Como R$ 1 milhão escondido em pneu virou pista contra o Clã Haidar
Vídeo, depósitos e outros negócios em dinheiro vivo revelam circulação de fortuna familiar, aponta PF
Um milhão de reais escondidos dentro de um pneu, depósitos bancários de centenas de milhares de reais em dinheiro vivo e uma fazenda avaliada em R$ 30 milhões, mas negociada por R$ 7,5 milhões em espécie. Os valores e as formas de pagamento chamaram a atenção da PF (Polícia Federal), que encontrou nas transações financeiras uma das pistas para desvendar o patrimônio do “Clã Haidar”, apontado como responsável por uma organização criminosa voltada ao tráfico internacional de drogas que movimentou pelo menos meio bilhão de reais em dois anos.
RESUMO
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A Polícia Federal apura o patrimônio do chamado Clã Haidar, suspeito de chefiar organização criminosa de tráfico internacional de drogas que movimentou ao menos R$ 500 milhões em dois anos. Entre os indícios estão R$ 1 milhão escondidos em pneu, depósitos em dinheiro vivo e uma fazenda avaliada em R$ 30 milhões vendida por R$ 7,5 milhões em espécie. O delegado afastado Hoffman e familiares também são investigados. As defesas negam irregularidades.
O dinheiro escondido no pneu aparece em um vídeo recuperado dos arquivos armazenados na nuvem de Adule Vasques Haidar, filho de Adel Hassan Haidar, um dos três irmãos apontados como chefes da organização. Na gravação, Adule e João Fernando Andrade de Carvalho retiram aproximadamente R$ 1 milhão de dentro do pneu.
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A cena foi relacionada pelos investigadores a um galpão na Rua São Borja, em Campo Grande, imóvel atribuído a Nasser Haidar, conhecido como Nana, um dos líderes do grupo. No endereço, onde funciona uma empresa de funilaria, lanternagem e pintura, a PF apreendeu 13 veículos durante a Operação Ifrit, deflagrada na quarta-feira (4).
A frota reunia modelos antigos e utilitários, entre eles um Ford da década de 1920, um jipe Willys/Overland verde, de 1958, vários Jeeps, uma Mitsubishi Pajero e uma caminhonete S10. Cinco guinchos foram utilizados para retirar os automóveis, em uma operação que durou cerca de quatro horas. Os veículos foram levados para a sede da Polícia Federal.
A gravação é apenas uma das peças de uma investigação que encontrou dinheiro vivo circulando por contas de familiares, empresas e negócios imobiliários. Os detalhes aparecem na decisão da 3ª Vara Federal de Campo Grande que autorizou o sequestro de bens dos investigados.

Dinheiro escondido – “A análise da nuvem de Adule também revelou dados de geolocalização de uma retirada de dinheiro no galpão da Rua São Borja, em 25 de agosto de 2025, às 19h11”, diz a decisão, baseada nas apurações da PF que embasaram os pedidos de prisão e buscas para a Ifrit.
Para a Polícia Federal, o imóvel fazia parte da estrutura utilizada por Nasser para administrar e ocultar recursos da organização, mas o dinheiro também chegava diretamente às contas bancárias. Em 8 de agosto de 2022, um comprovante enviado por Adule registrou depósito de R$ 500 mil em espécie na conta de Nasser.
Em outra ocasião, Adule encaminhou comprovante de depósito de R$ 90 mil. A investigação identificou ainda outras movimentações em espécie, que somaram R$ 400 mil, além de transferências de R$ 100 mil relacionadas ao mesmo núcleo familiar.
Para a investigação, Nasser concentrava e administrava parte da fortuna do grupo. Conversas entre familiares reforçaram essa suspeita, ao mostrar integrantes recorrendo a ele para resolver questões financeiras.
Milhões no banco – Se parte do dinheiro ficava escondida em pneus, outra chegava às instituições financeiras por meio de depósitos sucessivos.
Um dos casos mais expressivos envolve o primo da esposa do delegado afastado Hoffman D'Ávila Cândido e Sousa, investigado por suspeita de colaboração com a organização. Jonas Vinicius Benfica Ferreira foi atingido pela ordem de bloqueio de valores, porque, segundo a Polícia Federal, ele recebeu aproximadamente R$ 2,08 milhões em dinheiro vivo, distribuídos em apenas 15 depósitos na própria conta bancária.
A concentração dos valores chamou a atenção dos investigadores. Cerca de R$ 1,69 milhão entrou na conta em apenas uma semana.
Jonas também aparece como responsável pela Benfica Representações, empresa que, segundo a investigação, movimentou valores incompatíveis com seu porte e faturamento declarados.
Em fevereiro de 2025, a empresa recebeu R$ 920 mil da LK Assessoria e outros R$ 500 mil da KD Serviços. Essas operações, realizadas por transferências bancárias, foram relacionadas a registros financeiros encontrados na nuvem de Adule. Os investigadores identificaram códigos como “ASK” e “ASKARI”, militar em árabe, interpretados como possíveis referências a pagamentos destinados a policiais.
A suspeita é de que empresas e contas de terceiros fossem utilizadas para fazer o dinheiro circular e dificultar a identificação de sua origem.
Doação misteriosa – O próprio delegado Hoffman, que comandou a Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico) por 7 anos, aparece em uma operação financeira que despertou desconfiança.
Ele depositou R$ 276 mil em dinheiro vivo na própria conta bancária e declarou que havia recebido o valor como doação. O problema, segundo relatório de inteligência financeira citado na decisão, é que não foi possível identificar quem doou.
