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Diversão

Bororo: o dono dos sambas enredos de Campo Grande

Por Ângela Kempfer | 16/02/2012 11:23
Bororo, na porta de casa.
Bororo, na porta de casa.

Só neste ano, Vagner Catharinelli garante que foi convidado para fazer sambas para sete das nove escolas de Campo Grande. Depois de muito tempo na rotina de pelo menos cinco composições para o desfile por ano, Bororo - como é conhecido, disse não.

“Isso é fazer Carnaval de brincadeira. Como pode? Uma só pessoa escrever para todo mundo? É monopolizar”, justifica. Ao fim das contas, acabou assinando os sambas enredos de três agremiações: o da Deixa falar, do Unidos do Aero Rancho e da Cruzeiro.

Durante anos, Bororo foi campeão pela Vila Carvalho, mas em 2012 diz que resolveu mudar de ares e apostou na estreante Deixa Falar, com o samba em homenagem a Porto Murtinho. Para o Cruzeiro escreve há décadas e “para o Aero Rancho faço para ajudar”, detalha.

Desde 76 ele faz samba, para escolas e também blocos, uma herança da folia de quando ainda era criança. “Desde muito pequeno desfilava nos blocos na rua 14 de Julho. Na época, era tudo muito animado. Lembro do bloco do Badu, era o mais famoso”.

Durante anos, era o samba de Bororo que determinava o enredo em escolas menores da cidade. Ainda hoje, aos 68 anos, ele se empolga de tal maneira que precisa editar as letras depois de fechadas. “Este ano mesmo fiz dois sambas muito longos, tive de cortar”, sorri.

Ele conta que não aceita fazer parcerias, por isso vai “encaminhando” bons nomes ao mercado. “Tem o Edson Carioca, por exemplo, que fez o samba da Cinderela do José Abraão”.

Bororo mostra uma das homenagens que recebeu. Quando vem com nome escrito errado, ele devolve.
Bororo mostra uma das homenagens que recebeu. Quando vem com nome escrito errado, ele devolve.

Não toca instrumento algum, diz que “só brinca”, um contraste diante de tantas composições em 36 anos. “É tanta letra que tem vez que embaralha tudo na minha cabeça”. Já recebeu inúmeras homenagens pela contribuição ao Carnaval e tem a mania de devolver qualquer homenagem com nome dele escrito de forma errada.

Muito animado na hora de falar, Bororo conta que tem curso superior de Economia, Administração e o técnico de Turismo. Mas a aposentadoria veio como ex-funcionário da Telems. Avesso a qualquer tecnologia que não seja de TV, até hoje não tem celular e não usa a internet. “Essas coisas são muito perigosas”, brinca.

Há anos - Entrou oficialmente na folia quando conheceu o falecido Goinha. Morava no Jardim dos Estados, na rua Antônio Maria Coelho com Alagoas e pela vizinhança também conheceu Picolé, mais um dos pais do samba em Campo Grande.

Juntos fundaram a Mocidade Alegre do Santa Fé. Na época Adão Alceu, um “policial gente boa”, era uma personalidade do Carnaval na cidade e os sambas eram assinados pelo historiador Edson Contar.

Uma briga dividiu a agremiação e Picolé resolveu fundar a Unidos do Cruzeiro, em 81. “Foi aí que comecei a compor para a escola. Nunca quis ser dirigente. Não quero compromisso, quero ser livre.”

Mesmo assim, como todos os envolvidos no Carnaval de rua de Campo Grande, ele cobra a criação de uma passarela do samba na Capital, para fortalecer a festa e servir de espaço para ensaios. Também cobra ajuda da iniciativa privada. “As escolas são na maioria familiar, não pensam como empresa, porque não tem recursos. Não há projetos e empresários não ajudam nada”.

Com status conquistado na folia, ele é não faz firula na hora da critica. Diz que a “brigaiada” envolvendo Liga e escolas atrapalha o Carnaval. “O avanço é muito lento, devia ser mais rápido. O Carnaval melhora a passos de tartaruga. Campo Grande merece mais.”

Mas defende a dedicação de quem coloca o desfile na rua. “Já meti o cacete nessa organização do desfile daqui. Aparece uma escola e só uma hora depois a outra. Mesmo assim respeito pela dedicação. Vou todos os dias à noite em um dos barracões e percebo que é muito difícil. É muito esforço. Não é fácil colocar a escola com tão pouco dinheiro na rua.”

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