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Campo Grande, Sexta-feira, 06 de Dezembro de 2019

18/11/2019 07:52

O coração de Diego parou de bater, mas sua grandeza segue firme no amor

Desde o primeiro minuto da notícia, muito se falou sobre Diego Gonçalves Rodrigues, a sua luta e legado

Thailla Torres
Diego era presidente da Rede Apolo, acadêmico da UFMS, militante LGBT e um ativista pelos Direitos Humanos, especialmente, pelo direito de amar. (Foto: Emily Lima)Diego era presidente da Rede Apolo, acadêmico da UFMS, militante LGBT e um ativista pelos Direitos Humanos, especialmente, pelo direito de amar. (Foto: Emily Lima)

Na noite anterior, antes de partir, Diego comemorou com os amigos e sua bandeira colorida uma mudança que desejava há 580 dias e mexeu com o coração do País. Distribuiu sorrisos e não poupou abraços. Mas, pela manhã do dia seguinte, as notícias foram correndo pelo celular e as redes sociais. Com depressão, ele havia escolhido deixar de viver e cometeu suicídio em casa, no Jardim Parati, em Campo Grande.

Para muitos é cedo demais para tocar no assunto. De fato, a morte é recente. Mas desde o primeiro minuto da notícia muito se falou sobre Diego Gonçalves Rodrigues, a sua luta e legado. Maioria se despediu no enterro, no dia 10 de novembro, não só de um amigo, mas de alguém que viveu para transformar e mostrar que não se faz um movimento em silêncio.

Entre tantas homenagens e textos de amigos sobre a falta que Diego já faz, o Lado B foi ouvir o marido Ben Hur Spiacci Barbosa, que durante 10 anos dividiu com ele a vida. Dez dias após a morte, a saudade fala pelo grande amor que planejava mais 15 anos de companheirismo.

Bandeira que levava onde quer que fosse. (Foto: Emily Lima) Bandeira que levava onde quer que fosse. (Foto: Emily Lima)

Ben abre o portão da casa, onde os dois viveram nos últimos sete anos, ainda em lágrimas. Durante a entrevista, o sorriso aparece pouco, mas de um jeito sincero ao lembrar-se das conversas e o jeitinho especial do marido. “O que ficou dele além da saudade? Diego foi grande em tudo o que ele fez”, responde.

As lembranças de Ben das comemorações de bodas de estanho pelos 10 anos de união e bodas de papel pelo um ano de casados no civil, celebrados em outubro, numa cerimônia intimista, agora dividem espaço com o vazio, com a necessidade de se dar conta que nunca mais verá o rosto de Diego e nem sentirá o seu coração bater.

Ainda que tudo isso o machuque por dentro, Ben diz que prefere viver para honrar a grandeza do marido que, para ele, só está do outro lado do caminho, justifica ao citar tudo ainda no presente. “Sinto que ele está comigo, afinal, nós não nos separamos, não nos divorciamos, apenas me tornei viúvo e ele sempre fará parte de mim”, explica.

Ele descreve o que se lembra do crescimento de Diego na militância, na luta pelos direitos do público LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), na política e, claro, na época em que a admiração virou amor.

Diego e Ben casaram-se no civil há um ano. (Foto: Arquivo Pessoal)Diego e Ben casaram-se no civil há um ano. (Foto: Arquivo Pessoal)

Os dois se conheceram em Ponta Porã, a 323 quilômetros de Campo Grande. Diego era o intérprete de Libras e testemunha de Jeová. Ben, o professor de Biologia de escola pública. Bastou uma noite de cerveja entre amigos para surgir o primeiro beijo. De lá pra cá não houve separação. “É claro que todo relacionamento tem suas alegrias e seus desafios, com o nosso não foi diferente, mas cada momento foi muito maravilhoso. Diego fez parte de mim e eu dele”.

