representa autoestima e possibilidade de recomeço. (Foto: Osmar Veiga)

“Hoje eu posso ser quem eu sou”, afirma. Para ela, a frase vem carregada de peso por ser alguém que cresceu tentando entender o próprio lugar no mundo. Maykelly conta que desde criança já se reconhecia como menina. Aos 15 anos começou a se vestir socialmente como mulher e, apesar do apoio da família, enfrentou o preconceito que acompanha muitas travestis desde cedo.

“Você entra num lugar e sente todo mundo olhando. Você acha que é diferente, que não pertence. Até entender que você é um ser humano igual qualquer outro”, pontua.

Mesmo com acolhimento familiar, a realidade fora de casa nunca foi simples. Como tantas mulheres trans, acabou encontrando na prostituição um caminho de sobrevivência. Depois veio o vício em drogas e, junto dele, o envolvimento com o crime.

Na prisão, Maykelly precisou deixar de ser mulher para sobreviver
Salão foi montado no Instituto Penal de Campo Grande. (Foto: Osmar Veiga)

“Foi o vício que acabou me levando. Você começa a deixar passar oportunidade, vai entrando no tráfico, no roubo, e quando vê está aqui dentro”, lamenta.

Consciente das escolhas erradas e pagando por seus erros, Maykelly conhece cada transformação ocorrida no Instituto Penal ao longo da última década porque viveu todas elas.

A mudança começou aos poucos, com a criação de alas específicas para a população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais), projetos de ressocialização e, mais recentemente, o salão de beleza construído dentro da unidade, sem uso de dinheiro público e com apoio de parceiros.

Na prisão, Maykelly precisou deixar de ser mulher para sobreviver
Local oferece curso e atendimento para outros presos. (Foto: Osmar Veiga)

O local oferece cursos profissionalizantes, atendimento aos outros presos e remição de pena para mulheres trans custodiadas na unidade. De segunda a quinta-feira, elas trabalham atendendo outros internos. Já às sextas-feiras, o salão fica reservado para que elas próprias possam se arrumar antes das visitas do fim de semana.

Para Maykelly, o projeto vai além de aprender a cortar cabelo ou fazer unha. “Esse salão faz a gente enxergar que existe vida lá fora. Que eu posso sair daqui e ser cabeleireira, trabalhar honestamente, ter uma profissão”, destaca.

Ela acredita que o projeto também mudou a forma como os outros presos enxergam as mulheres trans dentro da unidade. “Antes a gente praticamente não existia. Hoje eles querem vir aqui cortar cabelo, conversam com a gente. O convívio mudou muito”, avalia.

Na prisão, Maykelly precisou deixar de ser mulher para sobreviver
Estrutura foi montada pelo Instituto Ação pela Paz. (Foto: Osmar Veiga)

A própria rotina dentro da prisão ganhou outro significado. Maykelly explica que ocupar a mente faz diferença dentro de um ambiente onde o confinamento constante costuma alimentar conflitos, ansiedade e violência. “Você ficar 24 horas preso dentro de uma cela faz a cabeça pensar só coisa ruim. Aqui a gente trabalha, aprende, ocupa o tempo. Isso transforma”, relata.

Ela também percebe uma redução na reincidência entre travestis que passaram pelo projeto. E mesmo com o preconceito que existe do lado de fora, ela diz acreditar que iniciativas como o “Expressão da Liberdade” ajudam a quebrar um ciclo histórico de exclusão.

“Antes as meninas saíam e voltavam em poucos meses. Hoje muitas não voltam mais porque começaram a enxergar outras possibilidades. Infelizmente muita gente acha que travesti só serve para fazer programa. Aqui a gente aprende que pode fazer cabelo, unha, trabalhar, ter profissão. Isso muda a nossa cabeça”, finaliza.

Na prisão, Maykelly precisou deixar de ser mulher para sobreviver
Mesmo na prisão, novas possibilidades são apresentadas para as internas. (Foto: Osmar Veiga)

Ao redor dos secadores, maquiagens e esmaltes espalhados pelo salão recém-inaugurado, outras mulheres trans também começam a reconstruir a própria autoestima. Kelly Patrícia, de 25 anos, lembra que chegou ao presídio em uma época em que mulheres trans eram constantemente reprimidas.

