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Campo Grande, Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018

12/03/2018 21:59

Provocações em Câmara lotada terminam em confusão durante palestra de filósofa

Marcia Tiburi participou do evento "Diálogos Contemporâneos" e disse que nunca viu reação tão agressiva quanto em Campo Grande

Thaís Pimenta
Câmara estava lotada, com cadeiras expostas até mesmo na parte externa da casa de leis. (Foto: Paulo Francis)Câmara estava lotada, com cadeiras expostas até mesmo na parte externa da casa de leis. (Foto: Paulo Francis)

Normalmente, palestras não costumam reunir muita gente na Câmara Municipal de Campo Grande, mas quando o assunto bate de frente com os conservadores, a coisa ferve. Foi o que ocorreu ontem (12) à noite durante a abertura do evento Diálogos Contemporâneos, com a palestra da escritora, professora e filósofa Marcia Tiburi e o tema “Vozes dissonantes - ética, liberdade e autoritarismo na internet”. A casa das leis estava lotada, com todas as 260 poltronas internas do plenário ocupadas, além de cadeiras na parte externa do espaço. 

Depois de alguns momentos tumultuados, o clima ficou tenso quando o espaço para perguntas foi aberto. Papeis foram distribuídos à plateia, para que os questionamentos fossem respondidos por Marcia. Em dado momento, cerca de quinze pessoas, reunidas em um ponto extremo do plenário, com camisetas do MBL (Movimento Brasil Livre), máscaras com o rosto do líder do movimento Kim Kataguiri, além de representantes do grupo Voluntários da Pátria, começaram a questionar Marcia, aos gritos, sobre o porquê de suas perguntas não serem respondidas.

A convidada chamou as pessoas para frente do plenário e pediu para que eles se retirassem, pois estavam sendo muito "inconvenientes" e recebeu apoio da plateia com frases como "fascistas e machistas não passarão". No meio da confusão, um dos integrantes do Voluntários da Pátria, o advogado Bruno Brandão, diz que levou um soco no nariz, o que por pouco não virou uma briga.

"A gente tem posse das filmagens, a gente vai abrir um boletim de ocorrência. Filmamos o próprio ex-BBB, o Mamão, incentivando a briga, a gente filmou ele empurrando, xingando e incentivando aquelas outras pessoas a agredirem, sem contar que a própria palestrante, a Marcia que começou com as agressões", acusou o Coordenador Estadual do MBL e estudante de direito, de 20 anos, Lucas de Santos Serafim. 

O integrante do PT e advogado Ilmar Renato Fonseca, o Mamão, garante que só foi separar a briga. "Na hora que começou o debate, próximo do plenário, algumas pessoas se levantaram e eu fui tirar essas pessoas dali. E aí esse pessoal que estava tumultuando o processo desde o começo, porque eles saíram programados de casa a tumultuar esse debate tão rico, demonstraram que, justamente, com eles não tem diálogo, com eles é grito e baixaria".

Para o advogado, o grupo conservador demonstrou o quanto é difícil dialogar hoje no País. "Isso demonstra o quão as linhas de diálogos estão fechadas, e era justamente essa a pauta da palestra. O que eles querem é sair como vítimas, dizendo que eles estavam aqui no espírito democrático. Quem fazia muito isso era a juventude nazista do Hitler e do Mussolini, isso é tática quando você sabe que o seu discurso é de ódio, de não aceitar o diferente, o que você faz é tumultar, porque você não tem argumentos filosóficos e sociológicos para debater".

Para os integrantes dos grupos conservadores, a atitude deles não foi agressiva. Para Ilmar foi justamente o contrário: "Violenta e deselegante para com uma pessoa que produz conhecimento". 

Integrantes dos grupos MBL e Voluntários da Pátria depois do tumulto, já a caminho da delegacia. (foto: Thaís Pimenta)Integrantes dos grupos MBL e Voluntários da Pátria depois do tumulto, já a caminho da delegacia. (foto: Thaís Pimenta)

Antes de toda a confusão, Marcia palestrou durante cerca de uma hora e debateu a questão do autoritarismo com base nos estudos do filósofo alemão Theodor Adorno, definindo o "fascista em potencial", termo criado pelo estudioso. 

Com uma didática de professora, uma clareza de ideias e ironia peculiar, Márcia começou por definir termos como alma, diálogo, ridículo político, subjetividade e personalidade autoritária, para então poder explicar, enfim, como os "haters" digitais se socializam na internet e porque encontram na plataforma espaço e apoio para suas ideias.

Declaradamente feminista e fomentadora da democracia brasileira, Marcia declarou, numa espécie de premonição do que viria a acontecer, que não existe liberdade de expressão no discurso de ódio. "É uma fala que apaga o outro, aniquila a minha liberdade e a dele próprio".

Na compreensão dela, diálogo só ocorre se o outro estiver interessado em, pelo menos, refletir. "O diálogo é um método reflexivo que se constitui dentro de condições de possibilidades favoráveis, e isso na nossa cultura do capitalismo é muito difícil de se ter. O diálogo requer uma predisposição ética, concentração, e é isso que vocês [plateia] estão iniciando comigo. É um conceito muito diferente de uma conversação, por exemplo. O diálogo não exige que você concorde comigo, não quer provar nada a ninguém, ele te faz refletir sobre o assunto e isso um fascista em potencial não consegue jamais vivenciar porque ele nem se permite ouvir o outro".

Depois das agressões físicas e verbais, a palestrante disse nunca ter visto uma resposta tão agressiva quanto a vivenciada em Campo Grande e brincou dizendo que viria pra cá mais vezes. "Vocês [campo-grandenses] estão precisando de ajuda e de mais eventos que toquem nesses assuntos", justificou.

O Campo Grande News é um dos apoiadores do evento, por acreditar na força do diálogo.

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Marcia Tiburi é uma artista plástica, professora de Filosofia e escritora brasileira. (Foto: Paulo Francis)Marcia Tiburi é uma artista plástica, professora de Filosofia e escritora brasileira. (Foto: Paulo Francis)


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