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Campo Grande, Sexta-feira, 24 de Maio de 2019

10/03/2019 07:40

Pedro e os pais perderam tudo em incêndio, menos a esperança de recomeçar

Com 26 anos de história na mesma casa, a família viu a vida se transformar, mas segue otimista e com planos para o dia em que o filho "queimado" sair do hospital.

Kimberly Teodoro
Depois de incêndio, a família que quase perdeu o filho mais velho e viu a casa destruída por incêndio, ainda acredita em uma vida melhor (Foto: Kísie Ainoã)Depois de incêndio, a família que quase perdeu o filho mais velho e viu a casa destruída por incêndio, ainda acredita em uma vida melhor (Foto: Kísie Ainoã)

Há cerca de dois meses, um incêndio mudou a vida de Pedro Henrique, de 8 anos, que ficou conhecido nas manchetes dos jornais da capital depois de ter 90% do corpo queimado. Ainda internado e sem previsão de receber alta, ele continua determinado em vencer a batalha pela vida e apresenta uma melhora considerável. Em casa, os pais, Zulema da Silva, de 60 anos, Reginaldo Pereira de Arruda, de 56 anos o irmão João Pedro, de 7 anos, seguem otimistas, depois de ver a casa em que viviam há 26 anos reduzida a cinzas, o que não falta é esperança para recomeçar a vida assim que o filho mais velho voltar para casa.

Hoje a família mora nos fundos da casa de uma vizinha, que cedeu a edícula de quarto, cozinha e banheiro, sem custos até que eles consigam se recuperar da tragédia que não é a primeira a atingir Reginaldo e Zulema nos últimos anos. Reginaldo, que trabalhava como pedreiro, está desde 2018 afastado da construção civil, depois de um quadro de tuberculose seguido de pneumonia, que além do emprego com o qual sustentava a mulher e os filhos, também o afastou do sonho de se formar. “Eu tinha voltado a estudar e já estava no 1º ano, meu plano era cursar Engenharia Civil depois de terminar a escola. Por causa da doença e do tempo que fiquei internado, acabei tendo que interromper os estudos,quando ia conseguir voltar, aconteceu tudo isso”, conta.

Após o incêndio, a estrutura da casa precisou ser derrubada pelo corpo de bombeiros (Foto: Henrique  Kawaminami)Após o incêndio, a estrutura da casa precisou ser derrubada pelo corpo de bombeiros (Foto: Henrique Kawaminami)
Hoje da casa que foi lar da família por 26 anos, só restam os escombros (Foto: Kísie Ainoã)Hoje da casa que foi lar da família por 26 anos, só restam os escombros (Foto: Kísie Ainoã)

Recentemente uma campanha nas redes sociais e na imprensa conseguiu arrecadar doações de roupas, brinquedos e material de construção para reconstruir a casa. Para que Pedro Henrique e João Pedro tenham um novo lar falta apenas limpar o terreno, que após o fogo, permanece cheio de entulho. Segundo Reginaldo, o orçamento mais barato para a retirada dos escombros ficou em R$ 1,8 mil, quantia fora das possibilidades da família.

Zulema e Reginaldo são Corumbá, mas a história dos dois como casal só começou na década de 1990, quando em busca de oportunidades melhores, ele veio para Campo Grande trabalhar na construção civil e ela arrumou um emprego como babá aqui na capital. Sem nunca terem se visto na cidade natal, eles “vieram até aqui para encontrar um ao outro” na igreja que frequentam até hoje.

Já com 37 anos, Zulema tinha dificuldades em engravidar e chegou a perder um bebê aos 3 meses de gestação. “Procurei o médico, um japonês, e ele me disse que o tempo que levaria fazendo o tratamento, eu deveria adotar uma criança. Tem tanta criança precisando de um lar, que eu e meu marido resolvemos entrar na fila de adoção”, conta.

Animado, João Pedro mostra os brinquedos novos (Foto: Kísie Ainoã)Animado, João Pedro mostra os brinquedos novos (Foto: Kísie Ainoã)

O casal esperava adotar um menino e uma menina, a espera levou 6 anos, tempo em que o processo precisou ser renovado, mas que não acabou com a esperança de Zulema e Reginaldo, que acompanhavam e perto o andamento da fila e iam ao juizado todos os meses. Era noite quando Zulema recebeu a ligação do conselho tutelar, a notícia era de que, ao contrário do esperado, dois meninos precisavam de cuidados e que o casal poderia buscá-los no dia seguinte pela manhã. “O João Pedro ainda era um bebê, e estava para morrer com uma disenteria e febre que não paravam, fraquinho, ninguém achava que ele ia sobreviver, mas eu me encantei com ele e trouxemos ele para casa assim que os papéis ficaram prontos e cuidei dele até ele sarar. O Pedro Henrique já tinha 2 anos, mas o juíz disse que não separava família e nos deu os dois”, relembra.

