Famosos nos dentes de rappers, Luís faz grillz até para crianças
O que parece apenas um acessório passa por um processo que mistura odontologia, tecnologia e joalheria
RESUMO
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Protético de Campo Grande produz grillz, joias removíveis para dentes populares no hip-hop, unindo odontologia e tecnologia. Luís Henrique Fernandes usa escaneamento intraoral e impressão 3D para criar peças personalizadas em metal, prata ou ouro, com pedras e desenhos. Produzindo cerca de 50 unidades por mês, ele envia encomendas para todo o Brasil. As peças são estéticas e removíveis, não substituem próteses e não devem ser usadas ao comer.
Quem vê pela primeira vez costuma demorar alguns segundos para entender o que está olhando. Não é aparelho ortodôntico, nem prótese e muito menos um dente de ouro permanente. As peças metálicas, lisas ou com pedras, cruzes, desenhos e até caveiras, são encaixadas sobre os dentes como um acessório removível. Chamadas de grillz, elas nasceram na cultura hip-hop americana, ganharam fama nos sorrisos de rappers e artistas e hoje também são produzidas em um laboratório de prótese dentária de Campo Grande.
É dali que saem as peças feitas pelo protético Luís Henrique Fernandes. Há nove anos na profissão, ele entrou no mercado dos grillz há cerca de dois anos. O laboratório, onde antes produzia apenas coroas e próteses, passou a dividir espaço com modelos de arcadas, peças em cera e uma impressora 3D, que virou parte da rotina.
Antes de virar uma joia, cada grill existe apenas na tela de um computador.
Quem mora em outro estado faz um escaneamento intraoral em uma clínica ou consultório odontológico e envia o arquivo digital. O exame é realizado com um equipamento semelhante a uma escova de dentes elétrica, equipado com uma pequena câmera que registra toda a arcada em poucos minutos. Também é possível optar pela moldagem tradicional em gesso. Depois, o molde segue para o laboratório.
Com o arquivo ou o molde em mãos, Luís produz uma réplica da arcada em resina fotossensível. O software divide a imagem em centenas ou até milhares de camadas e a impressora endurece o material aos poucos, reproduzindo cada detalhe da boca.
“Ela fatia o arquivo inteiro. Cada camada recebe um pulso de luz e vai endurecendo a resina naquele ponto. No fim, sai uma cópia perfeita da boca da pessoa.”
Com o modelo pronto, começa a parte artesanal do processo.
Cada grill é modelado em cera e segue para a fundição, quando o metal substitui a cera e ganha a forma definitiva. Depois vêm o lixamento e o polimento, feitos manualmente.
A impressão 3D também ampliou as possibilidades. Luís conta que já existem programas capazes de desenhar toda a peça no computador antes mesmo da impressão e que ainda está aprendendo a trabalhar com essas ferramentas.
“Hoje dá para fazer coisas extremamente detalhadas usando a impressão 3D. Ainda estou aprendendo esses programas, mas eles permitem criar peças muito mais elaboradas.”
Acostumado a trabalhar diariamente com dentes e próteses, ele explica que cada grill é feito sob medida.
“Cada boca é diferente. Não existe uma peça pronta. É literalmente uma joia feita para aquela pessoa.”
Popularizados pelo rap americano e, mais recentemente, por artistas brasileiros, os grillz deixaram de ser exclusividade dos palcos. Luís produz cerca de 50 peças por mês e envia encomendas para diferentes estados. Entre os pedidos que mais chamaram atenção está o de um cliente que havia perdido o dente da frente. Em vez de colocar uma prótese convencional, ele quis uma caveira.
“Fiz a caveirinha e os grillz dos lados. Ficou exatamente como ele queria.”
Mas esse está longe de ser o único modelo diferente. Alguns clientes pedem apenas um detalhe discreto em um único dente. Outros cobrem parte ou toda a arcada. “Cruzes, pedras, desenhos… dá para fazer o que o cliente imaginar.”
Entre as peças já produzidas também há uma versão inspirada na pintura A Criação de Adão, de Michelangelo, além de modelos com pedras coloridas, formas geométricas e desenhos personalizados.
Os materiais também variam. As versões mais simples são produzidas com ligas metálicas odontológicas próprias para uso na boca. Também é possível fazer peças em prata ou ouro e acrescentar pedras e outros acabamentos. Apesar do encaixe perfeito, os grillz não substituem próteses. São acessórios removíveis e não devem ser usados durante as refeições.
“Pode usar normalmente, mas não para comer. O ideal é retirar, lavar e guardar.”
A higienização é feita com água, escova macia e sabão neutro, que são suficientes para limpar a peça. O único cuidado é evitar creme dental, que pode reduzir o brilho do metal com o tempo.
Nas redes sociais, o trabalho ganhou projeção depois que um vídeo mostrando uma criança usando um grillz personalizado ultrapassou 600 mil visualizações. A repercussão levou o perfil a públicos de diferentes estados e ajudou a divulgar um mercado que, segundo Luís, ainda reúne poucos profissionais especializados no Brasil.
Embora a maior parte dos clientes seja adulta, ele diz que já produziu peças para crianças, sempre com autorização e acompanhamento dos responsáveis.
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