No Bar da Luzia, pinga na raiz divide espaço com leitura da Bíblia
Comerciante diz que ignora críticas e não abre mão da proteção divina no ambiente em que trabalha
Com uma Bíblia de um lado do balcão e garrafas de pinga curtida do outro, a rotina de Luzia Barbosa, de 60 anos, mistura fé, trabalho e um bom gole de cachaça na Vila Piratininga. No bar simples no cruzamento das ruas Manoel Vieira de Souza e Aimoré, a clientela pode pedir uma dose de jurubeba, catuaba ou sucupira e, se quiser, também abrir a Bíblia para ler um salmo.
Católica de coração, Luzia diz que não vê problema nenhum em deixar a Bíblia ao lado das garrafas. Pelo contrário. Para ela, tudo faz parte da proteção que carrega no pequeno comércio onde mora e trabalha de segunda a segunda.
“Um dia um rapaz reclamou, mas no meu bar vai ter sim. É minha proteção. Tem meu Buda, meus santos, minha Bíblia. O que manda é a fé da gente”, resume.
O cenário do bar ajuda a explicar a crença da comerciante. Na entrada, uma espada-de-são-jorge. Em cima das prateleiras, dividem espaço imagens de Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora de Fátima, São Jorge, elefantes e um Buda. No balcão das pingas, a Bíblia fica em cima de um suporte trazido pelo filho direto de Aparecida.
Segundo Luzia, a Bíblia foi presente de ministros da igreja do Perpétuo Socorro, que visitaram a casa dela durante uma bênção religiosa há quatro anos. Desde então, ela ganhou lugar fixo no comércio.
“Já teve gente que chegou aqui e perguntou se podia ler um salmo. Eu falei pra ficar à vontade. Tem gente que estranha, fala que nunca viu Bíblia do lado de pinga. Eu digo: ‘Então agora está vendo’”, conta.
Além da Bíblia, Luzia também aposta em simpatias contra inveja e olho gordo. Uma pimenteira ganhou espaço no balcão depois de ser presenteada por um freguês, que garantiu que a planta ajudaria na proteção do ambiente.
Enquanto fala de fé, ela também apresenta orgulhosa as garrafas de pinga curtida preparadas por ela mesma. Tem de jurubeba, catuaba, jamelão, sucupira, sassafrás, fedegoso, carqueja, amburana e até “nó de cachorro”.
“Eu compro as raízes e preparo tudo. Sai bastante. Quando tem as raizadas, o povo quase não quer pinga pura”, destaca.
A dose custa R$ 3, mas Luzia garante que se adapta ao bolso do cliente. “Às vezes chega alguém com R$ 1 e pergunta se eu vendo. Eu vendo. Melhor R$ 1 na mão do que nada”, brinca.
Nascida em Cascavel (PR), Luzia conta que trabalhou por muitos anos como empregada doméstica, diarista e até boia-fria para criar os 4 filhos. “Eu levava um no colo, outro na barriga e sacola junto para trabalhar. Trabalhava porque precisava”, lembra.
Quando se mudou para Campo Grande, decidiu que não trabalharia mais para os outros. Abriu o primeiro bar na antiga rodoviária da Capital, onde permaneceu por quatro anos. Depois, seguiu para outro ponto na Avenida Manoel da Costa Lima, onde ficou cerca de duas décadas.
Nos últimos anos ela passou por mudanças forçadas após os imóveis serem vendidos, até chegar ao atual endereço, onde está há quatro meses.
Hoje, além do bar, Luzia também vende almoço caseiro, marmitas, lingeries, produtos de beleza, roupas de cama e ainda faz pequenos serviços de costura.
No almoço, o cardápio muda conforme o dia. Tem guisado de mandioca, quiabo, abobrinha, bisteca de porco, frango e comida simples que, segundo os clientes, lembra “comida de mãe”.
No espaço, ela segue cercada pela fé e pelas garrafas de pinga curtida. “Eu levanto todo dia e peço proteção. A gente nunca sabe o que encontra na rua. Então eu acredito em Deus e em tudo aquilo que me faz bem”, finaliza.
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