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Capital

Drama de Vera Lúcia é um entre 50 mil na capital que não tinha favelas

Campo Grande já recebeu o contestável título e hoje soma 236 áreas ocupadas irregularmente

Por Cassia Modena | 16/03/2026 11:55
Drama de Vera Lúcia é um entre 50 mil na capital que não tinha favelas
Menina caminha em beco da comunidade Cidade dos Anjos, onde moram cerca de 300 famílias (Foto: Osmar Veiga)

“Essa casa é sua casa, nós deixamos ela pra você, Jesus”. O refrão de uma música gospel vinha de uma caixa de som e ecoava na última sexta-feira (13) num beco da comunidade Cidade dos Anjos, erguida em Campo Grande há cerca de 10 anos.

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A comunidade Cidade dos Anjos, localizada em Campo Grande (MS), abriga cerca de 300 famílias em condições precárias. O local, que já foi conhecido como Cidade de Deus e ficava próximo ao antigo lixão, enfrenta problemas como alagamentos e queda de árvores sobre os barracos durante eventos climáticos extremos. Campo Grande possui atualmente 236 áreas ocupadas irregularmente, com mais de 50 mil pessoas. A Emha (Agência Municipal de Habitação) promete resolver a situação da Cidade dos Anjos em um ano e meio, após visita do ministro Guilherme Boulos. O programa Sonho Seguro prevê regularização fundiária e construção de novas moradias até 2028.

Naquela semana, a Campanha da Fraternidade encampada pela Igreja Católica levou à Câmara de Vereadores e à Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul discussões sobre a falta de moradia na Capital. Estiveram lá arcebispo, pastores e outros líderes religiosos, além de representantes de comunidades e de movimentos sociais.

Crianças descalças, cães e gatos pisavam na terra encharcada da Cidade dos Anjos pela manhã. Choveu por dias seguidos, mas felizmente os moradores não enfrentaram estragos sérios desta vez. O histórico da área é de queda de árvores sobre os barracos e alagamentos. O pouco que se tem é perdido sempre que um extremo climático resolve castigar. A maioria não sabe o significado de Justiça Climática, mas sente na pele a falta dela.

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Cidade dos Anjos é nome de filme famoso, assim como era o da comunidade que existia no mesmo lugar, a Cidade de Deus. Na época em que surgiu, ela ficava ao lado do lixão. Os moradores eram vizinhos de montanhas de sacolinhas recolhidas pelo caminhão de lixo nos bairros e alguns ultrapassavam as cercas para procurar material reciclável entre urubus e ratos. A morte trágica de um menino de 11 anos soterrado nos rejeitos repercutiu nacionalmente, acelerando o fim daquele cenário e a substituição por um aterro sanitário.

Desalento - Vera Lúcia Maria de Souza tem 65 anos e há alguns meses pediu para um dos filhos pintar de azul-bebê o portão improvisado do barraco que fica na entrada da Cidade dos Anjos. Uma cor delicada para diferenciá-lo do restante das habitações, já que a família abriu uma pequena conveniência anexa que precisa chamar atenção. Eles vendem pães, ovos e industrializados diversos como salgadinhos, bolachas, pirulitos e geladão. Dose de pinga, cerveja, cigarro e isqueiros também estão nas prateleiras de ferro.

A idosa até esboça um sorriso ao posar para foto, mas a expressão inteira é de desalento. Com a voz baixa, diz estar lidando com um problema de saúde que pode ser grave. Veio do interior do Estado para monitorar na Capital um cisto no fígado. Mudou-se para o Bairro Lageado, mas não conseguiu continuar pagando aluguel. É mais uma mulher que criou quatro filhos sozinha sem a ajuda do pai. Vera Lúcia não comenta muito sobre como e quando essa responsabilidade recaiu sobre seus ombros. “Ele bebia demais, daí larguei”, resume.

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Idosa e filho mantêm vendinha dentro da comunidade para fazer algum dinheiro extra (Foto: Osmar Veiga)

A mulher vive na Cidade dos Anjos há mais de cinco anos, ao lado do barraco de um dos filhos, da nora e dos netos. Recebe Bolsa Família para comprar o essencial. O lugar preferido no único cômodo onde mora é justamente o lado de fora, no quintal onde plantou uma roseira, um mamoeiro, um pé-de-boldo e tem diversas plantas ornamentais em latas de tinta e galão de combustível reutilizados. “Será que vai dar para levar todas quando a gente for embora daqui?”, pensa em voz alta.

Uma vizinha de Vera Lúcia explica que corre uma promessa de que a Cidade dos Anjos será derrubada e os moradores receberão lotes para construírem as próprias casas. Os barracos já estão “selados”, termo que se refere à identificação das famílias e numeração de moradias pela Emha (Agência Municipal de Habitação) de Campo Grande, para futura remoção.

Fora não ter casa digna para morar, o que mais angustia a idosa é um exame pendente há mais de um ano. Ela aguarda na fila de pacientes. “Precisa saber como tá e se é maligno o cisto”, explica. Na semana anterior, recebeu alta da internação numa UPA (Unidade de Pronto Atendimento). Justifica estar muito magra porque às vezes não sente fome.

