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Campo Grande, Sexta-feira, 24 de Maio de 2019

21/11/2018 08:40

Nas Moreninhas, profissão de barbeiro é herança de pai para 4 dos 17 filhos

Em 30 anos de profissão, Japão já passou por salões e barbearia no Centro, mas foi nas Moreninhas que encontrou fonte fiel e renda

Kimberly Teodoro
Há mais de 30 anos como barbeiro, Japão construiu a reputação nas moreninhas (Foto: Paulo Francis)Há mais de 30 anos como barbeiro, Japão construiu a reputação nas moreninhas (Foto: Paulo Francis)

Profissão que começou como brincadeira ainda na adolescência, hoje é herança de família na barbearia de Benedito Correia da Silva, ofício que exercesse há mais de 30 anos, fonte de renda para a criação de, pasmem: 17 filhos, nas contas dele. Ele jura que o número é real, apesar de não ter contato com a maioria. Apenas 7 vivem com o pai, destes 14 têm o nome dele no registro e 3 ele "considera" sangue do mesmo sangue.

Há tanto tempo na praça, diz que preciso ralar duro para pagar pensão aos filhos com mais de uma mulher. Já trabalhou em salões no centro e no Shopping Marrakech, mas a reputação ele construiu mesmo na região Moreninhas, onde mora desde 1986.

Filho de “mestiço” e negro, em uma mistura bem brasileira, Benedito é mais conhecido como Japão, apelido que ganhou na infância por causa dos olhos puxados que lembram o dos japoneses. Hoje ele confessa não gostar muito de ser chamado assim, mas como a teimosia é sempre o pior caminho, quanto mais ele brigava, mais era chamado de Japão.

Japão é apelido de crianças, que Benedito não gostava mas acabou adotando como segundo nome (Foto: Paulo Francis)Japão é apelido de crianças, que Benedito não gostava mas acabou adotando como segundo nome (Foto: Paulo Francis)

O interesse pela profissão veio ao notar a quantidade de mulheres que circulavam pelos salões de beleza do bairro, que ele relembra como coisa de “moleque”, que levou aos primeiros experimentos nos colegas de escola que ele juntava depois do futebol, para praticar as habilidades como barbeiro.

Aos 17 anos ele conta que até tentou mudar de área e chegou a trabalhar como operador de satélite na TV Record, só para descobrir que a brincadeira de criança era de fato a vocação da vida de adulto, que passou a ser levada a sério depois do curso profissionalizante do Senac, nos anos 1990.

“Foi aí que entendi que a minha primeira ideia, de encher um salão de mulheres estava errada. Existe uma conduta profissional que precisa ser seguida, que a maneira de tratar os clientes deve ser separada de qualquer atitude que seria normal na vida pessoal. Se uma mulher entra aqui com uma saia curta, não é meu direito olhar ou fazer comentários, ela veio para cortar o cabelo e é isso que interessa”, comenta.

Antes de cortar cabelo, os filhos começaram varrendo o chão e observando o pai a trabalhar (Foto: Paulo Francis)Antes de cortar cabelo, os filhos começaram varrendo o chão e observando o pai a trabalhar (Foto: Paulo Francis)

Durante os anos de mercado, ele também diz que viu muita coisa mudar. Lá no início da carreira nos anos 1980 ele teve aguentar muita zoação por causa do estereótipo de cabeleireiro, que era considerada uma profissão restrita de mulheres e gays, até mesmo nas barbearias.

O ritual também era diferente, Japão atendia os primeiros clientes de avental, usando espuma de barbear e toalha quente, um estilo que os filhos “atualizaram”, incentivando a reforma na barbearia, que também perdeu o estilo mais “rústico” que se resumia a cadeira de barbeiro, espelho e navalha.

Beetiane é a única mulher entre os homens no salão (Foto: Paulo Francis)Beetiane é a única mulher entre os homens no salão (Foto: Paulo Francis)

Quem entra na Barbearia Japão e Espaço da Beleza encontra um ambiente mais elaborado com sala de espera com paredes brancas com acabamento texturizado, uma logo vintage moderninha e dois espaços de atendimento, um masculino em que os filhos atendem e o feminino, onde a filha trabalha. A boa e velha cadeira de barbeiro, espelhos com iluminação e as navalhas também continuam lá para dar o toque final, mas agora estão acompanhadas dos barbeadores elétricos.

Entre os 17 filhos, apenas 4 seguiram o ofício que aprenderam desde cedo com o pai.

Japão conta que antes de pegar nas tesouras e barbeadores, os filhos começaram varrendo o chão e atendendo os clientes que vinham em busca de um horário, só depois de treinar muito e ouvir as orientações dele é que foram autorizados a começar a cobrar pelos cortes e hoje já atendem uma clientela própria. O próprio Japão hoje atende só os amigos e fregueses mais antigos.  “Gente que chegou criança acompanhada da mãe e hoje já é marmanjo que continua vindo fazer a barba”.

Hoje os filhos têm os próprios clientes e Japão atende apenas aos mais antigos (Foto: Paulo Francis)Hoje os filhos têm os próprios clientes e Japão atende apenas aos mais antigos (Foto: Paulo Francis)

Beetiane é a única filha a trabalhar no salão, apresentada a profissão aos 11 anos para aprender a “fazer alguma coisa” da vida, hoje aos 23 anos não se vê fazendo outra coisa. Além dela os filhos Abdel, Crizante e Cristopher também ajudam a tocar o negócio pelo qual tomaram gosto vendo o pai trabalhar.

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