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Campo Grande, Quarta-feira, 22 de Maio de 2019

29/03/2019 08:17

Nascida em 1964, Ana veio ao mundo calada, mas sem medo de lutar pela sua voz

A experiência de quem nasceu no ano do golpe e viveu sob as rédeas da ditadura até mesmo no período de redemocratização

Thailla Torres
Ana quando criança, no seu primeiro ano da escola. (Foto: Arquivo Pessoal)Ana quando criança, no seu primeiro ano da escola. (Foto: Arquivo Pessoal)

Ana Cláudia Salomão, jornalista, mestra em Historiografia Literária e servidora pública federal veio ao mundo meses depois a chegada da ditadura militar no Brasil. Ainda hoje costuma dizer que nasceu “muda e calada” diante da censura que o país viveu por mais de duas décadas. Mas foi no período de redemocratização que ela viveu os reflexos do regime ao ser presa.

“Eu era uma criança no período mais pesado da ditadura, mas sempre percebi o que as pessoas vivenciavam. Mas lembro bem da minha prisão que aconteceu em maio de 1987, nós já estávamos no governo Sarney e já tínhamos passado pela abertura do fim do regime militar, porém fui presa numa lei de greve que proibia que uma categoria se envolvesse no movimento de outro. O objetivo era claro, desunir as categorias”, recorda.

A prisão aconteceu durante um período de greve dos atendentes da Santa Casa, à época mantida pela Prefeitura. Entre as reinvindicações estavam aumento salarial e melhores condições de trabalho, mas sem conseguir discutir o assunto com a sociedade, os grevistas pediram socorro ao comitê em que Ana participava, responsável por coletar assinaturas e apresentar emendas populares que pudessem ir para a Constituição. “Eram todas as reivindicações pelas quais os movimentos sociais lutavam e assim conquistávamos milhares de assinaturas, através dos trabalhos de partidos, mulheres e movimentos estudantis”, lembra.

Procurados pelos grevistas a proposta era ganhar espaço na imprensa. “Eles disseram que a sociedade estava vendo-os como vilões, então eles vieram pedir ajuda aqui e, por um acaso, faziam parte do comitê jornalistas”.

Ana lembra que ela e outras quatros pessoas se dirigiram à reunião para informar aos grevistas que “furariam o cerco”. Mas ao chegar foram surpreendidos pela polícia. “Eles foram avisados pela Prefeitura e nos prenderam sob alegação de que infringíamos a lei de greve, que foi criada pela ditadura”.

Ditadura Nunca Mais! pede a servidora. (Foto: Arquivo Pessoal)"Ditadura Nunca Mais!" pede a servidora. (Foto: Arquivo Pessoal)

Homens ficaram em um albergue masculino e Ana acompanhada da amiga Aparecida Gonçalves foram para o presídio feminino. “Não sofremos violência física. Mas quando chegamos, a diretora ficou injuriada por colocar duas meninas grevistas junto às condenadas. Foi quando ela isolou uma cela para nós e isso causou um mal-estar com as outras presidiárias. Mas, durante uma semana, nos deslocaram e acabamos fazendo muitas amizades lá dentro”.

Ricardo Brando, advogado conhecido na época por tirar presos da cadeia no período da ditadura, foi quem se mobilizou junto aos sindicatos para tirar todos da prisão. “Eu era muito jovem quando isso aconteceu e, durante muito tempo, eu não dei muita bola. Depois dos 40 anos comecei a ter pesadelos. Hoje, está me assustando o retrocesso e ver pessoas falando ditadura como se ela não tivesse acontecido”.

Hoje, no dia da celebração da ditadura militar, prevista pelo CMO (Comando Militar do Oeste, Ana é enfática ao dizer porque não se deve comemorar a ditatura no Brasil e nem lugar nenhum do mundo.

“Comemorar, etimologicamente, é “compartilhar a memória”, trazer à lembrança, enfim, lembrar. Nessa acepção, é importante que não nos esqueçamos – e sempre denunciemos – as atrocidades cometidas durante o regime militar no Brasil, que ceifou vidas (comprovado está), destruiu famílias e instaurou o clima de terror no país.

Além desse aspecto dos direitos humanos, a ditadura militar no Brasil expulsou a inteligência nacional, o que nos causou atraso econômico, intelectual, científico e tecnológico, transformando o país – até então em ascensão cultural durante a década de 1950 – num “quintal” do Imperialismo, em total submissão.

No entanto, o verbo “comemorar” também tomou o sentido de “festejar”, pois que sempre os seres humanos relembram seus feitos com festas. Nesse sentido, é inadmissível que um governo “comemore”, ou seja, “festeje” atos como os cometidos pelo regime ditatorial no Brasil iniciado pelo golpe de 1964.

Foram mortes, mutilações, tortura, desaparecidos e desaparecidas políticas; perseguições a sindicatos, organizações de trabalhadores, feministas, estudantes, operários, intelectuais, professores, manifestantes pela democracia, todos interrompidos.

Ratos em vaginas; bebês eletrocutados diante de suas mães; mulheres estupradas e espancadas; jovens arrastados por carros; homens asfixiados a óleo diesel; corpos sem nome jogados em valas perdidas; ossos encontrados depois de décadas. Não dá para brincar ou minimizar. Ditadura Nunca Mais!”.

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