Audinéia deixou enfermagem e se reencontrou restaurando arte sacra
Restauradora transforma imagens religiosas em memórias de família
Em um ateliê rodeado por pincéis, tintas, pedaços de gesso e imagens desgastadas pelo tempo, a restauradora Audinéia Nogueira, de 49 anos, encontrou uma nova profissão. Foi no cuidado com imagens sacras antigas, carregadas de histórias familiares e devoção, que ela também restaurou a própria vida.
Católica praticante desde 2007, Audinéia conta que a aproximação mais profunda com a fé aconteceu aos poucos, durante a caminhada dentro da Igreja. Antes disso, a rotina era completamente diferente. Formada como técnica de enfermagem e em administração, ela trabalhou por cerca de 15 anos na área da saúde e passou boa parte dos anos no vai e vem de hospitais e centros cirúrgicos.
No entanto, uma sequência de problemas de saúde mudou os planos. Audinéia desenvolveu LER (lesão por esforço repetitivo) por conta do trabalho e passou por um período que define como “deserto”. Em meio ao novo momento, precisou reaprender movimentos simples, enfrentou limitações motoras e chegou a acreditar que nunca mais iria se recuperar.
Foi justamente nesse período que começou a pedir a Deus uma nova direção. “Eu pedia um trabalho onde eu pudesse ajudar as pessoas enquanto elas ainda estivessem vivas, fazendo alguma coisa importante para elas”, lembra.
O começo veio através de uma amiga que vendia artigos religiosos. Aos poucos, Audinéia foi conhecendo mais sobre o universo das imagens sacras, até que, pouco tempo depois, surgiu a oportunidade de abrir um pequeno espaço próprio, dentro de uma loja no Bairro Monte Castelo.
Com ajuda do marido e de amigos da igreja, ela montou uma lojinha simples, aconchegante e cheia de artigos religiosos. No entanto, a inauguração aconteceu justamente às vésperas da pandemia. “Deu aquele blackout e fechou tudo”, resume.
Sem estrutura e ainda começando do zero, Audinéia precisou se adaptar. Como vendia terços, bíblias e lembranças religiosas, passou a montar pequenas bancas nas comunidades católicas durante as missas. A própria comunidade ajudou a manter o sonho de pé.
Mas o rumo da história mudou de vez quando uma amiga da Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora perguntou se ela teria interesse em fazer um curso de arte sacra. Até então, Audinéia nunca tinha pensado em trabalhar com restauração, mas, mesmo insegura, aceitou.
Durante a pandemia, uma professora abriu uma exceção para ensiná-la individualmente. Foi ali que ela aprendeu técnicas tradicionais do barroco, pintura marmorizada e acabamentos usados em imagens religiosas antigas.
A restauração veio depois, com clientes que chegavam pouco a pouco. Primeiro chegaram pequenas imagens quebradas. Depois, quadros antigos e peças com décadas de história. E junto delas vieram também as emoções.
A restauradora conta que entendeu rapidamente que, para muitos clientes, a imagem religiosa vai além de um objeto decorativo e se transforma em memória, herança familiar, promessa, fé e afeto. “Cada restauração é uma vida restaurada também”, avalia.
Uma das primeiras peças que marcaram sua trajetória foi um quadro de Nossa Senhora Aparecida que estava há 45 anos na mesma família. Sujo e desgastado pelo tempo, o quadro ficava guardado em uma oficina mecânica. A dona queria recuperar a peça porque era um presente de uma pessoa muito querida.
“Quando a cliente voltou para buscar, até chorou. Não é pela imagem em si, mas pelas lembranças que ela carrega”, explica.
Depois disso, vieram muitas outras histórias. Uma senhora se emocionou ao encontrar uma imagem restaurada do Sagrado Coração de Jesus que lembrava a devoção da avó já falecida. Outra cliente levou uma antiga imagem de Nossa Senhora de Caacupé, com cabelos naturais e detalhes delicados, uma peça que marcou a vida da mãe. “Cada peça é um desafio e uma emoção diferente. Eu nunca sei exatamente como vai terminar”, comenta.
Hoje, ela restaura imagens de gesso, madeira, crucifixos, quadros religiosos e peças antigas importadas. Um dos trabalhos mais desafiadores foi recuperar uma santa de madeira, trazida da Itália por um padre. A peça sofreu uma rachadura após uma queda.
Sem experiência com madeira, ela estudou técnicas, pesquisou materiais e criou uma mistura específica para preservar os detalhes da peça. Antes de iniciar qualquer restauração, Audinéia conta que conversa com a imagem. “Eu peço licença. Falo que vou fazer o meu melhor, mas que preciso de ajuda”, conta.
A relação espiritual também se fortaleceu durante o trabalho. Enquanto pinta uma imagem, ela costuma estudar a história do santo, entender o significado das cores e pesquisar os símbolos usados em cada peça. Para ela, isso transformou o trabalho em algo muito maior que estética. “Não tem como isso não aumentar a fé”, afirma.
Os trabalhos costumam começar em torno de R$ 200, dependendo do tamanho e do estado da peça. Parte do valor é usada para comprar materiais específicos, como tintas especiais, pincéis, cola e diferentes tipos de gesso.
Mesmo após tantos desafios, Audinéia continua buscando profissionalização. Antes de abrir a loja, ela procurou cursos no Sebrae para entender como estruturar o negócio corretamente. Foi lá que aprendeu sobre gestão, custos, público-alvo, organização financeira e o funcionamento do MEI (microempreendedor individual).
“Eu queria fazer tudo certinho. Os cursos me ajudaram a entender a realidade financeira dos clientes e adaptar o trabalho à minha região. A formalização também me deu mais segurança para comprar matéria-prima e organizar meu crescimento. Atualmente, a restauração é minha fonte de renda”, destaca.
Hoje, Audinéia continua atendendo, estudando novas técnicas e planejando novos cursos. Mas, acima de tudo, segue encontrando sentido nas histórias que chegam até sua bancada. “Eu percebi que não restauro só as imagens, eu restauro histórias. E com meu trabalho também restaurei a minha”, finaliza.
Confira a galeria de imagens:
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