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Campo Grande, Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017

20/03/2017 07:27

Selado em aliança, namoro de casal down revela um amor genuíno e sem preconceito

Paula Maciulevicius
Débora e Bruno namoram desde outubro, mas oficialmente só a partir deste final de semana. (Foto: Marcos Ermínio)Débora e Bruno namoram desde outubro, mas oficialmente só a partir deste final de semana. (Foto: Marcos Ermínio)

"- Débora Edith dos Santos, você gostaria de namorar comigo?
- E ela vai aceitar que sim". A pergunta e a resposta são de um namorado ansioso pelo sim da sua cara metade. Antes do pedido, Bruno sentou para contar sua história de amor. A do menino que nasceu com Síndrome de Down e encontrou, aos 40 anos, a "garota da minha vida", como já disse para a sogra e amigos. Os dois têm Síndrome de Down, se conheceram na Escola Juliano Varela, uniram as mães - Ângela e Aura - e fizeram a gente suspirar em uma festa de compromisso que foi a cara deles. 

"Eu conheci ela no segundo dia, lá na escola. O que eu mais gosto nela? O que eu mais gosto nela é tudo mesmo", se declara. Bruno Rosa Manso é auxiliar administrativo na Assembleia Legislativa. Fala da profissão com o mesmo amor com que descreve Débora.

 

O que eu mais gosto nela? O que eu mais gosto nela é tudo mesmo, declara Bruno. (Foto: Marcos Ermínio)O que eu mais gosto nela? O que eu mais gosto nela é tudo mesmo", declara Bruno. (Foto: Marcos Ermínio)
Na descrição, tanto Débora quanto o amor, são a mesma coisa: uma pessoa romântica, nas palavras do namorado. (Foto: Marcos Ermínio)Na descrição, tanto Débora quanto o amor, são a mesma coisa: uma pessoa romântica, nas palavras do namorado. (Foto: Marcos Ermínio)

Os dois que tiveram a ideia, juntos, de colocarem aliança de compromisso e fazer uma festa. Foram quatro meses de planejamento, desde a escolha da decoração até as lembrancinhas, feitas de corações de feltro.

"Eu chorei um pouco antes em casa também. De ansiedade. Não, a gente não namora ainda, vou pedir a Débora hoje, agora", me explica. "Porque é a nossa festa de compromisso", completa.

Nascido em Botucatu, interior de São Paulo, Bruno foi criado em Coxim e depois se mudou para Campo Grande com a família. Mais velho de três filhos, tem cabelos claros e um belo par de olhos azuis que conseguem ir além da transparência que a Síndrome de Down traz consigo, é tão puro nos sentimentos que nos levam a refletir como a vida deveria de ser.

"Eu amo a Débora, muito, de paixão. Ela é uma pessoa romântica, compreensiva e eu gosto muito dela e ela de mim", descreve a namorada. E a resposta para o que é o amor é exatamente a mesma. 

"O amor é uma pessoa romântica por dentro dela mesma, eu amo ela de paixão, de amor, de amizade. Ela é o amor da minha vida. E eu tinha certeza de que ia encontrar sim. Como eu sei que é ela? Por que ela é a minha cara metade".

Os dois se conheceram na escola Juliano Varela. (Foto: Marcos Ermínio)Os dois se conheceram na escola Juliano Varela. (Foto: Marcos Ermínio)

Juntos, Bruno conta que eles beijam na boca, se abraçam e dormem na mesma cama. A aliança, foi ele mesmo quem comprou com o próprio cartão. "A minha tem uma faixinha e a dela, uma pedrinha", diferencia. 

E a aliança saiu do bolso da camisa preta, elegante, de Bruno. Coisa que a mãe dele e a sogra só souberam horas antes dele subir ao palco. Sozinho, ele combinou tudinho, ensaiando até o que iria falar para o pai dela. 

Bruno é super articulado, Débora já exige da gente uma certa atenção a mais para compreender o que ela fala, mas nem por isso deixa de se declarar ao, agora, namorado. Mãe de Bruno, a professora Maria Ângela Rosa Manso, de 67 anos, quem conta como foi para a família receber a ideia do compromisso.

"A gente estava programando a festa de aniversário dele e eles queriam fazer o compromisso. Partiu deles, nós achamos que ainda é cedo, que eles têm que caminhar um pouco, mas acabamos deixando", admite.

