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Campo Grande, Terça-feira, 15 de Outubro de 2019

16/07/2019 09:18

Neemias já virou personagem da cidade, há 30 anos vendendo pelas ruas

Desde que chegou por aqui, sai todos os dias oferecendo produtos que leva embaixo do braço

Kimberly Teodoro
No olhar, 83 anos de experiências e aprendizado vindos da rua. No olhar, 83 anos de experiências e aprendizado vindos da rua.

Fios de cabelo já brancos e o rosto marcado pela passagem do tempo, a camisa sempre muito limpa e bem passada, alinhada por dentro da calça como antigamente, cinto e sapatos combinando, tudo em cores discretas. Na maneira de caminhar, a falta de pressa de quem faz o mesmo caminho há 30 anos, peregrinando para vender os panos de prato, toalhas de mesa e panos alvejados que carrega embaixo do braço.

Pela descrição, o personagem quase passa despercebido aos olhos de quem anda apressadamente pelo centro, mas alguns minutos de conversa são suficientes para entender Neemias Moreira de Souza porque a idade não curvou os ombros do vendedor, nem levou a disposição de quem acorda às quatro horas da manhã todos os dias.

No olhar, a experiência de 83 anos em que a maior escola foi a rua, com lições e histórias, em que se orgulha da habilidade de seguir em frente apesar das adversidades. Hoje os olhos já não são os mesmos, Neemias perdeu 50% da visão há 17 anos, os pés e mãos estão calejados do trabalho que começou cedo, aos 7 anos. Na bagagem, carrega experiência e causos que conta de bom grado a quem estiver disposto a ouvir.

Leitor ávido, a única tristeza é não conseguir ler os 20 livros que costumava ler por ano. Ainda assim a mente continua afiada, na memória são mais de 100 biografias, gênero literário favorito pelos atos extraordinários de pessoas que poderiam ser como qualquer um de nós e por pensar fora da caixa, entraram para a história.

Foi também uma história vida que o motivou no momento em que a visão começou a falhar. Neemias confessa no começo ter tido dificuldade em aceitar a cegueira parcial, depois de uma operação de catarata mal sucedida. Conhecer o trabalho Frances Jane Crosby, compositora de hinos religiosos que perdeu a visão ainda na infância, mas realizou o que ele considera uma das obras mais bonitas já feitas. “Foi quando eu percebi que eu não sou um coitadinho. Peguei tudo aquilo, amassei e joguei tudo aquilo fora”.

Ao alcance das mãos, Neemias se orgulha de ter sempre a nota fiscal dos produtos.Ao alcance das mãos, Neemias se orgulha de ter sempre a nota fiscal dos produtos.

Conhecido pelos comerciantes mais antigos do centro, encontramos Neemias por indicação depois de uma matéria com um dos clientes pontuais atendidos por ele. A entrevista está marcada há uma semana, precisou esperar até que o vendedor voltasse de São Paulo, para onde ainda viaja sozinho todos os meses para renovar o estoque.

Durante quase uma hora inteira de conversa nenhuma reclamação, pelo contrário, Neemias faz o tipo otimista que em cada problema, vê uma solução.

“Descendo a rua do cemitério um outro dia encontrei um rapaz desesperado, com tantos problemas que não sabia o que fazer. Chegando no portão, eu disse: Quem não tem problema é quem mora lá dentro - apontei para o cemitério - estou mais feliz com todos os problemas aqui de fora. Ele foi embora achando que tinha encontrado um doido. Mas é verdade, só não tem problema quem já morreu”, ensina.

Nascido em Vitória da Conquista, na Bahia, ele passou boa parte da vida no interior de São de Paulo, depois que a família deixou o nordeste em busca de melhor sorte nas fazendas de plantação de algodão em Andradina. “Era um ótimo catador de algodão já aos sete anos”. Desde então, foram muitos empregos, o mais longo em uma empresa de Campinas, época em que chegou a conhecer mais de 15 estados brasileiros vendendo sistemas de irrigação.

