Titãs levam fãs de volta à adolescência em noite de clássicos
Clássicos como “Bichos Escrotos” e “Polícia” fizeram o público relembrar sucessos da banda em Campo Grande

Muito preto, fãs na grade desde cedo e uma ansiedade alimentada por clássicos que atravessam gerações. Antes mesmo de os Titãs subirem ao palco, na noite deste sábado (29), o público já dava o tom do que viria pela frente em Campo Grande. Teve mãe dividindo a paixão pela banda com a filha, fã realizando o sonho de vê-los ao vivo e muita gente pronta para voltar à adolescência ao som de um dos nomes mais importantes do rock nacional.
Os primeiros fãs chegaram cedo, e não eram apenas camisetas dos Titãs que marcavam presença. A gangue de preto já estava a postos, ocupando seu espaço e garantindo um lugar privilegiado na grade. Afinal, para quem não conseguiu uma das mesas de frente para o palco ou um lugar no camarote, a disputa pelo melhor ponto da pista começou cedo.
Show de abertura - Por volta das 20h30, foi a vez da Metrôvox subir ao palco e dar início à programação musical da noite. Logo no início, a vocalista fez questão de soltar um “Boa noite, Mato Grosso do Sul, não é Mato Grosso!”, sem confundir os estados, detalhe que arrancou a reação do público.
No repertório, a Metrôvox passeou por músicas próprias e versões que já fazem parte da memória afetiva do público. Entre os destaques esteve o hit “Beat Acelerado”. A banda também trouxe covers, incluindo “Fixação”, do Kid Abelha. O show foi finalizado, às 22h03, com “Balanço das horas”, quando a vocalista convidou o público das mesas a se levantar, mas poucas pessoas se juntaram a ela.
Os Titãs - Depois de quase meia hora de espera e de muita playlist para segurar a ansiedade, eles finalmente pisaram no palco. A formação dos Titãs, com Sérgio Britto, Branco Mello e Tony Bellotto, subiu ao palco. Por volta das 22h45, os primeiros acordes de “Cabeça de Dinossauro” fizeram o Bosque Expo virar outro lugar. A energia tomou conta do espaço.

Nas mesas, muita gente não conseguiu ficar sentada e levantou para cantar, dançar e curtir cada riff. O rock’n’roll estava oficialmente instalado. Um dos momentos mais marcantes veio com “Cabeça de Dinossauro”. Antes da música, a narrativa sobre a censura sofrida pela canção durante a ditadura ganhou força com a exibição do documento que registra o episódio. A presença de palco de todos os integrantes se manteve firme do primeiro ao último minuto.
Branco, inclusive, protagonizou uma dança durante o solo de bateria, mostrando que a energia estava longe de acabar. Na sequência, vieram outros hits, como “Quem Quer”, “Bichos Escrotos” e “Polícia”, mantendo o público em alta.
O show seguiu com a mesma intensidade até desacelerar com “Enquanto Houver Sol” e "Epitáfio", ocasião em que Sérgio pediu ao público que acendesse as luzes dos celulares. Mas a calmaria durou pouco: logo os solos de guitarra voltaram a tomar conta da apresentação. Embora os integrantes tenham conversado pouco com a plateia, a energia do espetáculo se manteve do início ao fim.

