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Comportamento

Ninguém aguenta mais arte ruim de IA, mas dá para viver sem ela?

Publicitários veem potencial da ferramenta, mas criadores questionam originalidade profissional

Por Amanda Ferreira | 23/09/2026 06:50
Ninguém aguenta mais arte ruim de IA, mas dá para viver sem ela?
Ferramentas de IA permitem criar imagens em poucos minutos, mas levantam debate sobre autoria e qualidade (Foto: Imagem gerada por IA)

Quem acessa as redes sociais hoje não é apenas bombardeado por informações, mas também por imagens de diferentes estilos, formatos e linguagens. Nesse cenário, um novo recurso ganhou espaço: as imagens criadas por inteligência artificial. Muitos microempreendedores passaram a usar a ferramenta para divulgar produtos e serviços, mas ela também aparece em campanhas de eventos, feiras e até em materiais de órgãos públicos.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

O uso de inteligência artificial para criar imagens nas redes sociais cresce entre microempreendedores e empresas, mas divide opiniões no mercado criativo. Enquanto profissionais de publicidade reconhecem o recurso como aliado para pequenos negócios com poucos recursos, artistas e designers alertam para a desvalorização do trabalho autoral e a substituição de profissionais especializados por soluções automáticas, reforçando que a tecnologia deve ser usada com critério e responsabilidade.

Nas redes sociais, o debate cresce em lados opostos. Enquanto usuários e empresas enxergam a inteligência artificial como uma forma rápida e acessível de criar conteúdos, artistas e designers questionam os impactos dessa tecnologia no mercado criativo.

Eles apontam preocupações sobre a substituição de profissionais que dedicaram anos ao estudo e ao aperfeiçoamento de técnicas artísticas, além dos efeitos que o uso indiscriminado dessas ferramentas pode trazer para a valorização do trabalho autoral.

Ninguém aguenta mais arte ruim de IA, mas dá para viver sem ela?
Diretor criativo Felipe Melo avalia que a inteligência artificial ampliou possibilidades, mas exige olhar profissional na criação de conteúdos (Foto: Luiz Donizete)

O diretor criativo da Bebop Branding, Felipe Melo, conta que a inteligência artificial ainda ocupa um espaço de descoberta e incerteza dentro do mercado criativo. A ferramenta já passou a fazer parte da rotina de profissionais da área, mas também abriu discussões sobre direitos autorais, qualidade dos materiais produzidos e o futuro de profissões ligadas à criação.

Ao mesmo tempo em que amplia o acesso à comunicação para pequenos negócios, o uso sem critérios ainda gera questionamentos entre quem trabalha com design e publicidade.

“Eu acho que a inteligência artificial veio para democratizar um pouco a comunicação. Quem não tem dinheiro para contratar uma agência ou um designer consegue dar um primeiro passo. Mas existe uma diferença quando uma empresa maior ou um órgão público usa a ferramenta sem um olhar crítico. Quando tudo fica na mão da IA, parece um desinteresse pelo próprio trabalho e pela profissão de quem se prepara para criar”.

Para o publicitário, o uso da inteligência artificial precisa considerar as diferentes realidades de quem recorre à ferramenta. Ele avalia que, para pequenos empreendedores que estão começando um negócio com poucos recursos, a tecnologia pode ser uma alternativa para criar materiais de divulgação e facilitar o acesso à comunicação.

A preocupação, segundo ele, aparece quando empresas com maior estrutura deixam de valorizar profissionais especializados e substituem processos criativos por soluções automáticas.

Ninguém aguenta mais arte ruim de IA, mas dá para viver sem ela?
Recurso que facilita produção visual também provoca discussão entre artistas e profissionais da criação (Foto: Amanda Ferreira)

“Quando a gente fala daquele pequeno empreendedor, que está começando a vender um bolo na feira, por exemplo, a IA veio para ajudar. Às vezes é o único recurso que ele tem. Agora, quando uma empresa que tem condições usa isso sabendo que poderia contratar um designer, fotógrafo ou uma agência, acaba desvalorizando todo um trabalho que existe por trás. A inteligência artificial democratiza o acesso, mas precisa ser usada com consciência”.

Antes da popularização da inteligência artificial, ferramentas como o Canva já haviam aberto espaço para quem precisava criar materiais de divulgação sem contratar um profissional especializado. A diferença, segundo o publicitário, é que a IA ampliou esse acesso ao permitir a criação de imagens e peças mais elaboradas, mas também trouxe novos desafios relacionados ao cuidado com o resultado final.

“Antes, a pessoa que não tinha recurso para contratar um designer ou uma agência fazia no Canva, no Word, com as ferramentas que tinha. A inteligência artificial veio nessa mesma linha. O problema é quando não existe um olhar de revisão. A gente vê imagens com erros absurdos, como pessoas com 6 dedos, 3 mãos ou situações que acabam virando motivo de piada. Isso mostra que não basta gerar a imagem, é preciso ter cuidado com o que vai ser publicado e com a própria marca”.

O uso mais sugestivo - Para a cineasta e artista Isabelle Silva, o avanço da inteligência artificial no campo das artes traz questionamentos sobre a preservação do processo artístico.

“Acho que usar a IA na animação e também de forma geral no ambiente artístico, descaracteriza todo o processo, porque tira justamente esse trabalho manual que faz parte da arte. No curta que produzimos  "O Crave à Rosa", por exemplo, a artista Miya Miyashiro desenhou 5.500 quadros ao longo de cinco anos para criar um projeto único e orgânico".

Ninguém aguenta mais arte ruim de IA, mas dá para viver sem ela?
Curta “O Crave à Rosa” teve 5,5 mil quadros desenhados manualmente ao longo de cinco anos (Foto: Miya Miyashiro)

Isabelle avalia que, ao automatizar etapas da criação, a tecnologia pode afastar obras de um dos elementos que considera essenciais na arte: o trabalho manual, a experimentação e as escolhas feitas pelo próprio artista ao longo da produção.

“A inteligência artificial pode até reproduzir estilos, mas muitas vezes parte de referências que já existem em bancos de dados. Quando você mistura arte e algo que não nasce de um processo criativo humano, perde um pouco dessa originalidade que define a criação artística”.

Para profissionais que já atuam no mercado criativo, a inteligência artificial aparece menos como substituta e mais como uma ferramenta de apoio ao processo de criação. Felipe avalia que a tecnologia reduziu etapas, economizou tempo e abriu possibilidades para transformar ideias que antes seriam mais difíceis ou caras de executar.

A ferramenta também passou a ser usada na apresentação de conceitos para clientes antes da produção final.

“Para quem trabalha com criatividade, a inteligência artificial veio para ajudar. Ela dá voz, imagem, som e vídeo para ideias que antes eram difíceis de colocar em prática. Às vezes uma ideia que ficaria só na cabeça consegue virar uma imagem em poucos minutos ou no tratamento de imagens. Mas isso não substitui o trabalho dos profissionais. Muitas vezes usamos a IA para apresentar uma proposta ao cliente e, depois da aprovação, a execução continua com fotógrafo, produtor e outros profissionais especializados”.

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