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Comportamento

Rapper indígena, Ana mostra que o lugar do índio é onde ele quiser

Com sonho de voltar à aldeia, ela é a guarani-kaiowá influenciadora digital que cursa gestão ambiental na UFGD

Por Raul Delvizio | 13/04/2021 08:15
Anarandá é a rapper guarani-kaiowá que sonha algum dia ainda voltar para a aldeia (Foto: Arquivo Pessoal)
Anarandá é a rapper guarani-kaiowá que sonha algum dia ainda voltar para a aldeia (Foto: Arquivo Pessoal)

Aos 24 anos, Randa Kunã Poty Rory (traduzido para "mulher flor brilhante, carismática e comunicadora") é guarani-kaiowá que não só relembra as memórias do tempo de aldeia, mas vive sua cultura na pele, sangue e peito com muito orgulho. Mesmo não estando presente na comunidade que costumava viver, ela ainda sonha em algum dia retornar. E, mesmo com a pandemia, não está muito longe disso.

Cursando atualmente gestão ambiental na UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), abandonou sua terra natal Amabai para conhecer a vida de "homem branco" no município douradense. Mais do que isso, estudar e crescer. Hoje, ela é a rapper indígena e influenciadora digital que pensa em montar uma escola na aldeia Guapoy, onde nasceu e foi criada.

"Quero terminar o curso e voltar o quanto antes para minha comunidade de batismo. Levar tudo que aprendi e aplicar dentro da aldeia, incentivar os jovens a lutarem pelos seus sonhos como assim também fiz, para não abandonarem suas raízes e, principalmente, se esquecerem da ancestralidade. Quem sabe, ainda criar uma escola por lá. É o que mais desejo", admite.

Rapper mostra que lugar do índio é onde ele quiser fazendo o que bem entender (Foto: Arquivo Pessoal)
Rapper mostra que lugar do índio é onde ele quiser fazendo o que bem entender (Foto: Arquivo Pessoal)

Para os não-indígenas, Randa é conhecida como Ana Lúcia Rossate. Até pouco tempo atrás, se descobriu enquanto a rapper Anarandá (junção do seu nome urbano com o de mata) que fala sobre sua identidade cultural, canta os problemas e rima a esperança de viver plenamente enquanto uma guarani-kaiowá.

"Quando pequena, eu vivia na aldeia livremente, sem medo algum, junto dos pássaros, das árvores e dos rios. Aprendia todos os dias a manter a cultura viva e preservar minha língua materna. Brincava de plantar semente e ajudar minha mãe a cultivar alimento. Gostava muito de ir ao rio Pandui ensinar outras crianças a nadar. Ainda, lembro bem da minha mãe e do meu pai no dia do meu batismo, todos eles emocionados pelos rituais da nossa cultura, onde o pajé benze, canta e escolhe pessoas que vão ser a voz da comunidade. Meu avô disse à época que foi Tupã Nãnderu (Deus) quem me escolheu nesse papel. Por isso, estou aqui hoje falando em nome de todos os meus familiares e amigos", revela.

Registro de Ana com amigos, isso na época em que morava na aldeia Guapoy, em Amabai (Foto: Arquivo Pessoal)
Registro de Ana com amigos, isso na época em que morava na aldeia Guapoy, em Amabai (Foto: Arquivo Pessoal)

Mas é por meio do rap que ela sente que entrega a mensagem da melhor forma, principalmente para os jovens. "Incentivo mulheres e outras pessoas a também serem corajosas e batalhadoras, de ser resistente perante a sociedade dos não-indígenas. Temos que ser quem realmente somos!", ressalta.

Só foi aos 14 anos de idade que Anarandá aprendeu a falar português. Com isso, se inspirou na mescla da língua materna e do idioma brasileiro para também se tornar a professora de tupi-guarani e diversidades culturais por meio do NAIN (Núcleo de Assuntos Indígenas) Jaguapiru da UFGD.

"Sempre estudei na aldeia com professores indígenas e nem sabia falar o básico. Só depois, já na adolescência, que tive contato com a cultura não-indígena e comecei a praticar. Nunca mais parei. Amo muito o que faço hoje", confessa.

