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Consumo

Sem Praça Bolívia, exposição é na mesa de casa e vendas pelo celular

O toque nos produtos e pechincha de preços deram lugar às fotos tiradas em casa e conversas pelo WhatsApp

Por Danielle Errobidarte | 10/04/2020 07:41
Patrícia coloca obras de arte em cima da mesa de casa e tira fotos para enviar aos clientes. (Foto: Arquivo Pessoal)
Patrícia coloca obras de arte em cima da mesa de casa e tira fotos para enviar aos clientes. (Foto: Arquivo Pessoal)

A tradicional feira da Praça da Bolívia, que acontece todo segundo domingo do mês, foi cancelada pela primeira vez por causa do novo coronavírus. Palco de artistas regionais, exposições de artesanatos e banquinhas que vendem de saltenha à moda africana, a solução para não perder a fonte de renda de quem tem a feira como sucesso de lucro e interação com as pessoas, foi recorrer ao delivery.

Mas não é tão fácil assim vender sem o boca-a-boca. Na praça, os expositores já têm clientes fixos. A feira é um ponto turístico da cidade há mais de dez anos. Ficar sem ela é, também, ter um local a menos para descobrir outras culturas em Campo Grande.

Elenir Rodrigues vende acessórios em jeans há pelo menos 10 anos. Antes de expor, participava como consumidora. As encomendas durante o período de isolamento vêm dos clientes fixos feitos nas edições anteriores. Ela está aprendendo a usar o WhatsApp para negociar as peças, mas garante que o contato de quem compra, com os artesãos, faz uma baita falta. “Uma coisa é ver por foto, outra é tocar. No artesanato a gente tem que se preocupar em explicar cada detalhe, altura, largura, tecido... É uma verdadeira negociação”.

Ela ainda não aprendeu a utilizar as redes sociais, afirma que é “do tempo do blog”, mas o site serve como catálogo dos produtos e também para Elenir acompanhar a própria evolução das técnicas ao longo dos anos. Mesmo assim, não deixa de fazer entregas. “Tenho um pouco de dificuldade com redes sociais, mas posto tudo no blog. A feira faz falta, é importante para os próprios artesões se integrarem. Com os moto-entregadores, também prefiro contratar alguém do bairro, um vizinho que precisa, para estimular o comércio local”.

Turbantes de Sandra são vendidos pelo Instagram durante quarentena. (Foto: Reprodução)
Turbantes de Sandra são vendidos pelo Instagram durante quarentena. (Foto: Reprodução)

Com os pais idosos e uma sobrinha com deficiência em casa, Sandra Padilha não arrisca nem sair no portão para fazer as entregas de turbantes e acessórios de cabelos. Enquanto não volta a expor na Praça, ela, que foi uma das primeiras a chegar ao local há mais de uma década, também recorreu à internet para vender. “Ainda bem que já estava acostumada a enviar produtos para fora, mando para São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, tudo venda online. Agora que comecei a fazer máscaras, é uma ajuda porque a feira faz falta financeiramente, mas também o ambiente familiar e cativante deixa saudade em todos nós”.

As embalagens das máscaras de Sandra são entregues em embalagem vedada e saem sempre com o moto-entregador às 15h. Para maior segurança, o pacote vai com orientações, coladas em uma cartinha que traz esperança. “Até os turbantes eu explico como deve usar, o que eles significam e faço vídeos para postar no IGVT do Instagram explicando detalhes de como usar. Mas a maior falta que eu sinto mesmo é de estar lá”.

Saltenhas são tradicionais na Praça. (Foto: Instagram/Reprodução)
Saltenhas são tradicionais na Praça. (Foto: Instagram/Reprodução)

O boliviano Dione Zurita foi um dos fundadores da feira na Praça e o primeiro a vender saltenha por lá. Para ele, ficar sem atender os clientes é mais do que perder uma fonte de renda. “Na feira é onde tenho minha renda, mas também momentos para conversar, reunir com os amigos e familiares. São horas de diversão pra mim. Tenho o prazer de ver as pessoas se deliciando com alimentos que faço com tanto carinho. Nunca ficamos sem o evento antes”.

Há apenas seis meses como expositores, o casal Aldriane Lobato e Luciana Sales perceberam que o movimento nas feiras, após a liberação com a medidas de segurança, diminuiu 70%. Na Praça Bolívia, eles vendiam temperos e especiarias. “Embrulhamos os potinhos no insulfilme, deixamos apenas amostra e entregados o produto vedado num saquinho. É o que podemos fazer para nos adequarmos”, explica Aldriane.

Tentando vender pela internet há uma semana, a artista plástica Patrícia Helney ainda não vendeu nenhuma obra. A maioria de seus clientes vinha da feira na Praça, acrescentado de algumas vendas esporádicas. “É terrível ficar sem feira, mas fazer o quê? Se em tempos normais já não é fácil, em confinamento é muito pior”.

Apesar da venda dos artesanatos não ser a principal fonte de renda da professora Laís Camargo, o dinheiro arrecadado com a exposição de itens infantis e ecológicos há dois anos, vai fazer falta. “Acredito estar ainda mais difícil para quem tem as barracas na feira como profissão principal. A loja é minha renda extra, os gastos principais consigo cobrir com meu salário, mas vai fazer falta com certeza”.

Camila Ferraz e o esposo Juliano estão na feira da Praça Bolívia desde 2009. Para eles, a venda de artesanato hippie zerou e a solução foi tentar vender pelo WhatsApp. “Não estávamos preparados para isso. E a feira é referência em vendas, é dinheiro certo. Tínhamos em mente uma loja online, mas só agora percebemos o quanto é necessário para os clientes nos acharem com facilidade”.

Eles expõem as peças em outras feiras livre e na Praça Ary Coelho. Com planejamento de matéria prima, eles conseguem continuar produzindo em casa, mas acham arriscado saírem para vender. “Meu esposo tem pressão alta e eu, problemas respiratórios. Não saímos para lugar nenhum e temos muito medo de ir trabalhar, apesar de algumas feiras terem voltado”, lamenta.

Gourmeteria de temperos está há quatro anos como banca fixa na feira. (Foto: Arquivo Pessoal)
Gourmeteria de temperos está há quatro anos como banca fixa na feira. (Foto: Arquivo Pessoal)

Em julho as sócias Ana Carla Castello e Regina Pereira completam quatro anos de vendas de temperos e geleias naturais na praça. A estratégia montada para a quarentena faz jus ao nome “Goumeteria Criativa”. Elas investiram em cardápios semanais congelados usando os temperos que fabricam. “Estamos testando agora. Os pratos vieram da necessidade de amigos que não queriam cozinhar todo dia e gastavam na preparação. Passamos a divulgar mais nosso cardápio e entregamos uma vez por semana”, explica.

A feira também era a principal fonte de renda de Kossi Ezou, que comercializa moda africana nas edições da feira da Praça Bolívia desde 2017. Para atender os clientes do interior do estado, ele envia as peças pelos Correios, mas estoca algumas para pronta entrega. “Agora está difícil, praticamente parado, porque não tenho site ainda, é só por rede social. Ficar sem feira é ficar sem renda, mas entendo que é preciso tomar as precauções necessárias para diminuir o contágio”.

As peças de expositores da feira na Praça Bolívia podem ser encontradas através do Instagram da própria praça (@pracabolivia), que divulga telefones para contato com os proprietários das bancas e como adquirir os produtos.

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