Hoje ele é microempreendedor individual, maneira que encontrou de voltar ao mercado de trabalho aos 50 anos.Hoje ele é microempreendedor individual, maneira que encontrou de voltar ao mercado de trabalho aos 50 anos.
De dentro da bolsa, Neemias tira panos de prato, toalhas de mesa, e sacos alvejados. Produtos que vende desde que chegou à Campo Grande.De dentro da bolsa, Neemias tira panos de prato, toalhas de mesa, e sacos alvejados. Produtos que vende desde que chegou à Campo Grande.
Há 30 anos Neemias peregrina pela centro com os produtos embaixo do braço.Há 30 anos Neemias peregrina pela centro com os produtos embaixo do braço.

A empresa fechou as portas há mais ou menos 30 anos, encerrando também a carreira de Neemias como funcionário. “Depois que o negócio acabou eu vim visitar minha mãe aqui em Campo Grande, trouxe para ela alguns sacos alvejados para pano de prato. Foi quando percebi que podia viver disso, comecei a trazer de São paulo para vender aqui porque já estava com cinquenta e poucos anos, ninguém mais queria me contratar com essa idade”.

Ao alcance das mãos, a nota fiscal de tudo o que ele traz de São Paulo. Registrado como microempreendedor individual, ele se orgulha em manter todos os documentos em ordem e fazer tudo de acordo com as leis. “Faço tudo certo, não porque sou melhor que ninguém. Sou honesto porque aprendi assim. Eu nunca vou vender uma vez só, eu preciso vender e voltar lá sempre. Eu tenho que ter um caminho aberto e para isso eu preciso olhar para você e você ter a perspicácia de saber que eu estou falando a verdade com você. A confiança não é imposta, é adquirida”, explica.

À moda antiga, Neemias não usa cartão de crédito para comprar e nem para vender. Para ele, tem sido a fórmula do controle financeiro nos muitos anos de trabalho em que aprendeu a não gastar mais do que pode. Quando vai a São Paulo, deposita o valor da mercadoria na conta da firma onde compra desde que começou a vender os sacos alvejados, assim não precisa andar por aí com dinheiro.

“Isso eu quero que você anote aí, eu gostaria de dizer às pessoas, que toda a economia, todo o padrão de vida é um funil. O dinheiro deveria entrar pela boca grande e sai pela pequena, só que hoje está invertido. Hoje eles querem que entre pela boca pequena e saia pela grande e querem viver endividados, não pode. Gasta mais do que pode. É o que está acontecendo como cartão de crédito. Hoje eu pago as minhas contas em dia, me orgulho disso e só estou dizendo porque queria que alguém tivesse me dito isso quando eu era mais novo”.

Avô orgulhoso, ele conta que a filha e a neta moram no Rio de Janeiro, para onde já foi em visita, mas sem pretensões de longa estadia, já que não deixa os clientes aqui do Mato Grosso do Sul por nada. A disposição para trabalhar, é também por conta da rotina de quem acorda todos os dias às quatro da manhã, lê a bíblia e toma no café da manhã um mingau reforçado feito por ele.

Com a visão, perdeu também a carteira de motorista, por isso saí cedo de casa para chegar ao centro às 6h e voltar só às 17h, com os braços vazios. Se ele pensa em parar de trabalhar? "Só morre quem fica parado", revela. A despedida é breve, o vendedor tem outro compromisso, mas deixa de lição o amor pela vida e o conselho de quem em espírito, continua jovem: "Porque a melhor escola depois de Jesus Cristo e da bíblia são as crianças. Porque lá tem tudo, tem pureza, tem perdão, tem amor. Elas sabem coisas que os adultos não fazem".

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Distância nenhuma é capaz de desanimar o vendedor, que não pode mais dirigir, mas vai a pé ou de ônibus onde precisa.Distância nenhuma é capaz de desanimar o vendedor, que não pode mais dirigir, mas vai a pé ou de ônibus onde precisa.
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