Além de rapper, ela cursa gestão ambiental na UFGD e segue como influenciadora digital (Foto: Arquivo Pessoal)
Além de rapper, ela cursa gestão ambiental na UFGD e segue como influenciadora digital (Foto: Arquivo Pessoal)

Com isso, a música – no caso o rap – não demorou muito a aparecer. "Descobri um grupo de meninas lá de Brasília, o 'Atitude Feminina', e também de outros artistas indígenas que ouvi falar, como Katu Mirim, todos eles que me inspiravam nessa jornada. Quando pequena, brincava de cantarolar à noite com as meninas, então isso sempre foi forte em mim. Mas até então, não sabia que algum dia iria dividir o sonho de me tornar uma rapper também", relata.

Quando o kadiwéu e amigo MC Fabio Vogado, do Refletir MC's, a convidou para integrar o grupo o qual ela até hoje faz parte. Na época, aceitou sem pensar duas vezes. "Para nós indígenas, esse processo é bastante solitário porque não há ajuda, então todo o caminho de aprendizado temos que por nós mesmos, seja na hora de gravação ou de como colocar nossas músicas nas plataformas on-line. Muitas vezes, é verdade, nos sentimos desanimados por falta desse tipo de apoio à nós artistas indígenas", opina.

Pelo convite de um amigo, Ana Lúcia se tornou a rapper Anarandá do grupo Refletir MC's (Foto: Arquivo Pessoal)
Pelo convite de um amigo, Ana Lúcia se tornou a rapper Anarandá do grupo Refletir MC's (Foto: Arquivo Pessoal)

Entretanto, fazendo acontecer pelo rap, Anarandá já pode viajar e levar sua cultura para fora do estado. "Assim, vou ocupando meu espaço nesse grande movimento que é a cultura hip hop das mulheres indígenas e não-indígenas e, no meu caso, conto histórias das guarani-kaiowá na minha língua materna", diz.

Por causa da pandemia, na adaptação do virtual, ela se encontrou enquanto influenciadora guarani-kaiowá. "Foram poucos os convites presenciais, é claro, que chegaram até mim. Mas por meio das lives, pude ter a esperança das pessoas se reconectarem, darem as mãos novamente e tentar seguir em frente de cabeça erguida", reflete. Atualmente, tem um canal no YouTube, além do seu perfil no Instagram, Facebook, TikTok e até na rede social chinesa Kwai.

"Eu influencio a respeitar e conhecer o nosso modo de viver. Estou sempre desenvolvendo conteúdo sobre a língua materna, os costumes, rituais, sobre a religião indígena e até nossa educação tradicional e cotidiano diário. No mundo de hoje, com a globalização e polarização da cultura, nós jovens indígenas tivemos uma invasão cultural não-indígena muito forte dentro das aldeias e isso, consequentemente, reflete em nossas  vidas".

Nas redes sociais, ela brinca com efeitos, mas também posta tudo que é conteúdo sobre sua cultura (Foto: Arquivo Pessoal)
Nas redes sociais, ela brinca com efeitos, mas também posta tudo que é conteúdo sobre sua cultura (Foto: Arquivo Pessoal)

Em 6 semestres da faculdade, Anarandá explica que o caminho nem sempre foi fácil. "Parei de estudar por 1 ano pois andava sofrendo demais com o preconceito, por ser a indígena cotista. Não conseguia me adaptar e isso mexeu muito com meu psicólogo. Procurei ajuda e voltei a estudar por agora. Estou firme e forte, ansiosa para concluir logo o curso e voltar para a aldeia que tanto amo", confirma.

É sendo assim, a mulher, indígena orgulhosa, estudante de gestão ambiental, rapper e influenciadora digital, que ela espera ajudar muitas outras vida como – na sua "sorte" – ela mesma vivencia.

"Meu sonho se resume em três coisas: quero montar uma escola dentro da aldeia onde os pajés possam ser os professores ao lado das nãnde sy (parteiras). Assim, que continuem ensinando sobre sobre nossa cultura. Em segundo, que possamos tratar nessa escola sobre as questões ambientais e desenvolver projetos para a comunidade. Em terceiro, abrir aulas de música e fazer um esforço conjunto para tirar jovens que se encontram perdidos, no mundo das drogas, sem esperança. Quero mostra que sempre, sem dúvida alguma, ela é a última que morre", finaliza.

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