Ben também apresenta o marido pelos seus dons, um deles admirado por amigos e professores, o de saber usar perfeitamente as palavras. “Diego sabia como ninguém fazer de uma frase um discurso. Quando ele pegava um microfone era fato que transformaria cada palavra em algo especial de se ouvir”.

Aos 33 anos, Diego era presidente da rede LGBT Apolo MS e secretário LGBT do PT (Partido dos Trabalhadores). Ele também foi coordenador de Políticas Sociais e Gênero da Federação na Fasubra (Federação de Sindicatos de Trabalhadores Técnico-administrativos em Instituições de Ensino Superior Públicas do Brasil) e representou a instituição no Conselho Nacional de Combate à Discriminação LGBT, e como integrante da Juventude da Internacional de Serviços Públicos (ISP). Em Mato Grosso do Sul, Diego lutava para combater a violência, o conservadorismo, o machismo e reivindicava investimentos do setor público. Também era acadêmico de Ciências Sociais da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul).

Ainda que não tivesse medo para falar o que quisesse, Diego sabia como ninguém que não é fácil se abrir, se assumir, bater no peito e falar “eu sou gay”. Situação que hoje em dia não se trata de coragem, mas de força para enfrentar todo o preconceito que a sociedade insiste em usar como ferramenta para machucar. “Desde que ele passou a fazer parte de todo o movimento, ele não parou de lutar um minuto. Foi anos vendo o Diego passar 15 dias em casa e 15 dias viajando, participando de comissões, lutando verdadeiramente pela pauta LGBT. Ele parecia incansável”.

Casal viveu junto 10 anos. (Foto: Arquivo Pessoal)Casal viveu junto 10 anos. (Foto: Arquivo Pessoal)

Diego foi matéria no Lado B, em 2016, contando sua experiência ao revelar para a família sua orientação sexual. Ainda naquela época falou sobre rejeição, depressão e liberdade emocional. Mas, ressaltou que no campo sentimental, a revelação trouxe a felicidade em conseguir assumir pela primeira vez um relacionamento e amar sem medo.

Isso também era o que dava forças para seguir com as ações da Rede Apolo, lembra o viúvo. “Não era fácil, mas Diego se dedicava muito a Rede. Aliás, ela existia no ideal e no imaginário dele. E acredito que sem essa garra, ela não existiria mais”.

O movimento também era tema do TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) que Diego estava prestes a apresentar na UFMS. “O tema dele era A Frente Parlamentar LGBT, estava ansioso pelo fim, e tenho certeza que seria um trabalho belíssimo”.

Na despedida, no último domingo, Ben respeitou a identidade ativista de Diego a todo o momento. A saudade dos amigos dividiu espaço com as cores da bandeira sobre o caixão. Ele foi enterrado deixando também uma reflexão sobre os limites da relação que trazem à tona a dor que se instaura em que perde um amor ou amigo para o suicídio.

Ao fim da entrevista, Ben confessa que não segura o choro ao olhar para o quarto e a cama onde juntos amanheciam todos os dias. Em breve, ele diz que vai se mudar da casa, não para esquecer Diego, mas, para ter forças e caminhar de coração mais leve com o legado deixado por ele.

De todas as lições deixadas, Ben pede que a luta que Diego sempre travou contra o preconceito continue, que sua ausência não leve a retrocessos e que todos esses problemas possam ser discutidos de formas menos ou nada moralistas.

Ele cita ainda uma música de Alcione, “O que eu faço amanhã”, questionando-se sobre o futuro, mas em poucos minutos ele mesmo dá a resposta. “O Diego honrou a minha vida, honrou a nossa relação e hoje vou seguir honrando a história dele. É isso que quero fazer”, finaliza.

Diego tinha 32 anos e partiu na manhã do dia 9 de novembro de 2019.

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Despedida de Diego teve a combinação de cores que ele mais amava. (Foto: Arquivo Pessoal)Despedida de Diego teve a combinação de cores que ele mais amava. (Foto: Arquivo Pessoal)
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