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Comportamento

No futuro, Rafael vai saber quem foi o vilão que o impediu de brincar

"O vírus passou a fazer parte das suas fantasias, como o vilão malvado que destrói o mundo nas histórias em quadrinhos"

Por Paula Maciulevicius Brasil | 25/03/2020 09:48


Perto da árvore, de casaco vermelho está Rafael, que aos 5 anos enxerga coronavírus como o vilão que não o deixa brincar com os amigos.
Perto da árvore, de casaco vermelho está Rafael, que aos 5 anos enxerga coronavírus como o vilão que não o deixa brincar com os amigos.

É pela sensibilidade de retratar o coronavírus através do olhar meigo do filho que Maria Matheus emociona. Ela de Londres, a gente daqui. Jornalista, a família está na Inglaterra desde dezembro de 2018, cenário onde Rafael, de 5 anos, tem enxergado o vírus como vilão de história em quadrinhos. Abaixo, a carta dela para o filho no futuro:

Às vezes escrevo cartas para meu filho ler quando crescer. Esta aqui decidi compartilhar.

Meu pequeno,

São dias estranhos. Insanos. Ouvimos nos noticiários os governantes do mundo repetindo “nunca em tempos de paz, nem de guerra”. Saímos às ruas com medo. "Não toque em nada". "Mantenha distância das pessoas". Sentimos saudades, nos abraçamos por telefone. Essa tarde você brincou de esconde-esconde com seus amigos por vídeo chamada.

O “vírus“ passou a fazer parte das suas fantasias, como o vilão malvado que destrói o mundo nas histórias em quadrinhos ou nos filmes de super-heróis.

Tempos tristes, tempos sombrios. Algumas vezes, as prateleiras dos mercados estão vazias. Os números nos massacram: 335.403, 14.611, 50 milhões... Muitas cidades pararam. Países inteiros até. Milhares perderam o emprego.

Enquanto isso, em casa, estou tentando te ensinar o que você deveria aprender na escola. Mas eu não sei ensinar, não dessa forma, não com esses métodos e, definitivamente, não nesse idioma, então, tenho que primeiro aprender. Isso me toma bastante tempo, horas de leitura, outras tantas de aulas online.

Algumas vezes fico frustrada por perder a calma, por ser incapaz de esconder minha preocupação, por deixar escapar diálogos que nenhuma criança deveria ouvir, por ser mais ríspida do que eu gostaria quando tudo o que eu quero neste momento é ser seu porto seguro, seu lago tranquilo, seu aconchego.

Eu sei que de uma forma ou de outra, isso vai ficar marcado para sempre. Mas espero que nas suas lembranças o medo e a preocupação se borrem até serem apagados, e fiquem as brincadeiras, ainda que por telefone, as inúmeras histórias que lemos, as cidades que construímos, as lutas de dinossauros, os jogos de adivinhação, as centenas de páginas que colorimos, as palavras de carinho e esperança que compartilhamos, as histórias daqueles que foram maiores que seus medos, o esforço dos cientistas, as canções nas janelas, os voluntários que deixaram mensagens nos muros, os professores que continuaram trabalhando para cuidar dos filhos dos médicos, enfermeiros, policiais, entregadores e tantos outros que não puderam ficar em casa com suas famílias, as pessoas que nos ajudaram a atravessar essa jornada e também aquelas que ajudamos.

Eu espero que a sua geração cresça sabendo valorizar o que realmente importa: o tempo junto, a família unida, os amigos verdadeiros, a saúde, a natureza, o amor pelo próximo. E entenda, melhor do que a nossa, que a relação do ser humano com o meio ambiente deve ser de respeito – somos uma faísca, somos frágeis, não somos invencíveis. Mas somos também fortes, somos altruístas, somos capazes de grandes sacrifícios, podemos nos adaptar, podemos construir coisas grandiosas. Sim, provavelmente precisamos ajustar os passos para a música perfeitamente orquestrada pelo resto do planeta, mas vamos chegar lá. Somos crianças, ainda estamos aprendendo.

Te amo.

Em janeiro deste ano, antes do número absurdo de mortes pelo coronavírus, Maria Matheus, Ronaldo e o filho Rafael visitavam Roma. (Foto: Arquivo Pessoal)
Em janeiro deste ano, antes do número absurdo de mortes pelo coronavírus, Maria Matheus, Ronaldo e o filho Rafael visitavam Roma. (Foto: Arquivo Pessoal)