Casal fez poses para várias fotos. (Foto: Marcos Ermínio)Casal fez poses para várias fotos. (Foto: Marcos Ermínio)

Débora é nascida em Teresina, no Piauí e já vive a segunda temporada em Campo Grande. Por conta do trabalho do pai, a segunda menina de quatro filhos, morou em várias cidades do País. Com 28 anos voltou para cá e foi estudar na mesma escola do Bruno.

"Quando a Débora chegou e começou a frequentar a escola, no mesmo dia o Bruno me falou: 'mãe, eu estou de olho em uma menina nova'", lembra Ângela. As famílias só foram se conhecer em um churrasco e de imediato, se aproximaram.

"Alguém da escola falou: 'a Débora é linda' e ele disse: 'eu quero'", lembra a jornalista, mãe dela, Aura Rossana Oliveira dos Santos, de 47 anos.

Aura, com um sotaque carregadíssimo daqueles que a gente se delicia em ouvir, acrescenta que os dois uniram ela e Ângela. "Tem essa relação entre as famílias. A primeira vez que eles saíram juntos, para ver se a Débora caía nas graças de Bruno, nós fomos juntas", recorda.

O casal foi até a bilheteria e comprou sozinho o ingresso. As mães ficaram do lado de fora. "E eu roendo as unhas menina, numa ansiedade, porque era a primeira vez deles, minha e da Ângela", explica Aura.

A dela, Aura. Juntas, mães namoram com o casal. A dela, Aura. Juntas, mães namoram com o casal.
Mãe dele, Ângela. (Fotos: Marcos Ermínio)Mãe dele, Ângela. (Fotos: Marcos Ermínio)
Ela tem 28 anos e ele, 40. (Foto: Marcos Ermínio)Ela tem 28 anos e ele, 40. (Foto: Marcos Ermínio)
Na hora do pedido. (Foto: Marcos Ermínio)Na hora do pedido. (Foto: Marcos Ermínio)
As alianças que ele comprou sozinho. (Foto: Marcos Ermínio)As alianças que ele comprou sozinho. (Foto: Marcos Ermínio)
Débora também falou sobre o amor e pediu para namorar com Bruno. (Foto: Marcos Ermínio)Débora também falou sobre o amor e pediu para namorar com Bruno. (Foto: Marcos Ermínio)
O abraço do tamanho do mundo que o casal deu depois da aliança. (Foto: Marcos Ermínio)O abraço do tamanho do mundo que o casal deu depois da aliança. (Foto: Marcos Ermínio)

Emocionadas, as mães viram que era amor logo ali. "Não sabíamos ainda o que viria, mas ele passou a mão no cabelo dela com tanto carinho e gentileza e depois ela disse: 'mãe, eu estou apaixonada pelo Bruno'", narra a jornalista.

Um é louco pelo outro e não se separa. Na escola, eles se veem de segunda a sexta e um final de semana é passado na casa de Bruno e o seguinte, na de Débora. As famílias tiveram de administrar a ideia, para que na cabecinha do casal, o compromisso seja apenas um namoro e não um casamento, ainda. 

Técnica em educação especial, Ângela explica que já pensou na possibilidade do casamento, até por conhecer outros casais. "A gente tem uma vontade muito grande de que eles se tornem independentes. Vai ser sempre uma independência supervisionada, mas eles são capazes de casarem, de ter uma família e viverem juntos, disso eu não tenho dúvida", aposta a mãe.

De olho nas conversas dos dois e também no que eles perguntam e relatam à família, a professora conta que tenta, sempre que pode, explicar o que deve ser um relacionamento. "Eles não têm essa noção de relacionamento como nós temos. Estão aprendendo juntos e eu tento falar que relacionamento é uma troca, que nem tudo o que um gosta, o outro gosta, mas que se um faz algo pelo outro, o outro também faz e é assim que se vive bem", resume Ângela.

Depois do "sim" de Débora e dos pais dela, o casal se esbaldou no palco, com direito até a valsa.

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Felizes, namorados dançaram até no final da festa. (Foto: Marcos Ermínio)Felizes, namorados dançaram até no final da festa. (Foto: Marcos Ermínio)
Com as alianças. (Foto: Marcos Ermínio)Com as alianças. (Foto: Marcos Ermínio)
E o beijo! (Foto: Marcos Ermínio)E o beijo! (Foto: Marcos Ermínio)



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