A movimentação entrou na análise patrimonial do delegado, acusado pela Polícia Federal de colaborar com a organização criminosa e de participar de um esquema de desvio de cocaína apreendida da delegacia.
A investigação também chegou às contas da esposa de Hoffman. Conforme a decisão, ela realizou três depósitos ou pagamentos sucessivos em espécie, de R$ 60 mil, R$ 50 mil e R$ 60 mil. Juntas, as operações chegaram a R$ 170 mil.
Os investigadores identificaram ainda R$ 87,2 mil em depósitos em dinheiro na conta da mulher e R$ 484,6 mil recebidos de Hoffman, distribuídos em 243 transações bancárias.
A Polícia Federal considerou suspeita a evolução das movimentações diante da situação financeira declarada pela esposa, que figurava como dependente do marido no Imposto de Renda.
A análise também encontrou pagamento de R$ 60 mil em espécie relacionado à compra de um Jeep Compass, além de valores destinados a empresas da construção civil.
Dinheiro em família – As movimentações suspeitas não ficaram restritas ao casal. A irmã de Hoffman também teve as contas examinadas. Com renda cadastrada de R$ 1.412, ela recebeu R$ 7.350 do delegado, R$ 20 mil do Haras Rodeio Show e R$ 15 mil de Robson Rivelino.
A Polícia Federal identificou posteriormente 35 saques fracionados, que totalizaram R$ 27,3 mil. Para os investigadores, a conta dela funcionava como intermediária na circulação dos recursos.
Por fim, a enteada do delegado aparece na investigação. Segundo a decisão, ela realizou depósito de R$ 54 mil em dinheiro durante uma negociação envolvendo um veículo de R$ 153 mil.
A remuneração atribuída à filha da esposa de Hoffman era de aproximadamente R$ 2 mil, circunstância considerada relevante pelos investigadores na análise da origem dos recursos.
Terreno milionário – O dinheiro vivo também aparece nas negociações imobiliárias. Em maio de 2024, Hoffman e a mulher compraram terreno no Condomínio Alphaville, em Campo Grande, pelo valor declarado de R$ 400 mil.
A transação gerou comunicação ao Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) por envolver pagamento em espécie ou título ao portador superior a R$ 100 mil.
Mas outro detalhe chamou a atenção da Polícia Federal. No mesmo dia da compra, a Benfica Representações transferiu R$ 250 mil diretamente para o vendedor do imóvel. Segundo os investigadores, não foram encontrados documentos fiscais capazes de justificar por que a empresa de Jonas Benfica pagou parte do terreno adquirido pelo delegado e sua esposa.
Fazenda pela quarta parte – Outro negócio que chamou atenção dos investigadores envolve a Fazenda Santa Lúcia, em Ponta Porã, historicamente vinculada a Adel Hassan Haidar.
A propriedade tinha avaliação aproximada de R$ 30 milhões, mas foi negociada pelo valor declarado de R$ 7,5 milhões, equivalente a um quarto da avaliação. Segundo a investigação, o pagamento teria ocorrido em dinheiro vivo.
A diferença de R$ 22,5 milhões entre os valores levantou suspeitas sobre a finalidade da transação. Para a Polícia Federal, existem indícios de que o imóvel continuou no patrimônio da família Haidar, apesar da transferência formal.
A decisão também menciona suspeitas de que Adel e Adule pressionaram integrantes da família Cherin a realizar a negociação por causa de uma dívida com a organização criminosa.
Os investigadores encontraram referências à utilização de doleiros para pagamentos elevados relacionados à aquisição da fazenda. A hipótese examinada pela Polícia Federal é de que a operação tenha servido para ocultar patrimônio e dificultar o rastreamento de recursos.
Fortuna sob investigação – Os episódios ajudam a explicar por que a Polícia Federal passou a examinar não apenas o patrimônio dos irmãos Haidar, mas também contas bancárias de parentes, empresas e pessoas próximas aos investigados.
A Operação Ifrit apura a atuação de uma organização criminosa com base na fronteira de Ponta Porã com Pedro Juan Caballero, no Paraguai, suspeita de tráfico internacional de drogas e armas, lavagem de dinheiro e corrupção de agentes públicos.
Segundo a investigação, o grupo movimentou pelo menos R$ 500 milhões em aproximadamente dois anos. A Justiça autorizou medidas de bloqueio e sequestro patrimonial.
A ofensiva de quarta-feira se espalhou por sete estados para cumprir 25 mandados de prisão preventiva, 1 de prisão temporária e 76 de buscas e apreensões, além de três medidas de monitoramento eletrônico e o afastamento de três policiais civis. Também autorizou bloqueios bancários de até R$ 300 milhões e medidas sobre imóveis, fazendas, veículos e outros bens.
Outro lado – A defesa de Hoffman, representada pelo advogado José Roberto da Rosa, já negou as acusações de participação no tráfico e contestou a suspeita de que o delegado tenha recebido R$ 15 milhões com o desvio de cocaína. O advogado sustenta que o patrimônio do cliente é compatível com seus rendimentos e questiona a interpretação das provas reunidas pela Polícia Federal.
Já o escritório Hazime Advocacia, responsável pela defesa de Fahd Haidar, declarou que analisa os elementos da investigação, apresentará seus argumentos à Justiça e está convicto de que demonstrará a inocência do investigado, destacando que as medidas cautelares não significam reconhecimento de culpa.
O espaço segue aberto para manifestações dos demais citados.




