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Campo Grande, Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018

31/07/2018 08:06

No Coronel Antonino, Igreja do Santo Daime é simples e reúne público alternativo

Ponto é escondido, mas dirigente diz que visitantes são bem-vindos

Willian Leite
Altar onde os frequentadores se reúnem em volta para ritual antes de tomar o bebida do Santo Daime. (Foto: Willian Leite) Altar onde os frequentadores se reúnem em volta para ritual antes de tomar o bebida do Santo Daime. (Foto: Willian Leite)

Entre uma pauta e outra, o Lado B encontrou uma Igreja do Santo Daime nos fundos de uma casa simples no Bairro Coronel Antonino em Campo Grande. Por curiosidade fomos participar de um trabalho espiritual, celebração que acontece a cada 15 dias para quem está indo ao local pela primeira vez.

Foi na segunda-feira (30) às 20h que chegamos ao ponto Jardim da Rainha, nome do templo onde acontecem os trabalhos. Em um espaço de aproximadamente 42 metros quadrados, 10 mulheres e 18 homens se reúnem vestidos de azul e branco para começar o ritual.

As vestes têm peculiaridades. Os homens, por exemplo, usam calça azul e camisa branca com uma gravata azul e um broche de estrela do lado esquerdo. Já as mulheres usam as mesmas cores, todas que já fazem parte da igreja vestem saia azul e camisa branca com uma gravata borboleta também azul.

Durante o trabalho não fomos autorizados a fotografar, a orientação era esperar terminar, pois o pedido era para que ficássemos concentrados para não atrapalhar o andamento do ritual.

Bebida que pode causa vômitos e diarreia fica exposta na em mesa com fotos e enfeites. (Foto: Willian Leite)Bebida que pode causa vômitos e diarreia fica exposta na em mesa com fotos e enfeites. (Foto: Willian Leite)

O trabalho começa com uma oração, todos se sentam em volta de uma espécie de altar, chamado de cruzeiro, onde tem uma mesa com a cruz de cinco pontas, duas taças com água, quatro velas e algumas flores.

Os daimistas afirmam que é de lá que fluem as energias. O ritual é iniciado com um Pai Nosso e uma Ave Maria, orações historicamente de origem católica. Dentro de um círculo no meio da igreja, mulheres e homens fardados, nome dado aos frequentadores do Santo Daime, começam os cânticos, cujo as letras se remetem ao Santo Daime, amor e perdão.

Ao som de violão e acordeon, daimistas e visitantes acompanham as orações e hinos. Um detalhe que impressiona é a sincronia que três da dez mulheres tocam um instrumento chamado maracá, parecido com um chocalho, elas usam a mão direita para tocar e o movimento é idêntico, são três sacudidas para baixo e uma para cima que produzem o som.

Logo no início 2 dos 18 homens são instruídos por Erick Flávio Araújo Martins, de 34 anos, dirigente do local, para serem os auxiliares que darão suporte no trabalho, mulheres e homens se sentam separados, a explicação é que isso é uma doutrina antiga da religião.

Em concentração eles apagam as luzes e ficam concentrados durante aproximadamente quarenta minutos. Enquanto todos estão sentados, o silêncio toma conta do local. Segundo os daimistas é o momento de pedir energias positivas e rogar pedidos de paz e limpeza espiritual.

Na sequência o dirigente diz: "despacho do Santo Daime". Homens e mulheres em filas separadas se organizam para tomar a bebida, um chá. Ela fica em um vidro transparente em cima de uma mesa nos fundos do templo com velas, imagens e algumas fotos de pessoas mais velhas.

A cor meio turva e marrom é bem escura e quem serve é o dirigente. Um copo para mulheres e outro para os homens, e assim todos bebem e voltam aos lugares.

Do lado de fora, há uma cruz de caravaca e durante o trabalho velas são acesas nos pés. (Foto: Willian Leite)  Do lado de fora, há uma cruz de caravaca e durante o trabalho velas são acesas nos pés. (Foto: Willian Leite)

Algumas pessoas passam mal, até vomitam, ou sentem vontade de ir ao banheiro. O local é preparado com papel toalha para limpar a boca e papel higiênico para quem sentir dores na barriga. Eles explicam que esse sintoma é normal, por se tratar de uma limpeza espiritual.

Durante as quatro horas de trabalho, as pessoas tomam o líquido por três vezes e comem um pedaço pequeno de maça, que eles dizem tirar o gosto amargo que a bebida deixa na boca e depois voltam ao círculo para cantar e rezar. Um livrinho contém todo o roteiro para quem quiser acompanhar.

O efeito da bebida é particular, alguns demonstram primeiro, outros um pouco depois, cada um age de uma forma. Tem gente que treme as mãos, outros balançam o corpo, alguns perdem a força das pernas e pedem para sentar-se, outros parecem estar em outra dimensão. Os mais acostumados, que frequentam a religião há algum tempo, ficam o tempo todo concentrados e cantando.

Em alguns momentos homens e mulheres correm ao banheiro e a um cantinho que tem ao lado do templo para vomitar e ficam durante alguns momentos por lá. Os auxiliares, instituídos pelo dirigente no início do trabalho, ficam atentos o tempo todo, pois eles dizem que algumas pessoas que vão pela primeira vez podem até cair no sono durante o efeito da bebida, fato que não aconteceu neste dia.

E assim o trabalho vai chegando ao final e cinco minutos antes da meia noite, Erick Flávio encerra o ritual e todos se cumprimentam com abraços e apertos de mãos.

Ainda sob o efeito do chá, Erick conversou com nossa equipe e explicou que o Daime não se oferece, quem vem até o local é porque precisa de algum tipo de auxílio."O Daime permite que a pessoas vejam seu lado positivo e negativo. O chá é uma limpeza, pois ninguém é santo, digo isso enquanto dirigente, todos precisamos de nos renovar, e aqui tomando o Daime as pessoas têm a possibilidade de conhecer o que precisam evoluir em seus valores internos", afirma.

Pela primeira vez no Jardim da Rainha, o estudante, Edipo Roberto Ortiz, de 26 anos, conta sua experiência após tomar o chá do Santo Daime. "No início estava bem apreensivo, mas depois do primeiro copo senti uma sensação diferente que nunca imaginei sentir, houve um momento que tive a impressão de estar fora do meu corpo".

Carinhosamente chamado pelos mais novos de Seu Juci, um dos pioneiros da casa, Jucelino Viana de Araújo, de 59 anos, conta que frequenta os trabalhos de Santo Daime há 8 anos, para ele o ritual foi encontro de sua luz interior. "Quando comecei tomar o chá, não fazia ideia de qual era seu princípio, durante o efeito sinto vários tipos de energias e é aí que jogo fora o que tem de ruim e renovo o que preciso para os próximos 15 dias", fimaliza.

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