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Campo Grande, Sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2020

25/12/2019 07:05

Não existe Natal para quem viu o filho morrer de graça no dia 25 de dezembro

Marli chora ao narrar o último dia de vida do filho que não chegou para a ceia do Natal

Thailla Torres
Marli, aos 65 anos, é uma mãe que espera, mesmo na imaginação, olhar para o filho. (Foto: Paulo Francis) Marli, aos 65 anos, é uma mãe que espera, mesmo na imaginação, olhar para o filho. (Foto: Paulo Francis)

“Na véspera, meu filho estava feliz com a nossa ceia de Natal. À noite, a caminho da festa, levou um tiro de graça. No outro dia, recebemos a declaração da morte dele”.

Na voz de Marli dos Santos, o relato de 24 e 25 de dezembro de 2015, últimos dias de vida de Wendell Lucas dos Santos, ainda martela dentro da cabeça. O filho foi baleado na nuca, na véspera de Natal, em frente a uma conveniência, no bairro Coronel Antonino. Ele passava de carro pelo local junto com a namorada, quando foi atingido por um tiro, disparado por um policial à paisana, que trocou disparos com um assaltante na conveniência.

O assaltante morreu no local. Wendell levou um tiro de graça e o caso ficou por isso mesmo, comenta a mãe, que ainda clama por justiça. “Nada aconteceu e sinto que vou morrer sem ver a justiça”.

Quando o portão se fecha no bairro Nova Lima, onde mora desde 1997, a mulher de 65 anos, cabisbaixa, entra na casa que guarda a dor que fala por ela. A estante e os nichos exibem as fotos do filho, que numa proximidade de datas, morreu três meses depois do irmão mais velho, morto em um acidente na BR-163. “Enterrei dois naquele ano. Eu não tinha me recuperado da morte do Wagner (filho mais velho) quando precisei enterrar o Wendell”, lembra.

São muitas fotos dos filhos pela casa. Uma portinha da estante guarda dezenas de álbuns com fotografias reveladas após a morte de Wendell. “Eu revelei as fotos que ficaram no celular dele”, conta.

Wendell morreu aos 23 anos, baleado por engado. (Foto: Paulo Francis) Wendell morreu aos 23 anos, baleado por engado. (Foto: Paulo Francis)

Durante a entrevista, a saudade fica evidente com as lágrimas que não param de cair e a roupa que se faz necessária para secar o rosto. Tem sido anos complicados, de um sofrimento que muda os contornos, mas não diminui, diz Marli. “Ninguém supera a morte de um filho. Eu nunca esqueci. Eu sofro e choro todos os dias. Meu coração dói demais”.

A dor de perder um filho aos 23 anos ela não consegue definir. Dois no mesmo ano é ainda pior. Isso a faz ser uma mãe que espera, nem que seja na imaginação, o filho que não voltou para casa naquela noite de Natal. “Às vezes eu penso que ele poderia voltar e entrar por aquela porta, para participar da nossa ceia”.

Em uma data tão associada à felicidade, é como se não houvesse espaço para as memórias de Marli. “Muita gente acha que temos que seguir a vida. Mas para a nossa família o Natal não tem mais sentido”.

Há quatro anos os natais têm sido em família, para ninguém se esquecer do abraço de quem ficou e está ao lado para vencer a dor que insiste em ficar. “A gente se une para se fortalecer e continuar caminhando. Mas não é uma comemoração. Não temos muito o que comemorar. O Natal é sempre uma data de tristes lembranças”, acrescenta Inês dos Santos de Oliveira, de 39, uma das filhas de Marli que hoje mora no mesmo terreno da mãe para, além de filha, ser companhia e alento.

As fotos do filho que ficaram no celular foram todas reveladas pela mãe. (Foto: Paulo Francis) As fotos do filho que ficaram no celular foram todas reveladas pela mãe. (Foto: Paulo Francis)

Saudade - Wendell era um menino que ajudava em casa e nunca saía de perto de mãe. “Quando ele namorava essa moça que estava com ele no momento do tiro, ele dizia que quando casasse ia construir um terreno para ficar pertinho de mim”, lembra a mãe.

O filho era caçula, quem fazia as compras, lembrava a mãe dos compromissos e prometia levá-la ao Parque das Nações Indígenas assim que comprasse o primeiro carro. “Ele sonhava em ter um Gol, estava feliz porque tinha aprendido a ser funileiro, aprendeu a profissão com meu outro filho”. Lembra.

A saudade é tão grande que nada que remeta ao filho foi jogado fora, inclusive, a última listinha de compras feita por ele à mão. “Ainda guardo o papelzinho com a caligrafia dele”.

Os medicamentos e a Bíblia que agora a acompanham, são ferramentas que ela tem a necessidade de levar no dia a dia para suportar a dor. “Se não fosse meu tempo na igreja e meu tratamento médico, não sei o que seria de mim. Também cuido das plantas, fico inventando coisas, tentando me distrair, mas não tem jeito. Eu tenho meus outros filhos em volta de mim, mas eu não me conformo”.

Marli e os outros filhos seguem à espera. Ela ainda ressalta as circunstâncias e não aceita falar do episódio como morte. “Meu filho não morreu, ele nunca morreu, meu filho foi assassinado, tiraram a vida dele, sem que ele pedisse”.

Desfecho - O episódio em que Wendell acabou sendo vítima foi investigado por duas delegacias. Na Derf (Delegacia Especializada de Repressão a Roubos e Furtos) foi conduzido o inquérito sobre o assalto, sem localizar comparsa para o ladrão morto. Em outra unidade, a DEH (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Homicídio) foi conduzida a apuração das mortes.

Quanto a Wendell, chegou a haver pedido para que o policial militar envolvido fosse processado por homicídio culposo. Em seu depoimento, ele disse que não viu o veículo da segunda vítima passando. O MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) entendeu que o policial não deveria ser denunciado e aplicou a figura jurídica do excludente de ilicitude, ou seja, o inocentou. O caso foi arquivado pela justiça em novembro de 2018.

Colaborou Marta Ferreira

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