“A gente não podia usar uma roupinha diferente. Agora, quando eu vi esse salão funcionando, fiquei encantada. Porque é uma oportunidade que a gente nunca teve”, compara.

Natural de Terenos, Kelly já tem cursos na área da beleza e pretende ensinar outras internas. “Se precisar, eu dou aula para as meninas. Eu sei que melhor coisa que existe é trabalhar e ter oportunidade”, destaca.

Já Valéria Cavalcante, de 24 anos, conta que quando tudo era planejamento, sequer acreditava que o salão sairia do papel. “Eu pensava que nunca ia acontecer”, conta.

Hoje, ela trabalha diariamente no espaço atendendo presos, organizando materiais e ajudando nos cuidados de beleza das colegas. “Eu venho para cá com amor”, explica. Ela relata ainda que o contato com os outros internos ajudou até a diminuir preconceitos.

Natural de Porto Velho (RO), Valéria também conhece a realidade de outros presídios brasileiros e lembra das humilhações que sofreu anteriormente. “Eu já tive cabelo raspado dentro de cadeia. Diziam que cabelo cresce, mas aquilo era humilhação. Aqui estou tendo oportunidade e posso ser quem eu sou e até andar maquiada”, explica.

A psicóloga Patrícia Gabriela Magalhães, responsável pelo desenvolvimento do projeto, explica que o salão surgiu após as próprias internas questionarem quais oportunidades reais existiam para elas dentro e fora do cárcere.

“Eu falava para elas procurarem outra perspectiva de vida, outro caminho. E elas questionavam sobre quais oportunidade existiam para elas. Ou seja, não bastava só falar sobre mudança. Elas precisavam viver essa mudança”, pontua.

Na prisão, Maykelly precisou deixar de ser mulher para sobreviver
Cursos e dias trabalhados dão direito a reincidência de pena. (Foto: Osmar Veiga)

Para além da estética, segundo a psicóloga, o salão foi pensado para criar um espaço de profissionalização, acolhimento e transformação diária dentro da prisão. “O salão não é sobre vaidade. É sobre pertencimento, trabalho, humanidade e possibilidade de futuro”, detalha.

Ela explica que o projeto foi estruturado pelo Instituto Ação pela Paz e voluntários para atender 21 mulheres trans e travestis custodiadas na unidade. Ao longo do ano, elas terão acesso a cursos profissionalizantes em parceria com instituições e com o Sistema S, incluindo cabeleireiro, manicure, design de sobrancelha, depilação e técnicas de beleza.

Cinco internas trabalham diretamente no salão, enquanto as outras participam das capacitações e atividades ligadas ao projeto.

Além da formação profissional, o trabalho garante remição de pena. Cada três dias trabalhados equivalem à redução de um dia da pena, enquanto os cursos também contam para remição por estudo.

Na prisão, Maykelly precisou deixar de ser mulher para sobreviver
Atualmente Instituto Penal tem 62 presos LGBTs. (Foto: Osmar Veiga)

Hoje, o Instituto Penal tem 62 presos LGBTs, sendo 21 mulheres trans e travestis. Para o diretor da unidade, Plínio Muller Lopes, oferecer profissionalização significa abrir uma porta para pessoas historicamente excluídas do mercado de trabalho.

“A gente sabe da dificuldade que uma mulher trans enfrenta para conseguir emprego. Então, quando ela aprende uma profissão, começa a enxergar outro futuro”, afirma.

Plínio lembra que o projeto não tem aplicação de dinheiro público e que a intenção da direção é mantê-lo funcionando de forma permanente dentro da unidade e ampliar gradualmente o número de internas atendidas.

“É uma iniciativa do sistema prisional em não falhar com a ressocialização. A gente precisa continuar buscando isso”, completa.

Assim como as amigas, Maykelly também tenta imaginar esse futuro. Distante da ficha criminal e mais perto da profissão aprendida no salão. “Isso aqui muda nossa vida de verdade. Pela primeira vez, a gente consegue acreditar que pode sair daqui e ser alguém”, finaliza.

 Acompanhe o Lado B no Instagram @ladobcgoficial, Facebook e Twitter. Tem pauta para sugerir? Mande nas redes sociais ou no Direto das Ruas através do WhatsApp (67) 99669-9563 (chame aqui).

Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para entrar na lista VIP do Campo Grande News.