Drama de Vera Lúcia é um entre 50 mil na capital que não tinha favelas
No portão do barraco, a idosa relata dificuldades e afirma não sentir vontade de comer (Foto: Osmar Veiga)

Sua vida já foi melhor. Vera nasceu em Cuiabá (MT) e veio com os pais para Corumbá (MS), onde trabalhou por 15 anos como funcionária da prefeitura. Foi para a Bolívia para trabalhar num restaurante, onde descobriu o problema no fígado. Decidiu vir para Campo Grande para ser atendida pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e contar com bons médicos que não teria como pagar.

Já foi uma capital sem favelas? - O título de “a primeira capital sem favelas” foi atribuído a Campo Grande num passado recente, há pouco mais de 20 anos. O diretor-presidente da Emha, Claudio Marques Costa Júnior, o contesta.

“Então, como você me explica que há mais de um ano eu entreguei o título para ocupações de 36 anos no Jardim Sayonara, perto do Aeroporto? Alguém pode me explicar?”, questiona. Ele trabalha há quase uma década na agência e chegou à presidência há dois anos, acreditando que a Capital nunca deixou de ter pessoas vivendo em lugares precários.

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Diretor-presidente da Emha, Claudio Marques, em entrevista durante o lançamento de programa habitacional (Foto: Juliano Almeida/Arquivo)

Segundo um levantamento da Emha, existem atualmente 236 áreas públicas e privadas ocupadas irregularmente por famílias que somam mais de 50 mil pessoas. São 10 mil os lotes nessa situação, que equivalem a 5% da área urbana da Capital.

As mais de 200 ocupações abarcam desde comunidades com características de favela como a Cidade dos Anjos, a Nova Esperança e o Novo Samambaia até conjuntos de casas em melhores condições. “São diferentes níveis de precariedade ou sem precariedade. A gente agrupou todas as irregulares”, explica Cláudio. As mais antigas, como a Homex, foram regularizadas e tituladas, mas vão dando lugar a novas a cada ano.

Dados preliminares da pasta indicam que cada família nessas ocupações é formada por cinco pessoas em média e que metade dos moradores não é de Campo Grande. Mais detalhes serão apurados até setembro deste ano pela Emha.

Soluções para 2,5 anos - Ainda de acordo com o diretor, a agência nunca havia feito um mapeamento completo das habitações irregulares, detalhando o número de casas, de pessoas e restrições legais para manter as habitações. Parte dele ficou pronto para dar base ao programa Sonho Seguro, que a prefeitura pretende finalizar até 2028. A proposta é fazer a regularização fundiária (legalizando e dando escritura), reformar banheiros e construir novas moradias populares.

O número de famílias cadastradas para sorteio de casas populares já foi de 67 mil, mas caiu para 37 mil. De 2017 para cá, a Emha entregou 5 mil unidades com subsídios municipais, estaduais e federais. Outras foram erguidas pelo mercado privado e vendidas por meio de financiamento com subsídios do programa Minha Casa, Minha Vida.

Há 822 casas em construção atualmente. Elas só dariam conta de atender à demanda se fossem concluídas nessa mesma quantidade por 12 anos.

Drama de Vera Lúcia é um entre 50 mil na capital que não tinha favelas
Conjunto no Parque dos Novos Estados é um dos que está em construção atualmente (Foto: Marcos Maluf/Arquivo)

O aumento do orçamento para a habitação e a participação maior da agência de habitação estadual e de programas federais são a soma de forças que seria necessária, na opinião do diretor, para melhorar o quadro. Esse percentual foi defendido durante a audiência na Câmara.

1% para a habitação - Atualmente, são R$ 14 milhões no orçamento para moradias populares. Teria que chegar a R$ 60 milhões para atingir o mínimo de 1%, percentual que é garantido por lei à cultura de Campo Grande, por exemplo.

Cláudio explica que o Sonho Seguro inclui um grande "parque" de casas para locação construído no formato PPP (Parceria Público-Privada) para reduzir o déficit de habitações entre as famílias com rendas mais baixas e uma outra iniciativa.

"A prefeitura está tendo a coragem de trazer 817 unidades que serão 100% subsidiadas pelo Município, não tem dinheiro do Estado e nem federal. Será uma contrapartida mensal de R$  3,5 milhões. Nós já estamos falando em 1% num futuro próximo de três, quatro anos. Estamos comprometidos porque existe um estudo feito nos últimos três anos e a gente já está na fase de elaboração do edital para publicação", anuncia.

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Rua que dá acesso à comunidade Cidade dos Anjos (Foto: Osmar Veiga)

Promessa de ministro - Quanto à Cidade dos Anjos, a promessa mais recente sobre o fim dos barracos foi feita durante a visita do ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, em 5 de fevereiro deste ano. São cerca de 300 famílias vivendo lá atualmente, segundo estimativa repassada na data.

A previsão dada é a de que em um ano e meio eles deixem o local. "Tem terreno [da União] para fazer o projeto, começamos a elaborar. Não vai ser para amanhã, mas startou", completou Boulos.

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