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Diversão

Na Copa, até “inimigo vira amigo” em rua decorada no Jardim Bonança

Arte feita por IA na casa de moradora brinca com rivalidades e resume tradição de 12 anos entre vizinhos

Por Kamila Alcântara e Inez Nazira | 19/06/2026 16:55
Na Copa, até “inimigo vira amigo” em rua decorada no Jardim Bonança
"Na Copa, até inimigo passa a ser amigo" diz ilustração de Lula com Bolsonaro em um churrasco (Foto: Osmar Veiga)

Na porta da casa de Enir Duarte, no Bairro Bonança, a Copa do Mundo conseguiu o que a política brasileira nunca faria: colocar Lula e Bolsonaro na mesma mesa, sorrindo, tomando chope e comendo churrasco. A cena não é real, claro. É uma arte feita por inteligência artificial, pendurada como decoração para o jogo do Brasil contra o Haiti nesta sexta-feira (19).

RESUMO

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Na Rua Portinho, no Bairro Bonança, em Campo Grande, moradores mantêm há 12 anos a tradição de decorar a rua e se reunir para assistir aos jogos da Seleção Brasileira. Cerca de 54 pessoas, entre famílias antigas e novas gerações, participam da mobilização. Neste ano, os vizinhos uniram as comemorações da Copa à festa junina, celebrando a união da comunidade que, segundo eles, fala mais alto do que quaisquer diferenças.

A frase estampada na imagem entrega o espírito da brincadeira: “Na Copa, até o inimigo passa a ser amigo”. Mais do que enfeite, a montagem resume o clima da Rua Portinho, onde vizinhos mantêm há cerca de 12 anos a tradição de se reunir para acompanhar os jogos da Seleção, decorar as casas e transformar a rua em ponto de encontro.

O Campo Grande News já havia contado essa história em 2018, quando a vizinhança pintou o asfalto de verde e amarelo, espalhou bandeirolas pelos postes e assistiu aos jogos em clima de arquibancada improvisada. Anos depois, a decoração mudou, a família cresceu, alguns moradores se mudaram, mas a tradição resistiu.

Hoje, cerca de 12 casas participam da mobilização. Ao todo, o grupo reúne aproximadamente 54 pessoas, entre moradores antigos, filhos que cresceram na rua, netos, crianças e parentes que já foram embora do bairro, mas voltam quando tem jogo do Brasil ou festa comunitária.

Na Copa, até “inimigo vira amigo” em rua decorada no Jardim Bonança
Enir está sempre envolvida nas decorações da rua (Foto: Osmar Veiga)

Enir tem 65 anos, é uma das figuras mais conhecidas da rua. Lá atrás, ela já aparecia como uma das principais incentivadoras da decoração. Na época, contou que começou pintando o meio-fio da própria casa e colocando enfeites na frente, até convencer os vizinhos a entrarem no clima.

Agora, a casa dela ganhou a arte que mistura Copa, churrasco e política em tom de brincadeira. A imagem de Lula e Bolsonaro juntos, improvável fora do papel, virou um símbolo bem-humorado da proposta da rua: durante o jogo, a torcida fala mais alto que as diferenças.

“Antes, a gente costumava se reunir na casa de algum morador e participavam cerca de 25 pessoas. Hoje temos mais moradores idosos, então ficou um pouco mais difícil para todos se deslocarem, mas sempre que possível continuamos nos reunindo para assistir aos jogos e manter essa tradição”, afirma Enir.

Filha de Edevance Martins, Hellen Laís Martins, de 39 anos, se mudou para a rua quando tinha apenas um ano de idade. Hoje, é casada, tem dois filhos e mora perto da mãe. Para ela, a Copa é só o motivo mais visível. O que sustenta tudo é a convivência construída ao longo dos anos.

“O principal de tudo isso é a união da comunidade. Já fazemos essa movimentação há cerca de 12 anos. Cada um ajuda como pode. Temos pessoas mais velhas, pessoas mais novas, então cada um contribui da sua maneira. Alguns ajudam na organização, outros na mão de obra, outros levam comida”, afirma.

A tradição virou herança familiar. Hellen diz que a rua já está na terceira geração de participantes. Muitos filhos de moradores antigos cresceram ali, casaram, mudaram de bairro ou seguiram outros caminhos. Mesmo assim, quando há jogo da Seleção ou confraternização, voltam para a casa dos pais.

Na Copa, até “inimigo vira amigo” em rua decorada no Jardim Bonança
Edevance e a filha Hellen, que também participam da decoração (Foto: Osmar Veiga)

“Essa tradição já está sendo passada de geração para geração. Muitos filhos cresceram aqui. Alguns se casaram, mudaram de bairro ou seguiram outros caminhos, mas quando chegam as festas ou os jogos da seleção, eles voltam para a casa dos pais e se reúnem com a gente novamente. Apesar da distância, a ligação com a comunidade continua forte”, diz.

Neste ano, a Copa ainda ganhou reforço de festa junina. Segundo Edevance Martins, de 58 anos, professora e moradora da rua há 38 anos, a confraternização junina começou depois de uma Copa do Mundo e virou tradição própria. Agora, os vizinhos decidiram juntar as duas festas.

“A nossa festa junina já acontece há cerca de nove anos. Ela começou depois de uma Copa do Mundo e acabou se tornando uma tradição da rua. Durante a pandemia não pudemos fazer a festa, mas continuamos nos reunindo de forma segura para momentos de oração, cada um na frente da própria casa”, relembra.

A decisão de unir Copa e arraial veio com bom humor e um pouco de cautela futebolística. Depois de tantas frustrações com a Seleção, ninguém quer esperar demais para comemorar.

“Neste ano surgiu a ideia de unir a festa junina com as comemorações da Copa. Resolvemos fazer tudo junto para aproveitar o momento e reunir ainda mais os moradores. A brincadeira é que vamos realizar a festa antes de o Brasil ser eliminado, porque do jeito que as coisas estão, ninguém sabe até onde a seleção vai chegar”, brinca Edevance.

Mesmo assim, a esperança segue viva. Só não vem mais sozinha. Agora, divide espaço com a desconfiança, o churrasco, a decoração e as piadas.

Na Copa, até “inimigo vira amigo” em rua decorada no Jardim Bonança
Na Copa, até “inimigo vira amigo” em rua decorada no Jardim Bonança
Chuva deixou os moradores tímidos, mas há expectativas para a noite de jogo (Foto: Osmar Veiga)

“Brasileiro não desiste nunca. A gente assiste aos jogos, acompanha tudo e mantém a esperança, mas com cautela. Não dá para se empolgar demais, porque depois a decepção pode ser grande. Mesmo assim, seguimos acreditando e torcendo pela seleção”, completa.

Na Rua Portinho, a Copa é menos sobre previsão de título e mais sobre permanência. A Seleção muda, os moradores envelhecem, os filhos saem de casa e até a decoração acompanha o tempo, agora com direito a imagem feita por inteligência artificial. Mas a ideia central continua a mesma: quando o Brasil entra em campo, a rua encontra um motivo para se juntar.

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