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Comportamento

No mesmo dia, Judith sepultou marido e perdeu tudo para ladrões

O surpreendente nessa história é a maneira como dona Judith lidou com a situação e o sorriso no rosto que nunca se apagou

Por Raul Delvizio | 30/11/2020 07:21
Judith foi casa com Nestor por 18 anos até aquele "fatídico dia" (Foto: Raul Delvizio)
Judith foi casa com Nestor por 18 anos até aquele "fatídico dia" (Foto: Raul Delvizio)

Poderia ser tanto roteiro de filme quanto de série dramática, ou ainda uma novela daquelas. Mas aos 78 anos, Judith Maria Ribeiro Marques sabe que tudo o que passou se trata nada mais, nada menos, do que um episódio da vida real. Ela, que perdeu o marido para a depressão, teve a residência furtada por ladrões no mesmo dia do enterro do seu falecido e ainda ficou com os seis filhos do casal para criar – sem nunca ao menos ter trabalhado fora de casa. Mas o que impressiona, é o bom humor que lhe acompanhou durante a vida.

Às vezes me vem uma raiva daquele homem que me deixou sozinha aqui com os nossos filhos, todos olhando pro céu", brinca a matriarca da família Marques.

De bem com a vida, a velhinha de 78 anos conta "numa boa" sua história tragicômica (Foto: Raul Delvizio)
De bem com a vida, a velhinha de 78 anos conta "numa boa" sua história tragicômica (Foto: Raul Delvizio)

Tudo aconteceu em um domingo, 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida. O ano era 1981. Nestor era o administrador de fazendas que já lutava há tempos contra a depressão, mas foi morando em Campo Grande que seu quadro piorou.

Após idas e vindas em diversas propriedades espalhadas por MS, MT, SP e Pará, ambos assentaram os pés na recém criada Capital do Estado. Mesmo com ajuda, de nada adiantou para Nestor melhorar.

"Não havia tratamento para ele. Tinha vezes que ficava internado no hospital só por ficar, porque nem o médico sabia direito como lidar. E ele não falava nada, ficava quieto o tempo todo", relembra.

Até hoje, Judith não abandonou a aliança no dedo e o mesmo lado da cama onde deita para dormir (Foto: Raul Delvizio)
Até hoje, Judith não abandonou a aliança no dedo e o mesmo lado da cama onde deita para dormir (Foto: Raul Delvizio)

Naquele fatídico dia, Nestor preparou almoço, brincou com os filhos pequenos e tirou uma sesta. À tardinha, levantou com o comportamento alterado, angustiado, que Judith considera até hoje sendo uma "sapituca".

"Simplesmente ele saiu correndo, entrou no nosso quarto e só ouvimos o 'bum'. Nem ao menos fechou a porta. Eu que tava sentada no sofá acompanhei tudo de camarote. Não tive nem tempo de chorar, apenas falei pra minha filha mais velha de 17 anos na época cuidar dos menores e saí correndo pra fora de casa gritando por ajuda".

Judith e Nestor tiveram juntos 6 filhos (Foto: Raul Delvizio)
Judith e Nestor tiveram juntos 6 filhos (Foto: Raul Delvizio)

Nestor chegou ainda vivo no hospital, com a bala alojada na cabeça. Só foi morrer de fato na manhã no dia seguinte, uma segunda-feira. Judith se encontrava menos "desesperada" e os filhos todos juntos da mãe. O velório, que aconteceu à tarde, ocupou até o final do dia.

"Quando voltei pra casa, descobri que ela tinha sido assaltada inteirinha. Só ficou as camas e os móveis mais pesados, de resto foi tudo embora. Até as roupas do meu marido, não sobrou nada. Nem tive o trabalho de separar o que era do Nestor, os ladrões fizeram o serviço por mim".

Após 15 dias, Judith havia recebido doações básicas e estava com a cabeça um pouco mais no lugar. Sem formação e analfabeta, ela saiu na "cara e na coragem" caçar um emprego na cidade. Pegou o primeiro ônibus e se viu parar no Centro. Ela tinha 39 anos, sem nunca ter trabalhado formalmente, apenas como dona de casa que foi a vida toda até então.

"Foram tempos difíceis, e pra variar um final de ano bem triste também" (Foto: Raul Delvizio)
"Foram tempos difíceis, e pra variar um final de ano bem triste também" (Foto: Raul Delvizio)

"De manhã pegava roupa para levar por uns trocados e à tarde trabalha de copeira em um escritório. Pra mim era só almoço, porque a janta ficava para os meus pequenos. Foram tempos difíceis, e pra variar um final de ano bem triste também. A coisa só foi melhorar quando fui sorteada para uma casa no Estrela do Sul. Daí sim, era dia e noite para sustentar meus seis filhos, mas fui indo".

Os anos se passaram, as crianças cresceram, estudaram, mudaram de casa, formaram suas próprias família. Enquanto mãe, Judith até que deu conta do recado. São 14 netos e 6 bisnetos. Hoje aposentada, está em vias de abrir um brechó na frente de casa, com tudo que é coisinha de costureira que ela mesmo faz para vender.

Eduquei, criei meus filhos e vivo minha vidinha. Nestor tá com Deus, e a gente por enquanto continua aqui. Essa minha história já é passado, e tá tudo bem – sou muito feliz".

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Prole cresceu, e já conta com 14 netos e 6 bisnetinhos (Foto: Raul Delvizio)
Prole cresceu, e já conta com 14 netos e 6 bisnetinhos (Foto: Raul Delvizio)
Sua história de vida nunca a fez perder o brilho no olhar e sorriso no rosto (Foto: Raul Delvizio)
Sua história de vida nunca a fez perder o brilho no olhar e sorriso no rosto (Foto: Raul Delvizio)
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