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Comportamento

Nem supervalorização vale mais que uma casa simples, mas da vida toda

Por Ângela Kempfer | 21/03/2012 11:30
Waldir no portão de casa, com vista para Orla Morena. (Foto: João Garrigó)
Waldir no portão de casa, com vista para Orla Morena. (Foto: João Garrigó)

Há mais de 50 anos Waldir mora no mesmo lugar. Casou, criou os filhos, separou da mulher e a única coisa que não mudou nesse tempo todo foi de endereço. Há alguns anos, a região se transformou consideravelmente, ele não.

A Orla Morena desapropriou parte do quintal do aposentado no bairro Cabreúva, mas em troca supervalorizou a área que até então ficava em um lugar pouco prestigiado da cidade.

Hoje, a plantação de milho ocupa o espaço cobiçado por pessoas que querem montar um negócio no point do bairro, em frente à pista de caminhada. Nos fundos, há um pequeno galpão, onde antes funcionava a oficina, hoje com quinquilharia, que Waldir arrematava em leilões até o final dos anos 90. “estou limpando agora para alugar”, explica.

Ao lado, Waldir mora em uma casa pequena, com dois cômodos. No quarto, os móveis de 1958 são de angelim, “eu mesmo mandei fazer dessa madeira que já não existe hoje”, comenta. Há também uma geladeira nova, um fogão dos arrematados em leilões, uma máquina de escrever “onde dá para catar milho ainda”, brinca o dono, e um sofá estragado.

Os vizinhos são seos inquilinos do aposentado, que aluga quartos por uma renda total de cerca de mil reais ao mês. “Não preciso de muita coisa. Tenho também aposentadoria e vivo na paz”, comenta ao lembrar da namorada de 53 anos, com quem divide o tempo, “quando não estou com ela, estou com Deus”.

A máquina de escrever decora a pequena casa no Cabreúva.
A máquina de escrever decora a pequena casa no Cabreúva.

Aos 80 anos, nada muda o andar tranquilo do ex-mecânico. Na avenida movimentada, ele ainda caminha sobre o asfalto, sem se importar com o vai e vem dos carros em alta velocidade. “Não tem perigo não, conheço isso há muito tempo”, justifica.

Sobre as ofertas que já recebeu pela área de cerca de 800 metros quadrados, Waldir só falta dar de ombros. Abre o sorriso, mas diz coisas que mostram a “desimportância” do negócio. “Tem gente que procura, quer comprar para montar alguma coisa, mas não vendo. Não sei nem quanto vale, por isso prefiro não colocar preço”.

Waldir pode até abrir mão do milharal, que também esconde o que sobrou dos produtos arrematados nos leilões, como uma geladeira GE. “Se quiser, eu dou para você”, faz a proposta. Mas diz não pensar em abrir mão da casa onde viveu quase toda sua história, porque “vale mais que qualquer carro na garagem” ou luxo do dia-a-dia.

“Vou pensar em vender só essa parte do terreno onde está o milho, para comprar uma casinha na beira do rio, em Rochedo e pescar. Vou pensar nisso”.

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