Reginaldo já ouviu muito que as crianças não são filhos de verdade, mas nada diminui a dedicação de pai, que vai todos os dias, de ônibus e bicicleta visitar Pedro Henrique na Santa Casa. “Muitas vezes as pessoas não enxergam a necessidade do outro, quando a criança vem, você precisa ver a necessidade da criança. Ela vem de lá, ela vem sem orientação nenhuma. Aí você pega ela e com 3 dias, 4, você começa a orientar, ela cria amor em você e vira um filho. Só o carinho dela já preenche o lugar de um filho, eles são amorosos e só precisam receber esse amor de volta. Se você pegar um filho adotivo e um biológico, o filho adotivo te dá muito mais valor”, explica. “Se outro chegar e falar que eu não sou o pai dele, ele briga e diz: é meu pai. Isso me enche de orgulho”.

Na edícula de dois quartos e um banheiro cedida pela vizinha, João mostra o quarto em que divide a cama com os pais (Foto: Kísie Ainoã)Na edícula de dois quartos e um banheiro cedida pela vizinha, João mostra o quarto em que divide a cama com os pais (Foto: Kísie Ainoã)

Sem lágrimas nos olhos, Zulema demonstra aceitação depois dos acontecimentos, para ela a tragédia poupou o mais importante: a vida dela e dos filhos. Depois do incêndio, quem seguiu para o hospital com Pedro foi Reginaldo, que havia acabado de chegar em casa, desde então a mãe não viu a criança, porque alguém precisava ficar cuidando de João, que só voltou para a escola na última quinta-feira (7), por falta de condições financeiras da família em arcar com o transporte.

Recentemente, a moto que usada por Reginaldo para ir até o hospital e fazer bicos como pedreiro, foi roubada. "Foi uma pessoa que eu já tinha visto algumas vezes, uma vez eu emprestei R$ 20 e uma trena para ajudar ele. Quando ele viu a nossa situação, ele bateu aqui e disse que iria me ajudar, como eu tinha ajudado ele. Contou uma história de que trabalhava em uma firma e que iria conseguir ajuda para limpar o terreno, só precisava levar uns papéis até o escritório, para no outro dia voltar com a escavadeira. Eu estava de saída, mas ele disse que era rápido, que até eu terminar de tomar banho ele estaria de volta. Nunca mais voltou e ninguém apareceu para limpar o terreno", conta.

Ainda assim, mais apegado ao pai, Pedro não fica um dia sem receber a visita de Reginaldo, que conta com quatro passes fornecidos pela assistência social da Santa Casa para ir duas vezes na semana de ônibus ver o filho. Nos outros dias, o pedreiro atravessa a cidade, do bairro Polonês até o centro, com uma bicicleta que ele comprou para conseguir ir até o hospital nos dias que não recebe passe.

Pedro Henrique é descrito como uma criança inteligente, cheio de vida e que adora jogar bola, gosto que mesmo no hospital, ele não perdeu. Segundo Reginaldo, a cada visita o menino demonstra a vontade de voltar para casa e se anima só de ouvir falar na bolsa de futebol que vai ganhar assim que receber alta.

Pouco compreendido, Pedro foi por muito tempo visto como uma criança que segundo Zulema, tem “acesso de nervos”, um “comportamento” que melhorou muito depois do diagnóstico de autismo, que ajudou a família e os professores a lidarem melhor com ele e incentivar o desenvolvimento, que segundo reginaldo melhorou muito nos últimos 2 anos. “Antes as professoras não tinham muita paciência com ele, ele ia para escola, mas não acompanhava a turma. Hoje o Pedro tem uma professora só para ele, os dois tem, e agora ele melhorou muito, já sabe todas as letras, passou de ano com boas notas, é outra criança”, diz o pai.

Muito brincalhão e esperto, ele tem uma “personalidade bem elevada, no tom que ele está brincando, ele já fica bravo, mas é uma criança muito carinhosa. Do mesmo jeito que ele brigava, já volta e pede desculpa, abraça. É o que cativa a gente e eu não me conformo dele estar naquele hospital até hoje”, diz Reginaldo.

Segundo os pais, João sabe da situação em que o irmão se encontra e pergunta sempre sobre o dia em que verá Pedro novamente. Amável e com a inocência que só as crinas tem, assim que a equipe de reportagem o Lado B entra na casa da família, ele faz questão de mostrar a cama que divide com os pais no quarto atulhado de doações. Também é ele que apressa Reginaldo para a foto com ele e de Zulema, mas faz questão de avisar que a cena não está completa. “Também tenho um irmão”, avisa.

“Quero conseguir reerguer a casa até o Pedro sair do hospital, quando ele chegar aqui vai ter o próprio quarto e um lugar bonito para morar. Vou fazer melhor do que era antes. Também vou procurar uma escolinha de futebol, porque é o que ele ama fazer, temos que incentivar ele a fazer o que gosta”, conta Reginaldo sobre os planos para recomeçar ao lado da família.

Para ajudar a família, entre em contato pelos números (67) 99870-5121 e (67) 98194-9923.

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