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Campo Grande, Domingo, 19 de Maio de 2019

17/12/2018 08:16

No Pioneiros terreiro de Umbanda vira sarau cultural para reforma da casa

Com música, dança, poesia, desenho e até pastel vegano, terreiro se reinventa e abre as portas para arrecadar fundos

Gustavo Maia
Bárbara Albino em performance inspirada no livro Quarto de Despejo. (Foto: Gustavo Maia)Bárbara Albino em performance inspirada no livro Quarto de Despejo. (Foto: Gustavo Maia)

O Templo de Umbanda Pai Oxalá, no bairro Pioneiros, fez seu primeiro sarau para arrecadar fundos e bancar algumas reformas na casa. Apesar das ameaçadoras nuvens que anunciavam chuva para o fim da tarde de sábado, o pessoal da organização não se deixou abalar: preparou tudo para receber quem foi curtir a programação cultural e ajudar com as despesas do terreiro.

Luís Otávio, o dirigente do lugar, explica que por ser um dos terreiros de umbanda mais antigos da cidade - em atividade desde o início dos anos 70 - a casa passa por constantes manutenções. “É um prédio antigo; Então, sempre precisa de uma reforma aqui, outra ali. Alguma coisa na parte elétrica, ou na parte hidráulica”, explica.

Pai Luís, como é chamado, conta ainda que todas as reformas da casa são feitas, em sua maioria, com recursos vindos de doações das pessoas que frequentam o terreiro. “Além das contribuições que a gente recebe, todo ano tem uma festa agostina aqui no templo, que seria como uma festa junina fora de época, e a gente arrecada pras reformas também”, acrescenta.

Pai Luís explica que o templo Pai Oxalá se mantém graças às doações. (Foto: Gustavo Maia)Pai Luís explica que o templo Pai Oxalá se mantém graças às doações. (Foto: Gustavo Maia)

Na produção do evento, todo mundo trabalha e cada um ajuda como pode: na limpeza e decoração do espaço, na instalação das luzes e do som. Além disso, todo mundo se reveza para atender no caixa, na recepção, na cozinha, nos balcões de bebida e de comida, enfim, em tudo que precisa ser feito para que um sarau aconteça.

Antes mesmo de tudo começar, o cheiro do pastel já despertava a fome de quem chegava. Na cozinha, as trabalhadoras do terreiro preparavam tudo para servir ao público. E foi lá que conhecemos a jornalista Bárbara de Almeida e sua receita de pastel vegano. Bárbara conta que começou a trabalhar no Pai Oxalá em janeiro deste ano, e desde então passou a acrescentar no templo, em tudo que consegue, a opção vegana: da farofa ao bolo, e claro, no pastel do sarau. “Tudo se adapta”, considera.

A programação do sarau foi um verdadeiro mix de atrações.

A principal participação da noite foi a da cantora Brunet Monteux, que se apresentou com um repertório super versátil: do MPB ao reggae, do samba ao rock, de Marina Peralta a Amy Winehouse.

A artista Bárbara Albino dançou uma coreografia baseada num trecho do livro Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. Pietro Lara, estudante de Artes Cênicas e palhaço, encenou poesias de Manoel de Barros, com a participação da criançada que assistia.

Os músicos Arthur Machado e Édipo Ortiz aproveitaram que o microfone foi aberto ao público e mostraram talento na voz e violão. Mas as atrações não ficaram só no microfone.

Num cantinho discreto, no muro, estavam expostos o desenhos de Joyce Gomes, de 22 anos, que também ocupou o palco do sarau com seu berimbau, mostrando toques da capoeira que inclusive é o tema de seus desenhos.

Bárbara de Almeida revela sua receita vegana de carne de jaca. (Foto: Gustavo Maia)Bárbara de Almeida revela sua receita vegana de carne de jaca. (Foto: Gustavo Maia)
Em clima familiar, sarau reuniu de tudo um pouco. (Foto: Gustavo Maia)Em clima familiar, sarau reuniu de tudo um pouco. (Foto: Gustavo Maia)

E apesar de ser num terreiro de umbanda, não teve nada de muito religioso. Feito no estacionamento do templo, o sarau lembrou muito aquelas confraternizações em família no fundo do quintal da casa de algum tio - todo mundo se conhece e as crianças ficam correndo entre as mesas enquanto os pais comem e conversam, ora numa mesa, ora noutra.

Gilmara Brito é praticante da umbanda e pesquisadora da cultura afro-brasileira. (Foto: Gustavo Maia)Gilmara Brito é praticante da umbanda e pesquisadora da cultura afro-brasileira. (Foto: Gustavo Maia)

A historiadora Gilmara Brito, de 31 anos, conta que já trabalhou na casa como “cambone” - a pessoa que auxilia os atendimentos do terreiro -, mas hoje é “consulente” - quem apenas recebe atendimento, sem trabalhar no terreiro. Ela, que é pesquisadora da cultura afro-brasileira, diz que nunca percebeu ter sofrido qualquer discriminação. “É inegável que ainda existe o preconceito com a Umbanda, a discriminação, mas eu, particularmente, nunca fui discriminada. Não que eu tenha percebido, pelo menos”, relata ela, comentando que trabalha na educação justamente para combater os preconceitos.

Já quase no fim da festa, por volta das 23h, todo mundo - das crianças aos mais idosos - cai na pista de dança e se entrega à curtição, confirmando que a Umbanda tem mais cultura e alegria do que se prega no imaginário popular.




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