A interação ficou principalmente por conta do “Boa noite, Campo Grande!”, de Tony. Com luzes fortes e um telão ainda com visual pixelado, a apresentação apostou na força das músicas e na presença de palco para conduzir a noite, mantendo o público animado até os últimos acordes.
40 anos de Cabeça Dinossauro – Boa parte da força do show vem de um disco lançado quatro décadas atrás e que continua sendo central na trajetória dos Titãs. Antes da apresentação, Sérgio Britto e Tony Bellotto conversaram com o Campo Grande News sobre “Cabeça Dinossauro”, álbum de 1986 que marcou uma virada na carreira da banda.
Para Tony, foi naquele terceiro disco que os Titãs encontraram uma identidade que passaria a acompanhá-los. “Eu acho que o Cabeça de Dinossauro é o nosso terceiro disco, né? Mas foi nele que a gente encontrou mesmo a linguagem, né? Essa coisa que virou o nosso estilo. As letras diretas, né? Os cantos em coro, som pesado. E foi muito importante para a gente.”
Segundo ele, o álbum não nasceu com um conceito previamente definido. As músicas foram aparecendo a partir das composições dos integrantes e, aos poucos, revelaram um ponto em comum. “A gente começou a apresentar as coisas que cada um estava fazendo e a gente viu que tinha essa raiz assim da revolta, do questionamento e a gente resolveu fazer o disco que a gente quisesse sem se preocupar em tocar no rádio, nada disso.”
Quarenta anos depois, parte daquele incômodo continua fazendo sentido para os integrantes. Lançado em 1986, quando o Brasil havia acabado de sair de duas décadas de ditadura militar, o disco teve inclusive “Bichos Escrotos” censurada.
Em ano eleitoral, Tony avalia que revisitar o trabalho também funciona como um lembrete sobre liberdade e democracia. “É, interessante porque, é, realmente quando o disco foi lançado em 86, a gente estava saindo de uma ditadura militar. Tanto é que o Bichos Escrotos foi censurado, né? Ela não podia tocar publicamente e tal. E agora, né? Que a gente vive numa democracia, eu acho que o disco serve também como um grito de alerta que é importante a gente ficar ligado, né? Para defender essa democracia e e perceber como essa como essa liberdade é importante, né?”
Sérgio também destacou como as letras permanecem próximas de discussões atuais. “É, continua muito oportuno e atual, né? Isso é uma qualidade do disco. Mas é, é triste que a gente tenha que ficar, é, lutando, né? Para para mostrar que a democracia é importante, né? Eu acho que nesse momento eleitoral, como você falou, é muito importante a gente ter isso em mente, que a democracia, a liberdade são valores assim fundamentais.”
No palco, a primeira parte da apresentação foi dedicada ao disco, enquanto o segundo set abriu espaço para sucessos de outras fases da carreira. Antes do show, eles já prometiam que a sequência teria músicas mais conhecidas do público.
“A gente tem um repertório muito grande, ainda bem. Nenhum fã vai sair decepcionado de lá, posso garantir”, brincou Tony.
Fãs - Entre o público, a médica veterinária Bárbara Bastos, de 42 anos, e a filha Isadora Bastos, de 13, aguardavam com expectativa o primeiro show dos Titãs que assistiriam juntas. Fã da banda desde a adolescência, Bárbara contou que a paixão pela música nasceu dentro de casa. “A gente vai apresentando para os nossos filhos os nossos gostos musicais”, disse.

No entanto, foi Isadora quem reforçou o vínculo com o grupo com o álbum “Homem-Primata”. “Depois dela, eu estava escutando praticamente todas as músicas deles todos os dias”, relatou a jovem. Animadas para ouvir sucessos como “Homem-Primata”, mãe e filha destacaram o significado da banda em suas vidas. “É a trilha da minha vida, da minha adolescência até hoje, passando para as próximas gerações”, resumiu Bárbara.
Para a contadora Angélica Romero, de 42 anos, assistir aos Titãs é também reviver uma história que começou na adolescência. Ela chegou ao local por volta das 17h30, animada para reencontrar a banda que já havia visto em Campo Grande, em 2022. “Foi muito legal. Agora estou com uma expectativa bem boa e quero escutar ‘Família’”, contou.

A relação com o grupo, porém, vem de muito antes. Aos 14 anos, quando morava em São Paulo (SP), Angélica queria assistir a um show gratuito dos Titãs no Vale do Anhangabaú, mas acabou ficando de castigo. “Eu e meu irmão ficamos de castigo para não poder ir. Por isso, ‘Família’ é uma música que representa aquela época para mim”, relembrou. Esta foi a terceira vez que ela acompanhou a banda ao vivo.
Moradora de Dourados, a professora Priscila Potti, de 42 anos, veio a Campo Grande para realizar um sonho: assistir aos Titãs ao vivo. Fã desde os 12 ou 13 anos, ela cresceu ouvindo o clássico “Cabeça Dinossauro”, disco que marcou sua adolescência e juventude.
É um clássico do rock nacional, um disco que não pode ser esquecido e tem que ser lembrado sempre”, destacou. Para a noite, a expectativa era ouvir “Polícia”, “Bichos Escrotos” e “Pulso”. “É uma honra poder ver esse show hoje, pessoalmente. É um sonho realizado”.
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